Belo Horizonte pode ter crescido tanto quanto qualquer metrópole brasileira, mas ainda fica nela algo desse aconchego que as pessoas buscam nas pequenas cidades de interior, quando o trânsito caótico e o trabalho já levaram a mente ao limite. O mesmo pode ser dito de “Banzo”. Lançado pelo selo “Quente”, ele é o segundo álbum do projeto solo do compositor e instrumentista mineiro Thales Silva, o Minimalista. E ainda que cheio de elementos urbanos, ele é “um disco para retirantes”, para retirar o ouvinte desse cotidiano e acompanhar por uma viagem que passa por vilarejos e estradas de terra.
“Eu vinha de um período muito atribulado”, conta o músico, que fez três grandes lançamentos seguidos: “Homens Lentos”, em 2013, com a banda A Fase Rosa, da qual é voz principal; seguido do primeiro álbum de seu projeto solo, “Minimalista”, em 2014; e no mesmo ano veio “Leveza”, outra vez com A Fase Rosa. “Eu tinha agenda dos dois projetos quando fui para o casamento de amigos em Caraíva, um vilarejo no sul da Bahia. Decidi ficar um pouco mais lá. Queria curtir aquele momento para saber o que eu faria dali para frente. Ali nasceu o embrião, as músicas que me mostraram a direção de ‘Banzo’”.
Dali vieram as letras e paisagens intimistas de canções como “Lua pro Sol”, última faixa do disco. Mas foi em uma conversa de bar, em São Paulo, que veio a canção-título. “Conversando com dois amigos baianos, eles falaram do banzo que sentiam da Bahia, de estar em São Paulo, de ter que se adaptar”, conta Thales. A palavra de origem africana que designava a melancolia pelo distanciamento da terra natal no período da escravidão acabou virando canção: “Deu um banzo lá do norte/ a sorte sorriu de lado, e eu não esperei sentado/ o fado é meu, vou percorrer”.
“Algumas saudades são paralisantes, mas eu queria uma dessas que faz a gente se movimentar. Esse sentimento se tornou o motor do disco. Surgiram músicas pessoais, intensas, que me movimentavam muito no sentido de procurar o que eu queria fazer, quem queria ser, como estava minha relação com amigos, amores, familiares, com o mundo. Eu diria que esse é um disco desse movimento de procura”, afirma Thales.
O álbum, com 10 faixas inéditas, segue por esse caminho, e já começa muito bem. A edição física sairá graças a um crowdfunding de mais de 400 participantes, realizado entre janeiro e fevereiro deste ano.
Viagens com trilha sonora
Paralelo à agenda de shows do disco, o Minimalista realiza em seu perfil no Instagram uma viagem pelas paisagens que deram origem ao álbum. Através de pequenos vídeos que acompanham as músicas, ele recria o clima de uma viagem por interiores brasileiros. Aquela parada na beira da estrada, aquele personagem anônimo que acaba fazendo parte da paisagem. A primeira faixa a ganhar um vídeo próprio é “O Peso”, com participação de Gui Amabis. “É importante que de vez em quando a gente vá a esses lugares, distantes dos centros urbanos”, diz Thales.
Para construir esse material, ele e o fotógrafo Athos Souza foram a lugares próximos a Belo Horizonte, como Brumadinho. “São fotografias, vídeos que agregam muito na compreensão do que é o álbum. Essa história contada lá vai durar mais de seis meses mostrando esse conteúdo que a gente fez em duas viagens. Fomos com o disco pronto. Levamos para ouvir, bater papo, tomar café, conversar com morador, para ver a chuva cair. É uma forma de se conectar com o público após o lançamento do disco”, diz ele.
Quem fez
Leonardo Marques, do Transmissor, e Victor Magalhães, reconhecidos no panorama musical mineiro, assinam a produção do CD. O músico e produtor paulista Gui Amabis e o vocalista e guitarrista do Maglore, Teago Oliveira, são convidados a cantar em duas faixas. Premiado pelo Grammy Latino, Felipe Tichauer assina a masterização. Os músicos Tiago Eiras (bateria), Rodrigo Magalhães (baixo) e Vicente França (guitarra) são responsáveis pelos arranjos. Além deles, são convidados especais Adriano Caldeira (cavaquinho), Bruno de Oliveira (baixo acústico), Carol Abreu (percussão), Di Souza (percussão) e Nath Rodrigues (violino). O delicado projeto gráfico é de Rafael Quick, designer e ilustrador mineiro.
(Lais Azevedo/Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar