Ela quase desistiu de tudo por sentir-se sozinha numa cidade estranha. Com persistência, talento e boa dose de sorte, a mineirinha Isis Valverde atingiu o status de grande promessa de sua geração, vive a primeira protagonista após quatro papéis na TV e continua dizendo ‘não’ às revistas masculinas. Pelo menos por enquanto: ‘Minha sensualidade é natural. Nunca pensei em mim como um símbolo sexual. Não digo que nunca farei, até porque não sei o dia de amanhã’
Ela abre a porta com um sorriso enorme no rosto e diz que somos a primeira visita na casa nova. Um apartamento simples e aconchegante, com vista ampla para a Pedra da Gávea. No hall de entrada, fragmentos de poesia decoram as paredes, acolhendo quem chega. Algo muito típico da moradora Isis Valverde, que traz no gestual e na fala a mineirice de quem vai logo oferecendo “uma água, um cafezin, um pedacin de queijo”.
— Se me deixar, pergunto se querem alguma coisa a cada 15 segundos. É costume, né? — justifica-se a moça de 23 anos, nascida em Belo Horizonte, criada na quase roceira Aiuruoca, e no Rio desde 2006: — Acho essa cidade a coisa mais linda do mundo!
Nem sempre foi assim. Na cidade em que escolheu viver e onde acaba de comprar o primeiro apartamento, Isis já passou por muitos perrengues. Ao sair de Belzonte, se ajeitou no quartinho dos fundos da casa de uma senhora, que tinha uma neta aspirante à atriz. Na barulhenta Copacabana, viu seu pavor por baratas aumentar, até hoje tem trauma de um certo caminhão de frete e nunca deu tanto valor a um canto para chamar de seu.
— Era uma loucura. A dona da casa não gostava que eu transitasse pela sala, mas para ir à cozinha tinha que passar por lá. Também não podia acender a luz à noite. Então, eu ia batendo a cabeça na parede até encontrar o banheiro (risos). Dormia num quartinho micro, que dava de frente para a lixeira do prédio, no térreo. E tenho pavor, sabe o que é pavor?, de barata. Quando elas apareciam, saía gritando pela casa, apavorada. E aí não tinha essa de não passar pela sala — conta: — Todos os dias, às 5h, parava um caminhão de frete em frente à minha janela. O motorista berrava e ficava de conversa até as 10h. E eu que nem um zumbi. Até hoje odeio aquele caminhão.
Desde criança, Isis também morre de medo do escuro. E não é que a senhoria da então modelo era meio sádica?
— Ela dizia que via a alma de uma mulher morta entrando no meu quarto. Dá para imaginar o horror que era isso? — recorda Isis, que tem a companhia de uma empregada para não dormir sozinha: — Jamais durmo no escuro. Tem que ter uma luzinha, uma frestinha iluminada que seja, senão não durmo.
Não seria de estranhar que, após esse circo dos horrores, a moça sentisse uma enorme vontade de voltar para a casa dos pais. Sozinha, fragilizada e deprimida, pegou o primeiro ônibus que encontrou e se mandou para Aiuruoca:
— Cheguei a um ponto que não dava mais. O Rio não é Minas. É muito diferente, é bacana, mas eu estava completamente sozinha, muito triste, magérrima. Peguei um ônibus arrasada. Na minha frente tinha uma mulher que não parava de comer um bife numa marmita. Aquilo me enjoando e eu pensando: “Putz, fracassei, tô voltando pra casa e ainda tem esse cheiro me enjoando. O que me resta?”.
A partir daí a grande maioria sabe o que aconteceu: logo depois, Isis recebeu um telefonema da Globo chamando para fazer um teste para “Sinhá Moça” (no ar em “Vale a pena ver de novo”), derrotou 36 meninas e ganhou a primeira personagem: a meiga e misteriosa Ana do Véu.
