Baixista de bandas como as das cantoras Sammliz e Liège, Inesita traz quatro músicas com produção de Léo Chermont, do duo Strobo (Foto: Divulgação)
Acostumada à “cozinha” dos palcos, como ela define, a baixista Inesita fica sempre ao lado do baterista, em segundo plano nos shows. Ela faz parte da banda que acompanha as cantoras Sammliz e Liège, por exemplo, com Ricardo Maradei e Antônio Oliveira, e já tocou na República Imperial. Mas da imersão nesse circuito surgiu uma vontade de compor e cantar também. Após um tempo maturando a ideia, ela concluiu: “tem que ser nessa vida ainda”. E assim ela apresenta o EP “Normal de Pedra”, disponível nas plataformas digitais com quatro músicas que representam essa trajetória escondida.
Uma trajetória de mudanças também: formada em música erudita, foi somente após um convite do músico André Coruja que ela começou a se arriscar na música popular. “Disse a ele que não iria tocar, não conhecia nada, não era a minha linguagem. Originalmente estudei piano, depois que fui para o baixo. Mas ele me encorajou e disse que se fosse ele, me mostrava o caminho das pedras”, recorda.
Desde então, alterou a rota e optou por outra sonoridade, mais rock. Para o EP, era esse tom que ela queria imprimir, mas a partir de diálogos com Léo Chermont (Strobo), que assina a produção, concluiu que seria melhor pensar em uma solução aliada à uma percussividade que tem identidade regional.
Assim, às distorções das cordas, somaram-se os graves do curimbó e da alfaia, espécie de tambor usado no maracatu de Pernambuco - onde ela já passou oito carnavais seguidos.
“Não foi uma exigência, mas em tudo eu queria colocar distorção, a bateria no talo. E na hora de produzir, ele disse que não precisava ter isso para ser pesado, que era importante pensar em um som radiofônico. E aí pensei em equilibrar. Na hora de gravar, escolhemos a percussão graves, para ter o peso do carimbó e do maracatu, o que é sensacional, os tambores têm uma energia incrível e fazem parte da nossa cultura, da nossa origem africana”, explica.
Em “Ciranda”, uma espécie de hino-marcha sobre o corpo, ela traz essa marca do Nordeste e das próprias rodas de dança, explícita no título e na letra, que diz logo de início: “esparadrapo na boca, não, eu quero a língua livre, o corpo é meu quem sabe o que deve ser feito sou ele sou eu”. A gravação foi feita com mulheres que fizeram parte da trajetória da cantora, que ao final da faixa fazem um coro como refrão.
“A gente vive um período delicado, as mulheres estão arregaçando as mangas e falando o que pensam. E depois que escolhi as quatro músicas do EP, vi que elas têm esse tom da liberdade. Não precisamos entrar em moldes, como a sociedade quer, ou perdemos nossa individualidade. Acredito que o disco é sobre a gente se conhecer mais, não entrar nessa ‘noia’ de fazer o que todo mundo faz. A gente muda. De repente amanhã eu nem goste mais dessas letras”, analisa.
Em “Normal de Pedra”, que Inesita canta em parceria com Felipe Cordeiro, amigo desde as aulas na Fundação Carlos Gomes. Em “O Barco”, ela continua sua mensagem clara sobre afetos e relações: “só entra no barco do outro se for pra remar”. O EP completa-se com “Doidera”, que inicia com “largue uma lágrima no ar”, para que se permita ser o que se é.
“Faço tudo muito devagar, as frases todas vou anotando, às vezes na rua, e vou desenvolvendo. Sempre tive essas letras e algumas melodias. Precisamos sentar para nos conhecer, saber o que deixa a gente completo. Hoje é tudo corrido demais. Precisei ter essa coragem de expor o que penso, me despir”, completa.
(Dominik Giusti/Diário do Pará)
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