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MÚSICA

Mestre Cupijó é homenageado com DVD

Natural de Cametá, Mestre Cupijó aprendeu a tocar instrumentos com o pai, o Mestre Vicente Castro, que era regente da banda Sociedade Euterpe Cametaense. A vida em meio à música o tornou um exímio experimentador. E às sonoridades tradicionais da região do

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Natural de Cametá, Mestre Cupijó aprendeu a tocar instrumentos com o pai, o Mestre Vicente Castro, que era regente da banda Sociedade Euterpe Cametaense. A vida em meio à música o tornou um exímio experimentador. E às sonoridades tradicionais da região do Baixo Tocantins, como o samba de cacete - herança musical dos escravos -, incorporou instrumentos de sopro. Também passou a compor mambos e siriás, mas de acordo com sofisticadas técnicas eruditas de composição.

Falecido em 2012, boa parte de seu legado musical ainda está por ser conhecido e sistematizado. Por conta disso, a cineasta Jorane Castro, que é sobrinha de Cupijó, empenhou-se na ideia de refazer um show à maneira que seu tio gostava: esfuziante e alegre. Há mais de quatro meses, uma banda com 12 músicos foi formada especialmente para executar suas obras e gravar um DVD. O show ocorre hoje, às 20h, no Teatro Margarida Schivasappa, em Belém e terá a participação especial de Felipe Cordeiro, Dona Onete, Kim Marques, Lucas Estrela e Waldo Squash, e de Gabriel Arcanjo de Oliveira, 81, e Eulampio Antônio de Oliveira, 66 - que são irmãos e tocaram com o mestre na banda Azes do Ritmo.

“Desde criança, papai me levava às festas e achava impressionante a vibração das músicas dele. Quem viu o show não esquece. O mestre vem de uma família de músicos, começou pelo banjo, mas o principal era o saxofone mesmo. O meu avô era maestro e tinha uma escola de música. Então, muitos pensam que o Cupijó é autodidata, mas tem formação musical sólida”, diz Jorane Castro. O DVD faz parte do documentário “Cupijó e seu Ritmo”, viabilizado por meio do Programa Petrobras Cultural.

Sobrinha de Mestre Cupijó, a cineasta Jorane Castro está à frente do projeto de documentário que tem previsão de conclusão no que vem, e que mostrará também a vida dele além da música (Foto: Divulgação)

Em busca de reconhecimento para o tio

Com direção musical de JP Cavalcante e produção de Daniel Serrão, o “Baile do Mestre Cupíjó” foi formatado para chegar o mais próximo possível de como o mestre executava as suas obra. Por isso, no palco, a banda terá dois saxofones, um trompete e um trombone, além de um banjo. Este instrumento não era tão comum em suas músicas, mas não porque o mestre não quisesse. É que o banjista morava em outra cidade e pouco ia para os ensaios e apresentações. Agora, para contemplar a vontade de Cupijó, a banjista Renata Beckmann foi convidada especialmente para tocar o instrumento. Para a voz, JP dividirá a função com Kleyton Silva, da banda Na Cuíra Pra Dançar.

“É um trabalho que não está sendo feito agora. Tem mais menos quatro ou cinco anos que estudo o Mestre Cupijó. Me impressiona a semelhança com compositores eruditos como Bach e Beethoven. Ele estava na beira do rio experimentando tudo e usava técnicas de arranjo, por exemplo, um sistema de harmonização de quatro notas, como no ‘Mambo do Macaco’, que não são da música popular. O mesmo ocorre com o canto do siriá, que ele arranja com técnicas do mambo. É a primeira vez que observo esse tipo de construção”, analisa Serrão.

Por conta da proximidade com as obras de Cupijó, coube ainda à Serrão reescrever as partituras das músicas do mestre, que já estavam perdidas. Ele passou a ouvir cada música e identificar os instrumentos em cada faixa, transcrevendo-a. E observou algo curioso. “Ele tenta ilustrar a música com o som, com arranjos de música medieval. Tipo, tem duas pessoas caminhando e ele põe duas melodias juntas. Os ritmos dos tambores do samba de cacete ele escreve para os instrumentos de fanfarra. Ouvi e gravei o que cada instrumento estava fazendo, sistematizando e analisando cada trecho”, comenta Daniel Serrão.

VIDA

Jorane Castro conta que o tio era tímido e não gostava muito de falar, o que avalia ser contraditório para um líder de banda. É que era no palco que ele se sentia pleno. Ao lado de seu Gabriel Arcanjo, animou as festas de todas a região de Cametá durante os anos 1960 e 1970. “No carnaval, eles começavam na sexta-feira e só paravam na Quarta-feira de Cinzas. Gostava muito de ler, tinha esse hábito, e era sério e discreto. Tanto que no palco ele nunca estava na frente, mas sempre meio escondido. Ele tinha prazer em fazer música, compor, tocar, mas achava que isso não lhe dava direito para se achar melhor que os outros, tenho essa interpretação”, comenta.

No total, teve seis discos lançados e mais uma coletânea, mas também era advogado provisionado, mesmo sem ser formado em Direito, e era funcionário público. É isso que será mais detalhado no documentário, que tem previsão de ser lançado somente no ano que vem, com o objetivo de realizar um anseio da realizadora.

“Ele falava de forma muito acertada sobre essa vida no interior da Amazônia E eu falo sobre o mestre e as pessoas não o conhecem. O projeto é para colocar a música dele em outro lugar dentro da nossa música, no lugar de hoje”, diz.

(Dominik Giusti/Diário do Pará)

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