Com uma introdução gostosa de duas guitarras que conversam em “Prelúdio Dourado”, Felipe e Manoel Cordeiro abrem o disco “Combo Cordeiro”, que será lançado sexta-feira, 2, nas plataformas digitais. O projeto instrumental, gravado nos estúdios YB Music, em São Paulo, entre março e abril de 2016, nasceu da vontade de experimentar referências amazônicas em diálogo com a sonoridade feita de beats eletrônicos, resultando em temas melodiosos, timbres originais e batidas tropicais que tanto podem ir para a pista de dança com o para os fones de ouvido.
Pode-se dizer que o disco consagra o encontro musical de pai e filho. Felipe, um dos principais nomes da cena contemporânea brasileira, conhecido por seu pop tropical. Manoel, guitarrista e produtor de centenas de discos da década de 1970 e 1980 na Amazônia. “Para mim é mais natural fazer música eletrônica, mesmo tocando guitarra. Dá um jeito de tocar meio sampleado. Diferente do jeito do meu pai tocar, mais oitentista, suingado. A gente junta high tech e high touch e chega a algo mais legal. Acho isso muito contemporâneo, não só pro disco, mas para a gente, para o mundo. É natural essa aproximação, porque a gente está falando de uma mudança cultural, está dizendo que mestre Cupijó pode ser sampleado e tocar numa pista europeia. Acontece no eletrônico do Pará, da África, América Latina como um todo. Isso tudo permeia o trabalho: vanguarda e retarguarda”, analisa Felipe.
O disco nasceu quase todo em estúdio. “Partimos de duas ou três músicas prontas e o resto pegou no estúdio. Quando vimos, estávamos com dez músicas”, diz Manoel. O parceiro, Felipe, que cresceu vendo o pai trabalhando em estúdio, destaca que esse já era tido como um ambiente favorável para a criação. “Eu e meu pai somos bichos de estúdio – ele até mais que eu. Então sabia que, se entrasse nele com poucas músicas ou apenas um conceito bem amarrado, ia conseguir gravar coisas legais”, comemora.
Assim, a dupla marcou o estúdio antes de ter todas as músicas, fez um set de improviso ao vivo com os convidados e manteve a proposta original desse encontro – ser um combo experimental. “Ele é um disco sujo. Apesar de ter eletrônico, essa coisa programada, também tem algo de experimental da música instrumental. Me soa nem tão eletrônico, nem tão analógico – é um híbrido”, comenta Felipe.
PARCERIAS
Em duas faixas eles contam ainda com algumas participações especiais. Em “Tu Não Tens Coragem”, convidam os percussionistas Thomas Harres e Márcio Teixeira para acompanhar os beats eletrônicos, efeitos e uma guitarra debochada e dançante. O título, conta Manoel, vem da célebre frase pela qual o fotógrafo Thiago Araújo, falecido em 2015, era conhecido. “Ele tinha esse negócio de dizer ‘tu não tens coragem!’, e a gente fez essa homenagem”, explica. Para a última faixa, “A Revanche dos Mestiços”, a dupla convida os guitarristas Fernando Catatau e Kiko Dinucci, e o saxofonista Thiago França, com quem também dividem a autoria da música.
Manoel ainda assina com o filho “Cúmbia de Guadalupe”, “Boi Voador”, “Mãe do Rio” e “Tirando Barato”, que tem uma batida marcante do brega dos anos 1980. “Conversando com um amigo DJ, nasceu um nome pra essa sonoridade: ‘futurebrega’. Porque ao mesmo tempo que remete aos anos oitentistas, essa coisa do new wave, do house, tema ver comuma reprogramação de um gênero que se formou no Pará, que é o brega. O brega, que no resto do Brasil não chegou a se tornar gênero, substantivo, virou adjetivo. No Pará, virou principal ritmo”, define Felipe. O primeiro show baseado completamente nesse repertório do disco foi na “Virada Cultural” de São Paulo, este mês, e a intenção da dupla é fazer mais alguns, em São Paulo, Rio de Janeiro e, claro, Belém.
(Lais Azevedo/Diário do Pará)
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