Iniciativa inédita e que já recebe muitos elogios, idealizado e realizado por mulheres, o festival M.A.N.A - Mulher, Arte, Narrativas, Ativismo, vai reunir artistas produtoras em uma programação que apresenta seus trabalhos e debate os desafios e a potência da mulher na cena cultural. São mais de 50 convidadas do Pará e diversas cidades do país, em oficinas, mostra de cinema, ocupações urbanas, shows e painéis que vão debater a presença e o protagonismo da mulher nas artes. A programação ocorre amanhã, 29, com o CineMana, e entre os dias 1º e 3 de junho,ocupando diferentes locais da capital paraense.
“O festival surgiu de nossas inquietações como mulheres, artistas e produtoras culturais. São muitas as barreiras que encontramos para conseguir ocupar os espaços que ocupamos hoje no universo artístico – e que ainda são bastante restritos”, comenta a artista visual Roberta Carvalho, uma das idealizadoras do M.A.N.A., e que participa do festival com uma nova versão de seu trabalho “Projeções do Feminino”, intervenção audiovisual mapeada que vai levar ao centro histórico de Belém diferentes narrativas de existência da mulher paraense.
Realizado pela 11:11 Arte Cultura e Projetos, produtora de Roberta com a cantora Aíla, e patrocinado pela Vivo, o festival chega ainda com a intenção de conectar essas artistas e seus trabalhos, fortalecer redes e canais de produção. Aíla explica que o M.A.N.A. nasce como uma resposta à lógica da produção cultural que mantém as mulheres à margem, não apenas da programação dos eventos, mas também de sua concepção. “Queremos que a nossa arte ecoe, que a arte de todas as mulheres ecoe. Esse festival é a forma que encontramos de fomentar isso”, afirma.
Com atividades gratuitas, um dos destaques do M.A.N.A é o painel “Feminismos”, com Djamila Ribeiro, feminista negra e Mestre em Filosofia, que volta a Belém para conversar com as participantes do evento sobre a importância das mulheres construírem suas próprias narrativas nas artes e em vários outros espaços. O encontro será dia 2 de junho, no Sesc Boulevard, às 18h15, com entrada franca. Não é preciso se inscrever, masébomchegarcedo-esse promete ser um dos painéis maisprocurados.
A programação ainda contempla painéis que vão debater as mulheres na guitarrada, o assédio sofrido por elas na produção cultural,entre outros temas, sempre com representantes importantes da cena da cidade, como a cantora Lia Sophia, a multi-instrumentista Renata Beckmann, da Orquestra Pau e Cordista de Carimbó, e a curadora Vânia Leal. As oficinas – incluindo uma de “Direção Audiovisual” com Carolina Matos, uma das principais diretoras de videoclipes deartistas como Gaby Amarantos e Natália Matos –, são voltadas exclusivamente para mulheres, enquanto o restante da programação é aberta ao público em geral.
Na mostra audiovisual CineMana, que abre o festival amanhã, no Cine Líbero Luxardo, o público começa conferindo diversas obras de temática social e feminista com curadoria da cineasta paraense Jorane Castro. E fechando o M.A.N.A, uma grande festa que levará ao palco as performances das cantoras paraenses Sammliz e Aíla, além de convidadas especiais, e um encontro emblemático entre o Slam Dandaras do Norte e Slam das Minas SP. A DJ TataOgan (RJ) vai comandar a pista durante os intervalos.
A PALAVRA FEMININA QUE GANHA FORÇA
O Com o festival, queremos não apenas abrir espaço para que as artistas mostrem seu trabalho, mas também conectá- las, fortalecer redes e canais de produção”, diz Roberta Carvalho sobre o M.A.N.A.

A cantora Aíla e a artista visual Roberta Carvalho estão à frente da produção M.A.N.A e também mostram seus trabalhos. (Foto: Julia Rodrigues/Divulgação)
E é essa rede que o festival promove, por exemplo, ao unir grupos de mulheres de Belém e São Paulo em uma oficina sobre “Slam” . Tratase de uma batalha de poesias. Na maiorida das vezes, tem eventos idealizados e ocupados por homens. Para questionar esta lógica, ocupar espaços e promover a presença de mulheres nestas competições, têm surgido em todo o país movimentos como o Slam das Minas SP, que vem a Belém durante o festival M.A.N.A para ministrar uma oficina sobre o tema. Entre as Minas, está Luz Ribeiro, primeira mulher a vencer o Slam BR - Campeonato Brasileiro de Poesia Falada, e representante do país na Copa Mundial de Poesia, na França. Junto com ela, virão Mel Duarte, Carolina Peixoto e Pamella Soares.
“A oficina tem o intuito de levar para as meninas a nossa vivência quando nos propomos a formar um slam”, explica Carolina.
Quando o convite para ministrar a oficina surgiu, um grupo de meninas do Pará tinha acabado de procurá- las falando que queriam formar um slam em Belém, o Dandaras do Norte. “E aí a gente começou a trocar ideia. No festival, aocupangente quer mostrar o que é um slam, quer também levar vídeo de competições que ocorrem fora do Brasil”, adianta Carolina sobre a prática do slam, que só chegou ao país em 2008.
Shaira Mana Josy, uma das organizadoras do Slam Dandaras do Norte, diz que o grupo ainda tem muitas dúvidas e que o encontro com o Slam das Minas será um ótimo momento para dar continuidade ao que elas já vêm realizando em Belém. “É muito importante, até porque precisamos de referências. Quando a gente pensou o Dandaras, era para fazer encontros de mulheres do hip hop. Estou nesse cenário desde 1998 e fui a única que resistiu, entre altos e baixos. Mas sempre procurei ‘fechar’ com as poucas meninas que apareciam”, conta. Ela explica ainda que a maioria das paraenses não é MC, mas faz poesia marginal sem conhecer por este nome. Após a oficina,elas fazem um momento de interação com as meninas do slam de São Paulo. “Vai somar com o que a gente já começou. Mostrar a realidade daqui, diferente do Sudeste, mas com a mesma causa e pensando tambéma mulher na arte”, diz Shaira, que se apresenta junto com Adrianne MC, Carol Fabip, Ananindeusa Afro- Ameríndia e Anna Batista.
Do lado das visitantes, o clima é também de compartilhar. “Somos quatro poetas no coletivo, trabalhamos com literatura independente, produzimos e vendemos nossos livros na rua. Eu acho incrível esse festival que antes era uma utopia pra gente. A gente está saindo do armário e ocupando lugares. Mostra que somos capazes de produzir, ser atração. Se tem evento desse tamanho é porque tem muitas coisas feitas só por mulheres. É muito lindo”, elogia Carolina, do Slam das Minas.

(Lais Azevedo/Diário do Pará)
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