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André Monteiro, o treinador das estrelas

"Eu sempre tenho uma grande preocupação com duas cenas: a primeira a ser gravada com o diretor e a primeira que vai ao ar – que não necessariamente é a primeira a ser gravada”. Estas palavras parecem vir de um ator experiente, mas são do coach André Monte

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"Eu sempre tenho uma grande preocupação com duas cenas: a primeira a ser gravada com o diretor e a primeira que vai ao ar – que não necessariamente é a primeira a ser gravada”. Estas palavras parecem vir de um ator experiente, mas são do coach André Monteiro. Há mais de 25 anos ele usa seus conhecimentos de cinema e TV para treinar estrelas como Isis Valverde, Bruno Gagliasso, Chay Suede, Camila Pitanga e Tatá Werneck. Sua função vai além de ser um professor de interpretação e ele conta que hoje o coach de atores é um profissional indispensável nas emissoras brasileiras – todas as produções da TV Globo, por exemplo, têm um disponível para seu elenco.

Para entender como funciona esse trabalho, André Monteiro usa como exemplo o conteúdo do workshop que ele ministra pela primeira vez, nos dias 11 e 12, em Belém. Dividido em quatro módulos, o primeiro já aborda a preocupação apontada por ele: a primeira cena. “Sou do tempo de um colunista da TV, Artur Távola, e me lembro de uma observação dele sobre como a Fernanda Montenegro conseguia, no primeiro take, passar toda a atmosfera e essência do seu personagem. Achei muito pertinente e percebo que existem cineastas que conseguem isso de seus atores”, diz o coach, que agora assume a missão de extrair isso de seus alunos-celebridades.

Entre os muitos exercícios para alcançar esse primeiro encontro perfeito com o público, André passa trechos de filmes em que a apresentação do personagem já diz muito dele. Entre eles, “Rocco e Seus Irmãos”, do italiano Luchino Visconti, e “Hannah e Suas Irmãs”, de Woody Allen. “Em ‘Rocco’, o conjunto de irmãos chega do sul da Itália para Milão e a reação, a maneira como cada irmão se relaciona com o novo. É muito interessante porque é bem diferente entre eles. Em ‘Hannah’, em questão de um minuto e meio você tem uma cena em que todas as irmãs entram numa sala e cada uma delas passa uma forma diferente de demonstrar amor através de sua gestualidade – todas radicalmente diferentes”, explica.

Já a primeira cena gravada com o diretor é como o primeiro encontro de um casal, compara, podendo definir o que será desse relacionamento dali em diante. “Na TV, tudo é muito rápido, preciso que ele (ator) leve uma cena bem decupada para ter empatia entre ator e diretor logo de cara e tudo corra bem”, diz ele.

Trabalhados esses dois momentos cruciais, o coach destaca também a necessidade do ator aprender a lidar com os diferentes planos explorados na TV, fazendo uma aula dedicada à expressão corporal cabível em plano médio e no close.

“A televisão trabalha com planos muito fechados. E eu senti muito isso com o Bruno Gagliasso”, conta André, que atuou como coach do ator por quase 10 anos, desde sua primeira novela até “Babilônia”. “Ele é muito pego em close por causa dos olhos azuis. Pensei, então, como fazer um trabalho diferenciado, que não ficasse só na beleza física”, completa, explicando que outra preocupação era que, sem enriquecer o plano no qual ele ia ser apresentado constantemente, suas aparições se tornassem repetitivas.

TV mais perto do cinema gera exigências

Uma referência que tem circulado pelos estúdios de TV, o cineasta americano John Cassavetes (1929-1989) também serve de abordagem nas aulas do coach André Monteiro com seus alunos atores. “Hoje talvez ele seja o diretor mais cultuado dentro das TVs. Fez cinema independente, estudou o método americano de atuação e não gostou, então criou todo um jeito de fazer cinema. Deixava os atores mais soltos, buscava uma atuação natural”, explica o coach, que destaca o diretor Mauro Mendonça Filho como um dos que se inspira em Cassavetes.

“Trabalhei em várias novelas com ele – ‘Verdades Secretas’, ‘Dupla Identidade’, ‘Gabriela’ – e vejo o Maurinho o tempo todo dando Cassavetes como referência, assim como diversos outros diretores, ao falar da naturalidade que a TV exige. O público se acostumou aos realities shows e querem esse naturalismo”, aponta.

Outra mudança para a qual os atores precisam se preparar é que o cinema invadiu a TV de forma ainda mais intensa nos últimos anos, exigindo planos mais rebuscados e horas de produção de luz, por exemplo. “O nível da interpretação cresceu muito, ainda mais com a chegada das séries e minisséries. Hoje, mais do que interpretar um personagem é esperado deles a capacidade de desconstruir esse personagem e ficar bem próximo deles mesmos. Inclusive em testes, o que se busca é essa interpretação natural e rica, em gestualidade, sinceridade, maneira de falar”.

Treinamento também ensina a lidar com assédio

A relação entre coachs e atores vai além da preparação para estar em cena. “Eu trabalho com a Isis, por exemplo, há 12 anos. Ela era uma menina de 17 anos, com talento enorme, mas o trabalho em TV tem dureza, tem a relação com o mercado, com a imprensa. E isso também deve ser trabalhado no ator”, diz André Monteiro.

Assim, participar de uma coletiva de imprensa é o tipo de coisa que também pode exigir apoio. “O Chay Suede veio falar comigo só para lidar com a coletiva de ‘Babilônia’. Era a primeira dele na rede Globo e abri com ele todas as possibilidades psicológicas que podiam aparecer nessa situação. Trabalhamos um pouco de vocabulário e falamos da responsabilidade social dele como ator, como alguém que fala para os jovens”, recorda.

Além disso, o coach conta que aprendeu a ensinar de maneira que atendesse a necessidades específicas de cada aluno. Gente hiperativa, gente ansiosa, gente tímida até. “Eu criei uma maneira de trabalhar que dê sustentação a cada caso. Eu não formato uma ideia sobre o aluno, vou vendo as diferenças específicas de cada um e criando quase que métodos personalizados. Busco ainda trabalhar de maneira lúdica, sempre os atualizando sobre as exigências do mercado, dos diretores, das TVs”, destaca André, animado ainda para compartilhar isso com os atores paraenses durante
workshop.

(Lais Azevedo/Diário do Pará)

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