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Parcerias que se estendem para além dos holofotes

Há relações fraternas que, de tão intensas, transbordam para outros níveis. No cenário artístico, estes laços garantem grandes obras, há muitas gerações. Afinal, não é de hoje que relações de amizade apresentam ao mundo obras sensacionais (veja quadro).No

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Há relações fraternas que, de tão intensas, transbordam para outros níveis. No cenário artístico, estes laços garantem grandes obras, há muitas gerações. Afinal, não é de hoje que relações de amizade apresentam ao mundo obras sensacionais (veja quadro).
No caso do ator e bailarino paraense Ícaro Gaya e do diretor e coreógrafo Danilo Bracchi, as diferenças limitam-se apenas à lacuna etária de quase duas décadas que os separa - um tem 23 e o outro, 41 -, às preferências musicais, e talvez algumas orientações políticas.
“No geral, temos muito em comum. Nossa convivência de três meses durante um projeto de residência artística na Europa marcou muito essa relação”, conta Ícaro.

A amizade entre os dois se reflete nos trabalhos que desenvolvem juntos. “Além de garantir afinidade nas experimentações cênicas, traz uma leveza ao trabalho que não se conquista com qualquer parceiro. Quando apresentamos improvisações em dança contemporânea em forma de dueto há quem pense que ensaiamos durante muito tempo, isso graças à amizade”, explica Danilo. A dupla se conheceu em 2009. “Na época eu não tinha passado no vestibular, tinha que arrumar algo para ocupar meu tempo e estava interessado em fazer dança. Um dia vi na escola de teatro um cartaz chamando para aulas de dança no Cuíra. Apareci, fiz a aula e ele me convidou pra participar do processo de montagem do espetáculo ‘Tão Bonito de Tão Feio’”, lembra Ícaro.

E não parou por aí, a amizade rendeu ainda o dueto “Homens”, a montagem “Bailarina Fassbinder” e várias apresentações no formato intervenção urbana. “O Ícaro é daquele tipo de ser humano digno e generoso que acredita na troca e que precisa dialogar. Temos uma intimidade ímpar, um grande respeito pelo nosso trabalho. Agradeço muito por ele ter comprado a ideia de montar o grupo [Companhia de Investigação Cênica] e de abraçar esse tipo de processo artístico”, diz Danilo.

Terna via de mão dupla

Renato Torres é uma das crias da cultura local com características ímpares, como a capacidade de ser multifacetado: cantor, compositor, poeta, instrumentista, arranjador e diretor musical. Tantas funções lhe proporcionaram transitar por diferentes meios e criar vínculos de carinho e ternura com uma geração talentosa. Foi assim com a cantora Juliana Sinimbú. “Nos conhecemos numa das noites em que tocava no extinto Bar Bodega, em meados de 2007. Houve algo de mágico, uma identificação imediata, apesar das imensas diferenças entre nossas personalidades, modos de viver e visões de mundo. É algo que só consigo explicar pela arte, por aquilo que nos aproxima e irmana não só a nós como artistas, mas em nossa relação com o público. Nos tornamos parceiros, amigos, confidentes e irmãos quase que imediatamente, numa relação de confiança mútua, de troca e crescimento artístico”, diz Renato.

Juliana não esconde a alegria em relembrar o começo de tudo. “Faz cinco anos desde o dia em que vi Renato dando uma canja, cantava ‘Flor da Idade’, música do Chico Buarque que sempre cantamos juntos. Tive a sensação de que já o conhecia, durante a canção não conseguia conversar, fiquei vidrada e a vontade que eu tinha era de ser amiga dele naquele dia”, afirma. Para falar do parceiro, ela rasga seda e não esconde a admiração. “Renatinho é amor da cabeça aos pés. Entrega-se de alma e coração nas mais simples canções da nossa parceria, se orgulha delas como se fosse a melhor canção do mundo. Tem uma sensibilidade sem igual, letras com história, uma pegada rock’n roll e ao mesmo tempo delicadíssima. Eu sou fã dele”, exalta.


Entre a participação de Renato no show “Daqui pra frente” (2007), de Juliana, e a participação dela no show “A Volta do Mundo” (2008), da banda de Renato, Clepsidra, o carinho entre os dois gerou vários frutos. O mais recente deles é a concepção do primeiro CD de Juliana, ‘Sonho Bom de Fevereiro’, gravado entre 2009 e 2010 e que marcou também a estreia da artista como compositora.
Para este ano, novos trabalhos estão sendo preparados pela dupla. “Iniciamos um novo projeto de Juliana, o ‘Una’, que consiste em quatro EPs conceituais, amarrados pelos elementos naturais água, terra, fogo e ar, trabalho concebido a três cabeças, junto ao baterista Arthur Kunz. Ah! Não posso esquecer da participação dela no meu primeiro show solo, ‘Vida é Sonho’, que será também meu CD de estreia”, comemora Renato.

