Em maio de 2014, Zélia Duncan passava por Belém apresentando a turnê itinerante do “Prêmio da Música Brasileira”, cuja homenagem era ao samba. Deixou o público paraense – acostumado a conhecê-la por outros gêneros musicais – extasiado com sua apresentação. O que não sabiam é que por dentro Zélia também fervilhava com este encontro entre sua voz e a cadência do samba de raiz.
Foi assim que, com 34 anos de carreira, decidiu lançar no final de 2015 o disco de sambas “Antes do Mundo Acabar”, um dos projetos que tem tocado ao longo de 2016. Paralelo a este, ainda circula pelo país com o espetáculo “Totatiando”, com o qual também passou por Belém semana passada. “Me viciei em trilhar sempre por lugares diferentes, me impondo desafios novos. São quase 35 anos e tem sido muito interessante observar como tenho tanto a aprender sempre”, dz Zélia, em entrevista exclusiva ao Você.
Para o disco de samba, contou com a parceira da produtora Bia Paes Leme, que ajudou a reunir músicas inéditas, compostas por Zélia e vários parceiros, e outros que surgiram nas pesquisas de repertório. É um disco onde cabem delicadezas, crônica urbana, bom humor, com formação quase minimalista em algumas faixas. “Não sabíamos ao certo, eu e Bia Paes Leme, que seria assim. Mas ela teve a ideia de chamar o Marco Pereira (violonista), com seus arranjos de tanto bom gosto, que achamos que o fato de a essência das canções estarem tão bem retratadas fazia com que pudéssemos abrir mão da massa sonora mais usual. E ficou mais surpreendente e singular assim”, define Zélia.
Já em “Totatiando”, uma homenagem à obra do poeta e músico paulista Luiz Tatit, contou com a parceira da atriz e diretora Regina Braga. Zélia, assim estreou em um musical cênico, e Regina se lançou aí como diretora. “Foi maravilhoso, generoso. Construímos tudo juntas, ela me encorajou demais com seu talento”, elogia a cantora. Ao invés de músicas feitas para teatro, trata-se de teatro feito a partir da música. E sobre esse desafio, a cantora afirma que, antes de mais nada, é uma intérprete musical, com muito orgulho. “Tatit é ídolo para mim, ouço sua obra há muitos anos. Este espetáculo é um oásis, um sonho lindo. Amo teatro, respeito demais a profissão de atriz e estou tirando minha casquinha da delícia de dizer um texto e me colocar numa situação inusitada”, comenta a cantora.
A estréia de “Totatiando” em 2011 foi parte das comemorações pelos 30 anos de carreira e ganhou registro em DVD em 2013. Atualmente, volta aos palcos patrocinado pelo programa Vivo EnCena. Em um país em crise, Zélia comenta o que tem visto e sentido a respeito desse cenário para as artes: “Quando a economia entra em colapso, a cultura é uma das primeiras vítimas. Mas eu sempre fui guerreira, não tenho medo da luta. Me armo de criação, abro meu leque, faço muitas coisas e tenho sido feliz assim. Tenho sobrevivido com frescor e acredito sempre que está nas nossas mãos levar a carreira adiante”. Com o mesmo frescor, sempre se diz feliz em voltar a Belém – “terra diferente, brasileira, profunda”. Questionada sobre suas preferências sonoras sobre a cidade, responde que ama Belém. “Os sons daí me interessam, as guitarras, os tambores. Vou com tudo pra ser feliz nessa terra!”, completa.
Musical cênico ou poesia pura?
É um musical com interfaces poéticas ou é um espetáculo poético encadeado por música? A inquietação se impõe já nos primeiros minutos em que vislumbramos Zélia Duncan no palco em“Totatiando”, num Theatro da Paz lotado em pleno feriado de Páscoa. Ah, difícil dizer o que é Zélia em cena. A cantora, que diz nunca ter se experimentado atriz, passeia com tanta naturalidade de uma linguagem para outra, por vezes na mesma poesia/música, que o público se vê em uma experiência extrassensorial, como se ali fosse conduzido a um outro gênero artístico único, só dela, que demonstra dominar com plenitude a si em cena e à toda sua técnica vocal em um ritmo próprio. A ponto de que, por vezes, nos vemos cantarolando poesias, declamando músicas.
Mas afinal, Luiz Tatit, poeta paulista que é o grande homenageado do espetáculo, já não dizia que a música nasce da palavra falada? Que dúvida resta então? Zélia ali mostra que, com mais de três décadas de carreira, pode sair da zona de conforto - afinal, mais fácil seria estar em um palco de show - e nos faz mergulhar na sua própria intimidade, ao nos apresentar um de seus ídolos. Se o nome do espetáculo seria uma ironia, um jogo de palavras com o nome do poeta e com a inexperiência dela em teatro, a segunda interpretação se desfez no ar. Zélia não está “tateando” nada. Ela bem sabe onde quer nos levar, e faz isso com poesia.
É fã da cantora? Veja o clipe da música "Catedral":
(Esperança Bessa/Diário do Pará)
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