Você torce o nariz para música de conteúdo religioso e sente arrepios só de ver um padre cantor. Mas aí, fã de samba que é, começa a ouvir uma música de Alcione e se perde no ritmo, na cadência da melodia, vai cantarolando até que entra uma voz masculina e pensa: “Que dueto legal!”.
Aí passa para outra faixa do disco e lá vem Zeca Pagodinho, outro sambinha bom, e mais um com a curitibana Ninah Jo, mas lá está aquele mesmo cantor fazendo dueto com ambos. Curioso, vai dar uma olhada na capa do disco para saber quem é aquele ser onipresente em todas as músicas e eis a surpresa: Padre Fábio de Melo.
Por um momento, você torce o nariz, lembra que não gosta de música de conteúdo religioso, sente aquele arrepio de ouvir um padre cantor, mas percebe que o preconceito às vezes nos cria barreiras para descobrir coisas no mínimo interessantes.
O novo disco do Padre Fábio de Melo poderia ser só mais um disco do padre artista mais badalado e controverso – há quem ame, e quem odeie o estilo dele – do catolicismo brasileiro, mas ele, esperto como é, de tanto andar pelo mercado musical e pelo universo artístico além-igreja, elaborou uma estratégia inteligente, com letras que, à uma primeira audição, nem de longe lembram músicas de evangelização. E é exatamente assim, no uso da arte para ensinar a palavra, é que está sua maior virtude.
“Achei bacana ele compor e cantar samba, que é totalmente brasileiro e a essência da nossa música. É legal ter um padre cantando samba porque, ‘se sambar é pecado, Deus queira me perdoar’”, brinca Zeca Pagodinho, citando um samba popular na década de 1950.
Além dos sambistas citados, “Deus no Esconderijo do Verso” traz ainda Fagner, Elba Ramalho, Fafá de Belém e Nana Caymmi. Nas músicas com Fagner e Elba, inclusive, o mergulho é num universo sonoro rítmico com elementos nordestinos. “Ele tem a voz boa e ultrapassa o ambiente sacerdotal. Canta com a alma e, se quiser, pode até largar a batina”, brinca Fagner.
Largar a batina ele não deve largar, mas o conjunto da obra mostra que Padre Fábio de Melo quer cada vez mais conquistar o mercado não cristão, se projetando, como sua própria assessoria diz, “como uma bela voz da MPB e um compositor que vai além da mensagem religiosa”. Para isso, trabalhou com José Milton, produtor de nomes como Emílio Santiago, Nelson Gonçalves e o próprio Fagner, e escreveu letras que cutucam algumas verdades cristãs, como “Perfeita Contradição”, que canta com Fagner: “Nem toda reza é santa/Nem todo escuro é breu/Nem toda beleza encanta/Nem tudo que tenho é meu”.
Na faixa com Alcione, “Sobre Ganhar e Perder”, uma reflexão sobre a vida que, aos ouvidos mais incautos e ateus, poderia imaginar-se ter saído de uma típica filosofia de mesa de bar (“Quem não se doa na vida não pode ser grande/Demorei pra saber, demorei pra entender o porquê/A regra que move o motivo de nossa vontade/Nem sempre nos mostra que o menos às vezes é mais/Nem sempre aquele que ganha merece a vitória/Nem sempre aquele que perde deixou de vencer/A luz que hoje brilha no pódio no fundo tem sombras/Na sombra de quem hoje perde já pode ter luz/Quanto peso já levei comigo porque não me deixei convencer/Que o profundo mistério da vida não se encerra em ganhar ou perder/Mas naquilo que fica de tudo e o que faço da soma final...).
É, parece que dessa vez ele acertou em cheio em passar suas mensagens cristãs exatamente sem parecer que elas são isso – mensagens cristãs. Porque nas faixas-solo, onde a pregação deveria ser mais declarada, Fábio de Melo, que assina quase todas as canções do disco (10 de 14 faixas), abre espaço para versões de músicas ditas seculares, ou seja, de fora do universo religioso.
É assim que canta “Paciência”, de Lenine e Dudu Falcão, “Estrela Luminosa”, de Altay Veloso, e duas de Milton Nascimento e Fernando Brant, “O Vendedor de Sonhos” e “Pra eu Parar de Me Doer”, que encerra o disco com a linda letra sobre amor: “Mais que a dor do amor/Viver a dor/Me doeu/Eu quero mesmo é ser feliz/Amar, amor...”.
“Eu garimpo Deus onde posso. No improvável, nos emaranhados das coisas profanas, nos olhares descrentes, nos ritos alheios, nos confessos ateus. Em tudo eu procuro sacralidade. Nunca acreditei que Deus fosse um privilégio de crentes. Perscruto os escritos dos que não se renderam aos encantos dos altares e Ele está lá, presente, delicadamente manifestado nos recursos da beleza”, diz o padre, sobre essa fusão completa entre sagrado e profano neste disco.
“A arte é epifânica. Desenha sobre as carnes do mundo as regras da eternidade. Antecipa-nos, ainda que primariamente, o destino final que não ouso configurar nem tampouco dar nome. Meu ofício sacerdotal me ensina, o ofício artístico me confirma: o mistério não suporta explicações”, completa.
(Diário do Pará)
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