A Semana de Arte Moderna de 1922 foi um marco na reorientação estética na literatura e nas artes plásticas em nível nacional. Em Belém, uma das artistas que compuseram esse movimento - que buscava as marcas da brasilidade - foi Antonieta Santos Feio, que ainda jovem estudou na Escola de Belas Artes de Florença, na Itália, e retornou à capital paraense em 1917. Três de seus quadros - “Mendiga” (1951), “Vendedora de Cheiro” (1947) e “Vendedora de Tacacá” (1937) -, pertencentes ao acervo do Museu de Arte de Belém (Mabe), foram enviados a São Paulo para compor a exposição “Artistas do Moderno, a Invenção da Mulher”, que ocorrerá no Instituto Tomie Ohtake, de 13 de junho a 20 de agosto, com curadoria de Paulo Herkenhoff.
A paraense estará ao lado de nomes conhecidos da pintura modernista brasileira, como Anita Malfatti e Tarsila do Amaral, além de Abigail de Andrade e Bertha Worms, por exemplo - que de destacam pelas obras que voltaram o olhar ao próprio entorno, com o registro da realidade ao redor, quando a pintura acadêmica de tradição europeia começou a ser contestada.
É possível perceber essa mudança até mesmo nos nomes dos quadros de Antonieta, que estão intimamente relacionados ao nosso cotidiano regional e mostram figuras emblemáticas de nossas esquinas, como as vendedoras de tacacá.
As obras ficam em exposição permanente no Mabe, no Palácio Antônio Lemos, em Belém. A responsável pelo restauro das peças e também por supervisionar seu empréstimo - foram cedidas com um seguro de cerca de R$ 1,5 milhão -, Rosa Arraes explica que Antonieta Santos Feio foi muito famosa no início do século 20, quando o poder municipal comprou vários de seus trabalhos. A tela “Mendiga”, por exemplo, que retrata uma negra com chapéu de palha com algumas moedas, recebeu o primeiro lugar no Salão Paraense de 1951 e passou também por Fortaleza, Recife e Salvador.
“Ela morava em Belém, mas ficou conhecida no país todo, participou de salões importantes e ganhou prêmios. No final dos anos 1940 e começo dos anos 1950, pintou bastante. Gostava da figura humana, do povo, dos tipos comuns que via na rua. É uma pintura realista, com um ‘sotaque’ especial para as pessoas da cidade de Belém. Você conhece o povo, sabe quando vê negros, pobres, madeiras, as caboclas, as cestas de cheiro. Então, é uma construção pictórica peculiar do norte do Brasil”, descreve Rosa Arraes.
Mesmo sendo hoje considerada modernista, a própria artista não se achava como tal, de acordo com a pesquisadora Caroline Fernandes, que defendeu a dissertação “O Moderno em Aberto: o Mundo das Artes em Belém do Pará e a Pintura de Antonieta Santos Feio”, na Universidade Federal Fluminense. A artista, filha de um comandante paraense e uma italiana, especializou-se no gênero do retrato, por isso em suas telas aparecem tipos miscigenados, mas sua obra também contempla paisagens e naturezas mortas, além de inúmeros retratos encomendados por pessoas de alto poder aquisitivo.
Por isso Caroline Fernandes diz que “Mendiga” é desconcertante. “Se pensarmos nas funções historicamente legadas ao retrato, e os lugares que ele deveria ocupar tanto social como temporal e espacialmente, a obra cria um paradoxo. A iniciativa de encomendar esse tipo de trabalho esteve muito fortemente ligada à necessidade de manter um vínculo através da memória, seja de projeção no futuro, ou mesmo de autoafirmação no presente. Obviamente, a encomenda não poderia partir da mendiga, deslocando o eixo da relação que se estabelece entre o artista e o sujeito através da obra”, escreve a pesquisadora.
DUAS PARAENSES
O curador Paulo Herkenhoff é um dos maiores conhecedores do movimento modernista no Brasil. A escolha de Antonieta Santos Feio para integrar a mostra é reflexo de sua densa trajetória e conhecimento na arte do Pará. “Estou trabalhando a modernidade na Amazônia. Entre as mulheres, teve a Julieta de França [escultora nascida em Belém, em 1872], uma escultora do final do século retrasado, mas que trabalhou mais no século passado, há cem anos, e que além de ter uma agenda moderna, também exigiu a igualdade com os homens. Ela foi preterida em um concurso para realizar um monumento comemorativo à República no Rio de Janeiro, foi pra França levando seu projeto, obteve o apoio e aprovação de vários escultores, inclusive do Rodin, se confrontando com o domínio masculino na escultura na capital federal da época. A Antonieta Santos Feio, acho que tem outra função, que é a de representar o ribeirinho, as mulheres que trabalham. Tem a vendedora de cheiro, a vendedora de tacacá, então aí é uma outra perspectiva. Mas são as mulheres da Amazônia que eu estou olhando”.
(Dominik Giusti/Diário do Pará com Laís Azevedo)
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