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MÚSICA

Em Belém, Esteban transforma cigarros em poesia

A noite de sábado (1), em Belém, foi marcada por boa música. No palco do Teatro Estação Gasômetro, no Parque da Residência, o gaúcho Esteban Tavares apresentou seu mais recente trabalho, o disco “Eu, Tu e o Mundo”, com muita poesia e acordes marcantes par

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A noite de sábado (1), em Belém, foi marcada por boa música. No palco do Teatro Estação Gasômetro, no Parque da Residência, o gaúcho Esteban Tavares apresentou seu mais recente trabalho, o disco “Eu, Tu e o Mundo”, com muita poesia e acordes marcantes para um público jovem, que encheu as dependências do teatro.

Musicalmente, Tavares mostrou ousadia. Algumas canções carregam um peso forte do forró gonzaguiano atrelado ao de mais moderno da música eletrônica. Mistura muitas vezes cafona, mas quase sempre boa, namorando do brega ao psicodélico sem medo de arriscar, com letras que falam de amor a cigarro com muita profundidade e melodia.

Tavares embalou o público com músicas do novo e antigos trabalhos (Foto: Fábio Will)

Muito competente ao vivo, Esteban trouxe quase todos os músicos utilizados nos vídeos do novo disco gravados para o Youtube, com exceção dos metais. O tom forte dos trompetes, no entanto, foi trocado por alguns ajustes nos arranjos originais, com mais espaço para solos instrumentais variados. A solução deu certo.

No repertório, nem só de “Eu, Tu e o Mundo” se bebeu. O público foi contemplado com músicas de discos anteriores, como a forte “Segunda-Feira”, um dos primeiros e mais badalados singles do gaúcho. Além disso, um cover de “Parabólica”, do Engenheiros do Hawaii, que cruzam as paralelas até Belém do Pará, arrebatou até o mais tímido na plateia, sendo sem dúvidas um dos pontos auges da noite.

O público, aliás, surpreendeu. Muitos adolescentes e jovens. O cheiro de bebidas alcoólicas e cigarros, comuns em shows alternativos do tipo, foram trocados por pipoca e uma fila de pais que esperava do lado de fora, evitando a companhia constrangedora natural da idade. Muitos desses “teens”, além do prestígio aos novos discos de Tavares, ainda eram legado da banda Fresno. No meio do show, aliás, uma certa quebrada de ritmo, que poderia facilmente ser consertada com uma ou duas faixas da ex-banda do músico, como “Milongas”, uma das mais pedidas ao longo de quase 2 horas de música.

Parte do show foi gravado para um clipe ao vivo que será lançado em breve. “Basta” ou “Noites de Berlim” será lançada na internet com imagens do espetáculo na Cidade das Mangueiras, Porto Alegre (RS) e São Paulo (SP).

Tavares pode ser afastado do grande público (ainda), mas claramente trata-se de uma artista para o grande público. Tem tudo o que qualquer “rock’roll star” esbanja, como fãs apaixonados que gritam a qualquer esboço de movimento pré-show, hits pegajosos cantados a todo gogó pela galera e, claro, ótima qualidade de música ao vivo e em estúdio.

Confira o bate-papo do DOL com o músico Esteban Tavares.

DOL: O que te atrela a Belém ?

ESTEBAN: Cara, é muito louco isso. Eu penso nisso todas as vezes que venho aqui. Fico pensando que se eu voltasse 20 anos no tempo, voltasse para o lugar onde eu morava, e pensasse quevou para Belém e que chegando lá vai ter um monte de gente no show,é meio surreal pra mim. O que nos une é a distância.O que nos une é ser brasileiro. O cara que mora lá perto do Uruguai e está com uma galera que está no Norte do Brasil. Enquanto minha cidade está fazendo 3 graus, aqui está 31. O que nos une é a língua, a vontade de ouvir música, independente de onde ela bebe, de onde vem essa influência. E isso prova que não tem barreira. Que um cara pode chegar muito carregado de característica do Sul, ou vice-versa. A gente precisa ser mais brasileiro nesse aspecto. A gente acaba sendo muito bairrista, o que é legal, vejo o Rio Grande do Sul, Pernambuco, Bahia, mas acaba, também, colocando uma grade em volta disso, 'a gente é muito importante. A gente isso, a gente aquilo', e quando, na verdade, a gente é um país inteiro, e pode trocar essa energia, trocar música e trocar cultura. Eu vejo que meu trabalho funciona aqui porque a galera está de muito boa vontade para ouvir e eu estou de muito boa vontade para tocar para qualquer parte do meu país. Eu falo português, então a gente tem que se unir nisso. É uma vitória para mim. Fazer o tipo de som que eu faço. Eu canto, às vezes, até em espanhol, e chegar aqui e ver essa reação. Eu sou muito apaixonado pela cidade. Para mim é uma cidade que romantizei desde a primeira vez que eu vim. Sempre tive shows lotados, sempre tive shows com alto astral para caramba. Sempre fiquei impressionado com a distância de onde eu nasci, e nisso faço um paralelo sempre, que saí lá do buraquinho no Sul e tu andou o Brasil inteiro, e está aqui na ponta com um monte de gente que te conhece, então isso me emociona bastante. A cidade me tratou muito bem sempre. Criou-se uma paixão pela cidade.

