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MÚSICA

Juca Novaes tem experiência em Festivais

Após 27 edições enquanto curador do Festival de Música de Avaré (Fampop), Juca Novaes decidiu tirar do coração as canções que mais o tocaram, mas que não necessariamente foram as campeãs do concurso musical. Selecionadas a partir de critérios afetivos, as

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Após 27 edições enquanto curador do Festival de Música de Avaré (Fampop), Juca Novaes decidiu tirar do coração as canções que mais o tocaram, mas que não necessariamente foram as campeãs do concurso musical. Selecionadas a partir de critérios afetivos, as músicas por ele escolhidas estão reunidas no disco “Canções de Primeira”, que já encontra-se em seu segundo volume. Imerso num “manancial sonoro inesgotável”, como o ex-curador define, o projeto foi realizado com a sua própria interpretação de melodia e voz. O primeiro volume foi lançado em 2014.

“Quis registrar na minha voz as canções que passaram pela história do festival, algumas famosas e outras nem tanto, e outras sequer tinham registro, a não ser no próprio festival. Gravei, por exemplo, ‘Canoeiro’, de Sérgio Bastos e Tadeu Franco, que são conhecidos compositores mineiros. Só de finalistas temos mais de 400 músicas e pensei que poderiam ser gravadas. Eu fiz parte da equipe de pré-seleção das canções, então, ouvi todas as inscritas durante todo esse tempo. Eu era a primeira pessoa a ouvir”, explica Juca Novaes.

Entre as boas histórias de bastidores está a da música que Celso Viáfora fez por não ter sido classificado no ano anterior (Foto: Divulgação)

A trajetória do evento também o fez rememorar causos importantes, retratados na música: ao não ser classificado, Celso Viáfora voltou no ano seguinte, inscrevendo uma música sobre o lamento de não estar no concurso. A letra diz: “Vai, meu irmão, não adianta ficar triste, insiste. Vai, que a canção é como grão que no final da estação não germinou, mas insiste”, cita.

Outra música que compõe o disco é “Virou Areia”, de Lenine e Bráulio Tavares, que ele ainda muito novo apresentou ao júri, em 1990, mas que só foi gravada pelo próprio pernambucano em 2004. “Beradêro”, de Chico César, não venceu o festival em 1991; à época ele era apenas mais um desconhecido no mundo da música, mas sua canção foi gravada por Chico Buarque, Zizi Possi, Elba Ramalho e Mônica Salmaso. “Essa música é quase um repente e eu regravei apenas com piano e voz, como uma canção popular. É uma leitura diferente”, comenta. Mas Juca também buscou contemplar os mais contemporâneos. “Eu gosto de observar também a nova geração, como ‘Tatame’ que é música de Leo Bianchini e Ricardo Teté. A vantagem de ter sido curador é que tenho as canções na memória”, comenta.

Nilson Chaves foi premiado no Festival de Música de Avaré em 1986 (Foto: Divulgação)

Festivais têm dificuldade de atrair novos públicos

Juca Novaes é saudoso dos tempos de ouro dos festivais brasileiros e reconhece que é cada vez mais complicado manter o formato de antigamente face às rápidas e severas mudanças da indústria da música, do mercado fonográfico e da distribuição musical no país. Ele lamenta que hoje o famoso “jabá” - quando se paga para veicular uma canção na rádio - seja predominante e o dinheiro acaba se sobressaindo à curadoria musical realizada por rádios e televisões. A indústria cultural se reconfigurou e ele aponta dados que o preocupam: cerca de 80% das músicas executadas, segundo dados do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) são de sertanejo, funk e pop internacional.

“Os festivais de canções, como chamo, eram festivais de músicas que as pessoas iam para ouvir a canção do Caetano Veloso, a canção do Djavan. E o que ocorre hoje é que a canção é item de segunda linha, ninguém se preocupa. Os concursos de música são para o intérprete e, ao mesmo tempo, para a canção. A qualidade da nossa música se tornou medíocre. Hoje tira-se o foco da canção e não tem mais essa coisa de querer saber o autor - o foco é só no intérprete. Isso revela o desprestígio do autor”, lamenta.

Ainda como um sopro de felicidade, ele comemora que alguns festivais resistam e continuem existindo como espaços importantes para a música autoral, como o “Festival da Canção de Ourém, no nordeste paraense, um dos mais antigos do país, mas ainda assim reconhece a dificuldade de se manter um formato desses para uma geração que não corresponde mais como plateia.

“Sabemos que tem público interessado, mas hoje, por falta de interesse das emissoras e das gravadoras, esse modelo é difícil de executar”, lamenta o músico, ele mesmo um baú de velhas lembranças dos velhos festivais. “Tenho muitas memórias, dá pra fazer livro, escrever filme. De Sílvio Caldas a Tim Maia, todo mundo passou pelo festival [de Música de Avaré], e para mim foi importante ter presenciado o surgimento dessas pessoas que se tornaram grandes artistas. O Nilson Chaves foi premiado em 1986. E lá se vão 31 anos...”, finaliza.

(Dominik Giusti/Diário do Pará)

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