Por Nathália Pandeló Corrêa
O 10,000 Maniacs tem história pra contar. São 35 anos de carreira, nove álbuns de estúdio e outros quatro ao vivo – inclusive o mais recente, Playing Favorites, e o MTV Unplugged, que fez o sucesso da banda americana ecoar no Brasil. Naquela época (1993!), o vocal principal era de Natalie Merchant, que desde então se desligou da banda e iniciou uma carreira solo bem sucedida.
Nesse meio tempo, Mary Ramsey assumiu o microfone enquanto também tocava viola, o que ajudaria a consolidar uma sonoridade mais folk para o 10,000 Maniacs. O falecimento de membros – Rob Buck (guitarra), em 2000, e Robert Wachter (bateria), em 2006 – e hiatos temporários fizeram a formação flutuar ao longo do anos.
Agora, a banda chega à maturidade com a turnê do álbum ao vivo Playing Favorites, que passa por São Paulo, no dia 01º de junho, no Espaço das Américas, seguindo para o Rio de Janeiro, no dia 02 de junho, no Vivo Rio e, por último, em Porto Alegre, no Auditório Araújo Vianna, 03 de junho. Conversamos com Mary Ramsey para falar do atual momento da banda e o retorno ao Brasil. Confira abaixo:
TMDQA!: Oi Mary, obrigada por conversar com a gente! Queria começar comentando sobre algo que você talvez já saiba: um dos motivos porque vocês têm tantos fãs no Brasil é que sua versão de More Than This (do Roxy Music) fez parte da trilha sonora de uma novela, nos anos 90. E isso é meio que importante por aqui, ainda mais porque é uma porta de entrada pra muita gente conhecer música nova. Mas por outro lado, é o tipo de coisa que pode limitar a percepção do público sobre o seu trabalho. Se você pudesse escolher uma outra música pra reapresentar o 10,000 Maniacs para o público de massa, qual seria? Algo que diga “These Are Days é uma ótima música, mas nós sabemos fazer mais que isso”, que mostre o alcance da banda além dos singles que nós já ouvimos.
Mary Ramsey: Como se chama essa novela mesmo? Fiquei interessada!
TMDQA!: É “Por Amor”.
Mary: Por Amor? Vou procurar! Mas então, você diz uma música nossa? Porque nós acabamos nos tornando populares por regravações que fizemos, tipo “Because The Night” e a própria “More Than This”. Agora tem uma versão de The Cure que estamos fazendo, de “Just Like Heaven”, que tá bem legal. Quanto a uma nossa… Tem “Whippoorwheel”, que está no nosso disco Music From The Motion Picture. Ela tem uma coisa meio diferente, excêntrica, que tem muito a ver com a gente. Também “She moved through the fair”, do álbum Twice Told Tales. Gostamos muito do folk irlandês e esse é um disco que fizemos só com canções tradicionais britânicas e lançamos em 2015. Do Love Among The Ruins, que é o mesmo disco que tem “More Than This”, eu destacaria “Rainy Day”, que é uma das músicas que a gente escolheu pra dar um tratamento diferente ao vivo, o que parece sempre surpreender o público.
TMDQA!: O motivo de eu estar tocando nesse assunto é que no ano passado, a banda completou 35 anos de existência. Isso é mais do que muitas bandas bem sucedidas duram, e vamos combinar que vocês tiveram sua cota de sucesso.
Mary: Sim, com certeza!
TMDQA!: Mas quando se chega nesse ponto da carreira, tem alguma coisa que ainda te motiva a conquistar, realizar? E como manter as coisas interessantes por tanto tempo?
Mary: Olha, eu toco viola e violino, certo? Eu canto também, adoro fazer isso, mas amo de verdade quando estou tocando. Então entre uma música ou outra, eu acrescento um improviso. Isso ajuda a tornar cada show um pouco diferente, sem falar que nos mantém desafiados. Mas o mais importante mesmo é o público! Quando a gente olha pra frente e vê tantas pessoas sorrindo, ou dançando ou só balançando seus braços no ritmo da música, aí é que a gente diz: “Ok, agora sim esse show está valendo a pena”. Porque é como se a plateia fosse parte da banda, e sem dúvida é isso que nos inspira, nos dá aquela eletricidade. É como se fosse uma mágica mesmo, muito diferente de quando estamos tocando só entre nós. Aí no Brasil eu quero fazer umas coisinhas diferentes, tipo incluir um Tom Jobim, algo assim!
TMDQA!: Sério? De que forma?
Mary: Ainda não sei… A obra dele tem melodias maravilhosas e muito marcantes, como “Garota de Ipanema” e “Corcovado”, só para ficar nas mais óbvias. Mas ainda não pensei bem como vou fazer, são muitas possibilidades! (Risos)
TMDQA!: Ok, vamos ter que aguardar pra ver! Bem, sei que vocês ainda estão promovendo o Playing Favorites, mas em 2017 o álbum In My Tribe completa 30 anos. Vocês têm algum plano especial para comemorar ou quem sabe fazer um novo disco?