— Pensei: “Seja o que Deus quiser”. Era minha última tentativa. Quando comecei a fazer a Ana, nem pensava no amanhã, não me sentia uma estrela. A última coisa em que pensava era em contrato. Queria era respirar aquela magia, ter aquelas casinhas construídas para o meu cenário, meu figurino, a sensação de que tudo o que eu vivia era real — lembra ela, que começou no teatro aos 5 anos, interpretando a Pantera Cor-de-Rosa.
Depois de Ana, vieram mais três personagens grandes e, finalmente, uma protagonista: a atual Marcela, de “Ti ti ti”.
— Foi a personagem para a qual mais me preparei, estudei e tive tempo de compor. Não sinto o peso de ser protagonista porque existem atores maravilhosos que encabeçam esse elenco e são meu alicerce — derrama-se.
Cartas para Marcela
A princípio, Marcela é mais uma mocinha típica no ainda breve currículo de Isis Valverde. A mineirinha da novela das sete, porém, dá trabalho à intérprete.
— Ela é talvez a mais mulher de todas. Costumo dizer que a Marcela tem uma adultês que as outras não tinham. Ela tem preocupações e nuances de uma mulher mesmo, não de uma garota — defende Isis, que além de ser de Belo Horizonte, como a personagem, também vê nela própria uma transformação: — No meu jovem ponto de vista, sou a mesma Isis de quatro anos atrás, mas estou mais mulher no corpo, nas vontades, nas decisões... Demorei para fazer essa transição. Hoje sei lidar melhor com a maldade. Antes, chorava. Hoje engulo e entendo, conto até dez. Sou mais cautelosa nas decisões afetivas, nas amizades e no trabalho. Estou mais madura e reflexiva.
O que faz a bela chorar são as decepções do dia a dia. Aquelas que mostram como é duro crescer. Muitas vezes, as reflexões dessa rebelião interna vão parar no papel, em prosa ou verso, e no blog que mantém. “Deixei aquilo tudo porque já tinha tudo, queria conhecer o nada (...) e vim, de mala e cuia, como diz em bom mineiro, para a cidade, grande cidade!” e “Vejo tantos recrutas do amor, tantos ricos ou mendigos de amor, vejo vários lacaios do amor, eu vejo amores (...)” são textos publicados. Impublicável, no entanto, são as cartas que troca com a personagem. Explica-se: Isis tem um caderno onde estão todas as histórias de suas mocinhas.
— É como se elas se apresentassem a mim e nos tornássemos amigas e confidentes — conta a moça, que não deixa ninguém ler as tais confidências. No máximo, dar uma olhadela na capa do tal diário: — É muito íntimo, sabe?
Certamente, nas cartas que Marcela “escreveu” para Isis tem toda uma série de justificativas para que a menina assumisse um namoro de mentirinha com Osmar (Gustavo Leão), o gay até certo ponto assumido que morreu num acidente de carro logo no início da novela.
— Ela não queria que os pais do Osmar pensassem que ela era a namorada dele, em várias cenas tentou contar a verdade. Ela é ética, mas foi o momento em que a razão se submeteu à emoção, à versão animal. Poxa, ela vai ter um filho e não tem nada: casa, dinheiro, emprego, o homem que ama... Por questões de princípio, ela não faria isso, mas vai ser mãe e, neste caso, pesa muito — explica Isis: — Marcela tem uma coisa do mineiro que as pessoas podem achar muito recatada, ou que ela come quieta. É que somos mais circunspectos mesmo. Até no figurino dela isso está presente. É mais comportadinho, ingênuo. Marcela, assim como eu, tem a brejeirice, a paixão por cavalos, pão de queijo, cafezinho. Essa boa vontade de acolher o outro.
Da mesma forma que mantém uma “conexão” com suas personagens, Isis vive um luto quando elas “vão embora”:
— Tenho uma lembrança de cada uma guardada numa caixinha. Peço ao figurino mesmo. Da Ana tenho até o véu! Mas essa despedida dá um vazio enorme. Poucos antes de a novela acabar, vou me fechando, choro, fico mal.
(Retratos da Vida, Extra)
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