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Sambista fala de sua relação de amor com Belém

“Nada vai ficar de fora”, garante Domingos da Costa Ferreira, o Dominguinhos do Estácio, intérprete da escola de samba carioca Imperatriz Leopoldinense. Batizado pelo rebuscado nome de “Pará, o Muiraquitã do Brasil - sobre a nudez forte da verdade, o mant

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“Nada vai ficar de fora”, garante Domingos da Costa Ferreira, o Dominguinhos do Estácio, intérprete da escola de samba carioca Imperatriz Leopoldinense. Batizado pelo rebuscado nome de “Pará, o Muiraquitã do Brasil - sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia”, o enredo da escola de samba carioca realmente se esforça para contemplar todas as qualidades do Estado. Círio de Nazaré, Ver-o-Peso, carimbó, tacacá e cerâmica marajoara, os principais cartões-postais da região serão condensados em um desfile de uma hora e 20 minutos na Marquês de Sapucaí.

“Chegaram a falar que era um tema batido. A Estácio de Sá, Beija-Flor e Viradouro já se inspiraram no Pará para os seus desfiles. Mas mesmo assim eu insisti. Eu tenho um caso de amor com Belém”, revela o cantor fluminense de 70 anos em entrevista por telefone de Cachoeiras de Macacu, município do interior do Rio de Janeiro.

Em 1998, a Beija-Flor explorou o lado religioso paraense ao fazer referência à pajelança indígena na música “Pará - O Mundo Místico dos Caruanas nas Águas do Patu-anú”, que garantiu o título de campeã do carnaval daquele ano, empatada com a Mangueira.

Já a Unidos de São Carlos, hoje Estácio de Sá, mostrou outra face do sagrado, retratando a procissão católica em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré com “Festa do Círio de Nazaré”, de 1975. Trinta anos depois, o enredo foi reeditado pela Unidos do Viradouro sob o título de “Pediu Pra Pará, Parou! Com a Viradouro Eu Vou... Pro Círio de Nazaré”.

Dominguinhos, inclusive, foi o intérprete de a “Festa do Círio de Nazaré”, o que o levou à sua primeira visita a Belém, na década de 1970. Desde daquela época, ele luta para reparar o que considera uma injustiça: o sexto lugar conferido ao samba-enredo.

“Eu sou muito ligado ao Pará. Foi o lugar que eu fui mais bem tratado na vida. Eu vim para a cidade pela primeira vez para fazer a pesquisa do samba enredo sobre o Círio. O samba hoje virou uma espécie de hino. Sempre sou convidado para cantar na igreja, já cantei durante missas. Até hoje não me conformo de a gente não ter sido campeão”, recorda.

A viagem à capital paraense tocou profundamente o sambista. Tornou-se devoto da santa ao ponto de realizar seu casamento na Basílica de Nossa Senhora de Nazaré, santuário no qual a imagem repousa ao longo do ano.
Sob as bênçãos de Nossa Senhora de Nazaré

“Fiz questão de me casar em Belém, para estar ao lado da santa. Em 1998, voei ao lado da minha mulher, que é carioca, e mais uma comitiva de 26 convidados. Dom Vicente Zico deu as bênçãos. Sou tão devoto que batizei minha filha caçula de Livian Nazaré”, revela a voz de um dos refrões mais conhecidos do carnaval, “Liberdade, Liberdade, Abra as Asas Sobre Nós”. A música que deu o título à Imperatriz Leopoldinense em 1989, atualmente foi resgatada como tema da abertura da novela das seis, “Lado a Lado”.

Com 40 anos de carreira como puxador de samba, Dominguinhos começou sua trajetória no Carnaval na então Unidos de São Carlos, no final dos anos 1960. Entrou para a Imperatriz em 1979, garantindo no ano seguinte o primeiro título dela no grupo especial. Após um período afastado da escola de Ramos, bairro da zona norte do Rio de Janeiro, cantando para a Acadêmicos do Grande Rio, Estácio de Sá e Unidos da Viradouro, ele retornou em 2010.