Mary: Nós estamos atualmente trabalhando em um novo álbum! Nós temos um propósito de todo ano gravar alguma coisa, nem que seja só para nos ajudar a sentir o progresso, a melhorar as performances ao vivo. E para celebrar os 30 anos do In My Tribe, nós estamos resgatando algumas músicas que já não tocávamos há um tempo, como “The Painted Desert” e “Gun Shy”.
TMDQA!: Vocês não são estranhos aos palcos do Brasil, inclusive já vêm tocar aqui desde os anos 90. Mas estou imaginando que dessa vez vai ser um pouco mais especial, já que o Playing Favorites parece um grande panorama da carreira de vocês. O que podemos esperar de diferente para os shows?
Mary: Eu gosto de dizer que é como um vinho que fica mais suave com a idade! (Risos) Ou então um violino Stradivarius! Quer dizer, só melhora com o tempo! (Risos) Mas é bem isso, nós temos essa máquina que funciona bem, é cuidada com óleo, com convivência e uma ótima sinergia. Nós estamos nessa há bastante tempo, somos amigos, apoiamos uns aos outros. Os fãs vão ouvir nossas músicas com um sabor a mais, porque… Bem, estamos no planeta há mais tempo! (Risos) E sempre gostamos de fazer alguma surpresa, então estamos pensando em incluir no repertório… Bem, você está falando do Rio? De São Paulo?
TMDQA!: Do Rio.
Mary: Então, nós temos uma música que compusemos em homenagem ao Rio. Digo, John [Lombardo] e eu, nós temos um duo chamado John & Mary, então acho que vamos acabar incluindo no repertório!
TMDQA!: Exato, você e John têm seu projeto juntos. Você já está com a banda há um bom tempo. E ela pode até ser uma grande parte da sua vida profissional, mas não é a única – quer dizer, você se envolve em outras bandas, dá aula de música, tudo isso. São experiências bem diferentes, com seus próprios desafios. Enquanto isso, os caras também estão correndo atrás de seus trabalhos paralelos. Qual é a importância desse tempo que vocês passam separados, quando comparado com quando estão sempre juntos?
Mary: Pra mim, é muito importante ter esse tempo pra dedicar aos meus próprios projetos. Esses dias toquei Mozart numa orquestra, com meu violino. Foi uma experiência muito incrível, porque quando você sai da sua zona de conforto, passa a ter conhecimento sobre outros tipos de música. É como viajar, sabe? Você pode pesquisar e imaginar o quanto quiser, como são as pessoas de um certo lugar, a comida… Mas você só vai saber como é de fato estar lá quando for, e aí vai se tornar algo real pra você.
TMDQA!: E imagino que seja algo desafiador, num momento em que você possa estar caindo numa zona de conforto, certo?
Mary: Exato! Quando você se aventura por outro tipo de música, onde não é a cantora, por exemplo, isso se torna um outro desafio. E é muito educativo pra mim, estou constantemente aprendendo com meus colegas de profissão e com meus alunos. Eu sou muito grata por ter esse trabalho em que faço o que amo e que me permite ser uma espécie de esponja. Você absorve tudo à sua volta! Estou aqui do lado de fora da minha casa falando com você, está um belo dia e estou ouvindo os passarinhos aqui por perto. Não deixa de ser música para os meus ouvidos!
TMDQA!: Verdade, estou ouvindo eles daqui! Falando em melodia pros seus ouvidos… O nome do nosso site tem tudo a ver com uma relação especial que temos com a música. Então quais seriam os discos que, pra você, são uma ótima companhia? Que você dá play e já melhoram seu dia?
Mary: Eu gosto de ouvir uma rádio pública que toca música clássica. Eu gosto de muitos tipos de música, mas lá eu sei que vou ouvir coisas que vão me surpreender e ser muito bonitas. Tem uma outra rádio de jazz assim também. É curioso, à medida que vou ficando mais velha, estou me voltando para um tipo de música mais meditativo… Por isso comentei com você do Tom Jobim, tenho ouvido muito as coisas dele, são muito suaves e bonitas. Aliás, quero absorver bastante a cultura daí quando formos!
TMDQA!: Acho que você pode gostar, temos muita música bonita pra compartilhar com você!
Mary: Tenho certeza que sim! Acho que essas coisas bonitas são um pouco a nossa forma de lidarmos com a loucura do mundo, não é? Um porto seguro, de certa forma. Por isso tenho ouvido bastante Belle and Sebastian… Até mesmo os Beatles. Ah, e Joni Mitchell, Etta James. Maravilhosas! Aqui onde eu moro, fica a uma distância bem curta do Canadá, eu posso ir para lá a pé. E isso significa que pegamos muitas rádios do outro lado da fronteira, que tocam músicas que a gente não ouve tanto nas nossas próprias estações. E isso é ótimo para nos surpreender.
TMDQA!: Tá certo, Mary! Muito obrigada pelo seu tempo e esperamos que você curta essa nova passagem pelo Brasil, com novas descobertas musicais!
Mary: [Em Português] Obrigado! Tchau!
Fonte: TMDQA!
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