DOL: O que pretende fazer com material em vídeo gravado em Belém ?

ESTEBAN: Eu quero mostrar as cidades que eu mais gosto de tocar. Belém, Porto Alegre, que é minha cidade, e São Paulo, que é cidade onde eu moro há 10 anos, então eu quero juntar imagens de Porto Alegre, Belém, São Paulo e fazer um clipe ao vivo de “Noites de Berlim ou de “Basta”, eu ainda não decidi qual das duas eu gostaria de fazer. Acabei gravando as duas e vou fazer isso no show de Porto Alegre e São Paulo também. Vou reunir o material, escolher o meu áudio para fazer um clipe ao vivo

DOL: Como defines o trabalho do "Esteban" ?

ESTEBAN: Não consigo me definir como músico, consigo me definir como compositor. Então se a composição me pede um pouco de chacarera, me pede um pouco de forró ou música eletrônica, isso aí vai me levar. E o que faz esse público vir aqui, na música muito solista e na música muito americanizada, e eles cantarem do mesmo jeito, eu acredito que é a linha de composição. O compositor está ali. A voz. A galera me conhece por isso. Como eu vou me apresentar, aí depende de como imaginei isso. Para mim é uma pintura. Geralmente eu uso vermelho e amarelo, mas, às vezes, tu queres usar verde. E as pessoas que te admiram eles não deixam de admirar esse verde porque você saiu dessa zona de conforto. E sair da zona de conforto, para mim, é muito agradável. Sempre deu muito certo na minha vida. Eu estava em uma banda, que era a Fresno, saí de lá para fazer um projeto de piano sentado, que eu achei que seria um baita tiro no pé, mas é o que eu queria fazer. E aí eu te digo de novo, estou aqui, em uma ponta do país fazendo, daqui a pouco vou para outra ponta do país fazer. Daqui a pouco estarei no meio do Brasil. Então é isso, cara. Me defino como músico brasileiro, que usa tudo o que o Brasil tem a me oferecer. E cada vez menos eu tento absorver o que vem de fora. Principalmente o que vem de fora, da América, e usar mais a cultura latina.


DOL: O público já consegue separar o trabalho do Esteban com o da Fresno ?

ESTEBAN: Acredito que agora conseguem separar. Claro, no começo era impossível até pedir para um fã entender. Mas, ao mesmo tempo, eles sempre me acompanharam. Eu não consigo te dizer se eles cresceram comigo e começaram a entender minha música, ou se desde o começo eles já entenderam que era outra coisa totalmente diferente. Eu só tenho agradecer ao que aconteceu na Fresno. A Fresno me apresentou para o Brasil, me fez ser músico. Fez eu sair da minha cidade e ir até São Paulo, quem sabe fez até eu estar em Belém, porque esse projeto é uma continuação do que fiz na banda, mas os fãs,, agora, vejo que mudam. Antigamente eu via os fãs da Fresno no meu, era praticamente a mesma coisa. Hoje eu vejo uma diferença grande, uma parcela da galera até um pouco mais velha que o de costume, que me conheceu até depois de tocar com Humberto(Gessinger), depois da Fresno, como um cara terceiro, que ninguém sabia quem era e achava que meu nome era Esteban. Essa galera é a que mais me importa no momento. O fã que me acompanha há 10 anos eu sou amigo, já, conheço, trato pelo nome e sei como são. Mas esse público novo de cada show, eu tenho que conquistar para ficarem comigo, é o mais interessante

(Felipe Saraiva/DOL)

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