Sai a vaidade, entra o aprendizado - dentro e fora dos palcos


Quando duas cantoras que decidem investir no mesmo estilo e tipo de repertório crescem musicalmente juntas participando dos mesmos eventos e até do mesmo conservatório, seria compreensível se houvesse algum tipo de rivalidade. Porém, no caso de Gigi Furtado e Cacau Novais, esta aproximação se traduz em admiração mútua. “Nos conhecemos quando fazíamos Carlos Gomes, há quase 15 anos. Nos intervalos das aulas conversávamos em um chafariz que ficava na área de lazer, era algo bem juvenil mesmo. Eu sempre muito espalhafatosa e a Cacau com toda aquela delicadeza, parecia uma boneca de porcelana, sorria o tempo todo”, diverte-se Gigi ao relembrar dos primeiros encontros com a amiga.

O alto astral e euforia contagiantes de Gigi impressionam Cacau até hoje. “Essa energia que ela emana nos palcos é a mesma que ela leva consigo no cotidiano. Aprendo muito com ela. Procuro observar o que ela possui de mais interessante nas apresentações. Conversamos, trocamos experiências. Isso é excelente inclusive para nossa carreira”, conta Cacau. Quando subiram ao palco juntas em junho, durante a temporada de shows “So In Love” de Gigi, as duas viveram um momento de nostalgia. “A apresentação tinha esse mote de trazer referências musicais da vida dela, pessoas que cresceram junto, que fizeram parte da vida dela. Então, imagina como ficou minha cabeça, né? Sou amiga e fã dessa mulher”, derrete-se Cacau.

TROCA

A montagem “O assassinato de Machado de Assis” marcou a vida do ator e cantor Felipe De Pinho e da atriz Maíra Monteiro. Foi durante os ensaios do espetáculo que eles se conheceram e partir de então nutrem um carinho especial um pelo outro. “Fui dar uma força para o elenco, pois havia muita troca de figurino e pouco tempo, mas nossa amizade se consolidou depois que começamos a ensaiar a peça ‘Acorde Margarida’”, explica Maíra. “Combinamos, eu passo o que sei de teatro e ele o que sabe de canto, no final foi um trabalho maravilhoso, o resultado está no palco. Também superamos juntos outras dificuldades que surgiram no decorrer do processo, o que é normal quando lidamos com vaidade”, completa.
Para definir a amiga, Tiago não mede adjetivos. “É uma artista que serve de exemplo para todos, é bastante generosa com os que estão começando. Não tem medo de se doar. É magnífico ver a Maíra em cena. Por diversas vezes ela me surpreendeu no palco”, emociona-se.

De mãos dadas

Tom Jobim e Vinicius de Moraes: Da amizade entre um poeta e um maestro surgiram preciosidades da música brasileira. Dessa fina sintonia nasceu, em 1962, o maior sucesso de Tom e Vinicius: “Garota de Ipanema”. Ainda viriam “Se Todos Fossem Iguais a Você”, “Canção do Amor Demais” e “Lamento”, entre tantas outras canções primorosas, feitas entre charutos e uísques

Milton Nascimento e irmãos Borges: Era 1963 quando Milton chegou a Belo Horizonte. O encontro com os irmãos Borges não tardou. Foram tardes regadas a batidas de limão, ouvindo Beatles e estudando harmonia ao lado de Márcio e seu irmão, o pequeno Lô, de apenas dez anos. Dessa amizade surgiu o Clube da Esquina, que misturava rock inglês, bossa, choro e jazz a uma grande força poética: canções como O Trem Azul e Tudo o que Você Poderia Ser foram o marco zero para a música mineira.

Buñuel, Lorca e Dali: Entre as mentes mais inquietas e revolucionárias da década de 20, o trio de artistas se conheceu enquanto estudava em Madri. Em sua biografia, Buñuel, cineasta surrealista, conta de sua profunda amizade com o escritor Frederico Lorca e com o excêntrico pintor Salvador Dalí, parceria que fez emergir uma pedra fundamental da sétima arte moderna.

Mick Jagger e Keith Richards: Guitarrista e vocalista de uma das bandas mais lendárias do rock, Keith e Mick dividem os palcos há mais de 50 anos e desde meados dos anos 80 vivem entre tapas e beijos. Diferenças à parte, a amizade dos dois rendeu muitos hits, entre eles, Satisfaction e Simpathy for the Devil, os maiores sucessos do Rolling Stones.
Roberto e Erasmo Carlos: A parceria mais bem sucedida da música brasileira, em venda e popularidade, rendeu nada menos que 500 canções. Mas essa história também não foi só um mar de rosas. Em 1966, numa homenagem que o programa “Show em Si…Monal” faria para Erasmo, as músicas da dupla “Parei na Contramão” e “Quero que vá tudo pro inferno” foram creditadas apenas ao Tremendão. Roberto Carlos se sentiu sabotado e a parceria se desfez. Dois anos depois, os músicos reataram a amizade e compuseram a frenética “Eu sou terrível”.

John Lennon e Paul McCartney: Qual seu Beatle predileto? Paul e Lennon já ocuparam lados opostos da batalha. Os dois gênios construíram uma das bandas mais influentes da história e criaram juntos cerca de 180 canções. Mas com o fim do grupo, no começo da década de 70, foi por meio de canções que os dois trocaram farpas. Ouça Too Many People”, de Paul e a fulminante “How do You Sleep?”, de Lennon.

(Diário do Pará)

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