Posso falar? Posso escrever? Posso cantar?”. Durante muito tempo, essas questões rondaram a vida de Sabrina Santos, mais uma menina que foi criada somente pela mãe, preta e que mora na periferia de Cuiabá, no Mato Grosso. As interrogações começaram a ser respondidas, por ela e para ela mesma, após o contato com o rap. Aos 14 anos, ela começou a participar de batalhas de MCs e por meio das letras passou a compreender para além das rimas e do ritmo. Foi uma mudança de postura e posicionamento diante da vida e das suas condições. Hoje, aos 19 anos, Sabrina - que um dia já teve cabelo alisado e sofreu bullying na escola - é Kessidy Kess, rapper e microempreendedora. Ela faz show pela primeira vez em Belém, hoje, no Manga Hostel, na festa “Quebradeira”.
Na rima do rap, retrato de um país
A carreira de Kessidy Kess não foi planejada. Começou com free style - quando ela descobriu que gostava de compor, e a vontade de escrever foi só aumentando. “Já tinha escritos, mas puxados para outros ritmos, e eram mais a romantização das relações. Não era algo lapidado, mas desse contato com a escrita veio com a necessidade de me expressar. Vim lapidando minha identidade, o que gosto, o que não gosto. E quando entrei no rap, tive contato muito forte com posicionamento político, de lembrar que não estamos sozinhos, de militância, sobre ser preto, pobre, e lutar em prol de uma organização para viver com qualidade. Aquilo me fascinou. Pensei: é isso que quero”, conta.
Tanto quis que, após uma revolução pessoal - ela raspou o cabelo e esperou crescerem os fios crespos -, passou a escrever de forma mais afinada, com mensagens diretas sobre sua trajetória na adolescência e sobre questões raciais, feminismo, e diferença de classes sociais.
Foi de modo independente que lançou a música “No Baile”, com clipe no YouTube, em que manda a mensagem, papo reto: “mundo machista e patriarcal/a gente grita, mas quase ninguém escuta/o boy está devendo, por isso tremeu/e logo vestiu sua carapuça/tô cansada de ser a pretinha hipersexualizada/por quem ainda não está ligado” - canta entre o rap e o ritmo eletrônico frenético. A letra viralizou e ela foi parar no site Geledés, somente de cultura negra. Ficou conhecida entre o movimento negro e feministas. “As pessoas foram gostando e quando vi, se passaram quatro anos. Soltei o ‘No Baile’ com filmagem de celular e viralizou por impulso espontâneo de mulheres negras como eu”, conta.
“O rap tem a liberdade de expressão. Falo que sou oprimida, sou contrariada, tirada como louca. Foi com o rap que vi minha realidade, que é de muitos no Brasil. Quero que ouçam meus relatos. É uma questão que pesa na nossa consciência e isso interfere no jeito que a gente se relaciona com toda a realidade. Há muito preconceito contra negro periférico, ou o não-branco periférico, existe esse histórico de romantização de nossa condição. É uma forma de nos deixar com os nossos problemas psicológicos, para tomarmos remédios que a gente nem sabe o que é. Mas todo mundo tem voz e direito de falar, quero reivindicar pela minha vida. É um grande tabu esse ‘eu não posso’. Mas não é dizer qualquer coisa. Como você vai usar a sua liberdade? Há certas expressões que são reproduzidas e magoam, ferem e são racistas e homofóbicas. Já teve muita luta, tem muita história para deixar o tempo passar e não fazer nada. Luto por mim, pelos que vão nascer e pelos que já morreram”, dispara a metralhadora Kessidy.

Politizada, Kessidy quer falar especialmente das meninas negras da periferia como ela (Foto: Divulgação)
“Aguenta minha marra”
Essa marra toda, de ser segura de si e da sua condição, veio após Kassidy Kess perceber que havia algo errado nas batalhas de MCs que ela costumava frequentar. Primeiro, notou que era um espaço dominado por homens; depois, começou a prestar atenção no conteúdo das rimas. Ao questionar, teve vários “inimigos temporários”, “conquistados” na tentativa de explicar sobre questões de gênero, causas sociais e até mesmo amizade e bem estar com o próximo. “Eles falavam até sobre o cabelo, não tem nada a ver com batalha isso”, observa, relembrando e criticando os amigos de Cuiabá.
“As meninas não se sentiam confortáveis para ocupar esses espaços, mas tem aumentado nosso protagonismo em tudo. Criei esse ranço, fui tentando me inserir de forma mais feminina. Vi que batalhando era contraditório, mas fui tentando me posicionar na batalhas. Depois, fui criando ranço comigo mesma, por me sujeitar a estar nesses espaços”, conta.
A família também estranhou quando ela decidiu que iria ser artista e tentar viver e ter renda por meio da música. “Fiz umas letras e pensei que já tinha algo, um show. As pessoas começaram a me procurar, a falar comigo. Saí correndo atrás de promover meu show e conseguir parceiros para me arrumar espaços nos primeiros eventos. Minha mãe não entendeu muito bem, fui a primeira da família a decidir pela arte, em gerações. Ela não entendia porque eu era tão rebelde e masculina, tão eu. Eu sou microempreendedora também, tenho uma marca de roupas que surgiu depois disso. Me joguei. Não quis descobrir outras novas possibilidades de ser feliz na vida depois que conheci o rap, é com essa felicidade que me mantenho de diversas maneiras”, conclui.
Ainda em fase de busca por uma identidade sonora, ela está em fase de gravação do primeiro álbum, “Chupa essa Manga”, em parceria com o DJ Ubuntu. “Não me cobro tanto para ser algo impecável”, diz, num astral ótimo, comentando que está feliz de estar em Belém. “A musicalidade daqui me inspira muito, aliás, não fico no quadrado do rap nacional que é imposto. Gosto da parte percussiva dos ritmos brasileiros, o tecnobrega, carimbó, maracatu, o calypso têm isso. Carimbó, eu acho lindo pelo lance da saia. Meus espíritos são caboclos, por isso vim parar em Belém, é muito o magnetismo”, comemora Kessidy Kess.

(Dominik Giusti/Diário do Pará)
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