Dominguinhos também passou pelo Carnaval de Belém, cantando por cinco anos consecutivos na escola Rancho Não Posso Me Amofiná na década de 1980. “Fiquei como puxador de samba por seis anos consecutivos, garantindo à escola cinco campeonatos. Até hoje minha relação com Belém é muito próxima. Não perco um Círio há 20 anos. Todo ano canto no Auto do Círio. Recebi da Assembleia Legislativa Paraense e da Câmara de Vereadores de Belém o título de cidadão paraense. Sou ‘papa-chibé’, só falta morar aí de vez”, diz em meio a risos.

O cantor conta que segue na sua missão de embaixador do Estado. Distribui pelo barracão da escola dezenas de colares com os muiraquitãs - sapinhos de pedra verde considerados amuletos da sorte. Como fé nunca é demais, até o monsenhor Aroldo Ribeiro, da Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro, já realizou duas visitas ao barracão da escola. No último encontro, Dominguinhos fez até um pedido especial ao religioso: que benzesse sua garganta.

“Em 2011, eu tive um problema de pressão e fiquei sem cantar no Carnaval. Considero minha volta um milagre de Nossa Senhora de Nazaré. Tenho certeza de que ela está do nosso lado este ano”, profetiza o cantor.
Carro alegórico reverencia o tecnobrega

Um dos destaques da Imperatriz Leopoldinense para o Carnaval do Rio de Janeiro 2013 será o ritmo da periferia paraense, o tecnobrega. O carro alegórico “Pará Tecnoshow” será uma réplica de uma picape de aparelhagem. A nave de som irá emular os efeitos de uma verdadeira, contando com uma plataforma móvel, além de iluminação em LED e canhão de raios laser. No destaque, a nova e velha geração da música paraense, com Gaby Amarantos e Pinduca, o rei do carimbó.

“Não gosto do termo brega, acho que ele deprecia. Quem vai a Belém e visita uma festa de aparelhagem vê que não tem nada de brega: é moderno, bonito e diferente. Mas entendo que é um termo que acabou sendo assumido pelos próprios artistas como sinônimo de popular. Mas no nosso caso será espetacular, tratado com todo brilho que merece”, define o carnavalesco carioca Cahê Rodrigues, 36.

A Imperatriz virá na avenida com 3.200 componentes, divididos em seis setores. O primeiro vai abordar as tribos que habitavam o local antes do descobrimento e a força que representam na construção do Estado. O segundo setor conta o primeiro contato do caraíba (homem branco) com essas tribos. O encantamento que tiveram quando botaram os pés no Oby, que significa santuário virgem.

O terceiro momento será a transformação do Estado com o ciclo da borracha. A alegoria encerra com uma réplica do Theatro da Paz. O carro tem uma base de aproximadamente 20 metros, chegando a nove metros e meio de altura. No carro estarão personalidades paraenses como Leila Pinheiro, Rosa Maria Murtinho, Jeane Duboc e Lúcio Mauro.

O quarto setor engloba o artesanato local. Neles estarão o brinquedo de miriti, a cerâmica marajoara. Culmina com o mercado do Ver-o-Peso. Já o quinto setor corresponde aos ritmos, ao folclore e danças do Pará. Estarão representados, além do tecnobrega, a marujada, o carimbó, o siriá e o boi-bumbá.

O desfile culmina com o Círio de Nazaré, representado com uma romaria de aproximadamente 300 integrantes. Como não poderão utilizar a imagem da santa para evitar problemas com a igreja católica - como foi o caso do desfile de Joãosinho Trinta pela Beija Flor em 1989, quando uma réplica do Cristo Redentor foi vetada pela Justiça -, a solução encontrada foi reproduzir Nossa Senhora de Nazaré em meio a um jogo de luzes.

“Visitei o Pará pela primeira vez pro causa desse desfile. E descobri um povo alegre, festeiro e que, apesar dos problemas, como todas as cidades brasileiras têm, muito orgulhoso de ser paraense. O desfile acabou sendo construído para os paraenses”, afirma o carnavalesco.

Fundada em 1959, a Imperatriz Leopoldinense já foi campeã oito vezes no Grupo Especial. No carnaval de 2012, a agremiação ficou em 10º lugar. A escola é a penúltima a desfilar da segunda-feira (11).

(Diário do Pará)

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