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Os primeiros passos de Gilberto Gil

Álbum duplo traz de volta canções do músico gravadas de 1962 a 1966, em início de carreira   É daqueles discos para fã ou pesquisador, trazendo os primeiros passos de Gilberto Gil na música, com gravações que cobrem de 1962 a 1966. Algumas esquecív

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Álbum duplo traz de volta canções do músico gravadas de 1962 a 1966, em início de carreira

É daqueles discos para fã ou pesquisador, trazendo os primeiros passos de Gilberto Gil na música, com gravações que cobrem de 1962 a 1966. Algumas esquecíveis, não fosse ele o intérprete, outras de qualidade técnica precária, mas que ajudam a revelar o retrato do artista quando jovem promissor. Algo que, ainda naquele distante 1966, o Brasil começou a reconhecer.

Álbum duplo, idealizado e produzido por Marcelo Fróes para seu selo Discobertas, “Retirante” traz, no CD 1, “Primeiras gravações”, 13 canções tiradas de compactos editados entre 1962 e 1966 — e, na única exceção, um registro amador, feito em 1972 pela equipe de reportagem da revista “Bondinho”, de “Felicidade vem depois”, de 1962, que Gil considera a sua primeira composição para valer. O segundo CD, “Demo para Arlequim”, como seu título diz, trata-se de uma fita de demonstração que fez no início de 1966 na editora musical Arlequim, em São Paulo, acompanhando-se ao violão em 18 faixas. Era praticamente o seu songbook na época, usado para oferecer suas composições aos intérpretes do período.

Os primórdios de Gilberto Gil, ou Beto, como então era conhecido o jovem estudante universitário de Administração de Empresas, estão nas oito primeiras faixas do CD 1, gravadas em 1962 e 63 para o selo JS Discos. Essas gravações já tinham sido editadas como um CD bônus da caixa “Palco”, em 2002, que reuniu toda a obra registrada até então por Gil na Warner Music.

Nas duas primeiras, “Povo petroleiro” e “Coça, coça Lacerdinha”, na época lançadas como um single de 78rpm, ele é apenas o intérprete: as (fracas) composições têm a assinatura de Everaldo Guedes, então funcionário da Petrobras. As marchinhas não impressionaram ninguém, mas o intérprete, acompanhado pela Orquestra do Maestro Xaxá, foi convidado por Jorge Santos (cujas iniciais batizavam a gravadora) para voltar ao estúdio, dessa vez para fazer, no início de 1963, um autoral compacto duplo — formato de disco com quatro faixas —, “Gilberto Gil: sua música, sua interpretação (a ‘bossa nova’ da Bahia)”. Quatro canções, “Serenata do teleco-teco”, “Maria tristeza”, “Vontade de amor” e “Meu luar, minhas canções”, que acenavam com muitas das características melódicas e das fixações poéticas do compositor.

ACORDEON

Essa faceta, na verdade, estreara um ano antes, também na JS Discos, com “Bem devagar”, mas nas vozes do grupo As Três Baianas (com as irmãs Cynara e Cybele, que logo depois estariam no Quarteto em Cy, nome criado por Vinicius de Moraes) — esse raro registro ficou de fora de “Retirante”, mas merecia entrar, já que, além de ser o autor, Gil participou da gravação como acordeonista, seu primeiro instrumento. A fase na JS é completada por outro single de 78rpm, de 1963, com “Vem colombina”, música de Silvan Castelo e Jorge Santos classificada num concurso organizado pela empresa de turismo de Salvador, e “Decisão (Amor de carnaval)”.

Em 1965, já formado e radicado em São Paulo — onde foi trabalhar na empresa Gessy Lever —, Gil seria contratado pela multinacional RCA, junto a Caetano, Gal, Bethânia e Tom Zé, o grupo que, um ano antes, montara o espetáculo “Nós, por exemplo”, que, em junho de 1964, inaugurou o Teatro Vila Velha, em Salvador. Gil fez apenas um compacto na RCA, com “Procissão” (parceria com Edy Star) e “Roda” (com João Augusto), e também participou com “Iemanjá” (esta em parceria com o ator Othon Bastos) do LP coletivo “4o. Festival da Balança”. Inexplicavelmente, a RCA não segurou Gil, mesmo que aquelas canções já anunciassem o compositor excelente. Algo que o Tamba Trio e Elis Regina logo perceberam: o grupo de Luiz Eça, então no auge do sucesso, regravou “Procissão” ainda em 1965; a estrela gaúcha foi de “Roda”, no ano seguinte. E o próprio Gil tratou de regravar as duas no seu LP de estreia na Philips (Universal), “Louvação” (1967).

Antes, ainda em 1966, ele lançou na Philips um compacto com “Ensaio geral” e “Minha senhora”, que completam o primeiro CD de “Retirante”.

O segundo CD, “Demo para Arlequim”, é o mais raro, com gravações que nunca tiveram distribuição comercial. Com seu violão, Gil apresenta as suas armas: há canções de seus obscuros compactos lançados anos antes em Salvador, como “Serenata do teleco-teco”, “Decisão (amor de carnaval)”, e também músicas que ficaram inéditas até hoje, como “A última coisa bonita”, “Me diga moço”, “Retirante” e “Rancho da boa vinda”.

Ótimo material para quem se interessa pelos primeiros passos do cantor e compositor que, a partir de 1968, esteve entre os inventores da Tropicália. E muito oportuno, já que, nesta terça-feira e no dia 24 de agosto, Gilberto Gil é o convidado no bate-papo “50 anos da música brasileira por seus personagens”, ciclo de palestras que vem sendo realizado no POP (Polo de Pensamento Contemporâneo, no Jardim Botânico), com mediação do jornalista Hugo Sukman. (Agência O Globo)

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