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MÚSICA

Passeata anual em homenagem a Raul Seixas reuniu fãs em Belém pelo 4º ano consecutivo

Quando Raul morreu durante uma madrugada após um ataque cardíaco, a comoção que sua morte causou nas ruas de São Paulo surpreendeu a imprensa daquela época. Ele não estava no auge – o músico sempre teve seus altos e baixos –, mas centenas de fãs tentaram

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Quando Raul morreu durante uma madrugada após um ataque cardíaco, a comoção que sua morte causou nas ruas de São Paulo surpreendeu a imprensa daquela época. Ele não estava no auge – o músico sempre teve seus altos e baixos –, mas centenas de fãs tentaram invadir o prédio onde ele morava, no bairro dos Jardins, na capital paulista, e até o necrotério, em busca do corpo. Depois daquele 21 de agosto de 1989, a data nunca mais foi a mesma para os fãs do Maluco Beleza, que a partir do ano seguinte passariam a realizar a passeata anual raulseixista.

A mais conhecida é a de São Paulo – a primeira –, mas pelo país todo fã-clubes passaram a organizar as suas, para uma vez por ano sair pelas ruas cantando as músicas dele e propagando as mensagens contidas nelas. Para eles, é como se a data fosse feriado, o feriado que o próprio Raul criou em uma de suas músicas: o Dia da Saudade. “A obra do Raul é eterna, não é descartável. E a gente vem aqui para lembrar ele, para um momento de confraternização”, afirma o cantor Sérgio Leite.

O músico é conhecido em Belém por fazer shows cover de Raul Seixas e foi quem idealizou a passeata em Belém, que ocorre há quatro edições seguidas. A última foi nesta semana. “Eu já organizei em outros momentos. Cada edição é diferente, às vezes com muita gente, às vezes com menos, mas os fãs não esquecem a data”, garante Sérgio.

E uma das razões é simples, as músicas marcaram a vida de quem “ouviu e entendeu”, como todos os fãs costumam falar. Entre eles, Chiko Kahwage, que aos 52 anos ainda se reconhece no adolescente que ouvia “Sapato 36”.

“Eu ouvi Raul desde muito pequeno, nasci numa família de músicos, meu irmão mais velho era roqueiro e desde o princípio eu sabia que o Raul era o profeta”, brinca Chiko. A identidade conflitante com o próprio pai, que não gostava do lado roqueiro do filho, ganhou empatia na letra do Maluco Beleza que cantava: “Eu calço é 37/ Meu pai me dá 36/ Dói, mas no dia seguinte/Aperto meu pé outra vez”. Ele conta que o pai ouviu a música uma vez e finalmente entendeu como ele se sentia.

E todos os fãs de Raul têm uma história para contar. Waldécio Quadros, de 44 anos, escuta todas as músicas do ídolo desde os 16 anos, quando tocava na casa ao lado da sua. “Eu perdi o meu pai cedo e não tive conselhos de outra pessoa a não ser do Raul. A maioria das pessoas lembra dele apenas como o Maluco Beleza, mas qualquer música dele ainda é muito atual porque ele falava de coisas da vida, sobre crescer, sobre ter liberdade. E isso aqui é uma confraternização para não deixar a música dele morrer”, diz.

Membros da Sociedade Raulseixista em Belém (Foto: Ricardo Amanajás)

Paixão que passa de uma geração a outra

Mesmo 28 anos depois da morte do Raul, tudo se renova com outra geração de fãs. “Sempre vai ter alguém para gritar: ‘toca Raul!’”, garante Sérgio Leite. Do engenheiro agrônomo Pedro Paulo Mota, de 66 anos, que entrou para a faculdade no mesmo ano em que Raul lançou seu primeiro sucesso, “Guita”, em 1973, até Lúcio Guilherme, “o Raulzito”, de apenas cinco anos de idade, ainda parece ter mesmo muita gente para ouvir suas canções e fazer suas próprias histórias caminharem junto com elas.

“Quando ele surgiu, concorreu com Jovem Guarda, Tropicalismo e ainda conseguiu se sobressair. Ele trazia uma arte que era completamente diferente do que era recorrente na música daquela época”, lembra Pedro.

Outro fã, Francisco Mendes, conta que ele e os amigos começaram tendo um fã-clube na adolescência. Hoje, aos 48 anos, brinca que “ficava meio estranho ter fã-clube”, então passaram a se identificar como uma “Sociedade Raulseixista”. “Com o tempo, conforme você vai ouvindo, também começa a querer pesquisar de onde veio a inspiração para tal música. E disso vem a troca com outras pessoas que ouvem Raul”, diz ele.

A troca também passou a ser de pai para filho e para netos. Foi Lúcio Mauro Pinheiro, 44, avô do Lúcio Guilherme, de cinco anos, que incentivou o garoto a ouvir Raul desde muito pequeno. “Eu comecei a levar ele comigo em shows para ouvir Raul desde os três anos. E trago para a passeata desde 2015. Tudo que eu compro para mim do Raul, eu tenho que comprar para ele também. Eu quero que ele aprenda as coisas boas que o Raul ensinou, a seguir o caminho dele do jeito dele, a ouvir o coração, a nunca pisar no próximo”, diz o avô.

(Lais Azevedo/Diário do Pará)

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