Num momento de predominância do “eu” - ou, no máximo, de “eus” que nunca chega a “nós” -, Tulipa Ruiz mira noutra direção. Mais precisamente, no “Tu” - disco que ela acaba de lançar. Na sonoridade crua e envolvente - “nude”, ela prefere - e nos versos, o disco (disponível apenas em formato digital) afirma a liberdade suave de se mover na direção do outro.
“Terrorista Del Amor”, como diz o título de uma das canções, foi composta no espanhol que carrega o histórico de revoluções populares (e ditaduras militares) da América Latina. “O disco surge nesse contemporâneo apocalíptico”, explica Tulipa. “Foi feito neste momento muito austero no qual as narrativas sociais ficaram confusas. ‘Tu’ tem um pedaço do meu nome e tem o outro. Essa coisa de ‘Tu’ ser eu e o outro me explicou tudo que eu queria para minha vida e pro resto do mundo. É esse lugar que a gente tem que trabalhar muito. A esquerda dividida, pessoas tacando pedra em Hermeto Pascoal, o eu lírico condenado, como se não pudesse mais haver vilões ou personagens complexos... Tem que haver batalha, mas também amor”, defende a cantora.
O disco havia sido inicialmente pensado como releituras de canções dos três trabalhos anteriores a partir dos shows em formato voz-e-violão de Tulipa e do irmão, o guitarrista e produtor Gustavo Ruiz. Em “Tu” (lançado pelo selo da cantora, Brocal), a dupla ganha reforço das percussões de Stéphane San Juan, que assina a produção
com Gustavo.
“O momento estava propício (para lançar “Tu”), tem a ver com esse excesso de informação, muita maquiagem em tudo, nas narrativas. Queria ir no que temos de mais verdadeiro, eu na minha voz, Gustavo no violão, a percussão de Stéphane. Com menos informação possível”, diz Tulipa.
OUTROS RUMOS
As reflexões sobre o mundo e o próprio processo de feitura de “Tu” levaram-no para outros caminhos. As músicas revisitadas ganham novas cores, afinadas com a ideia que permeia “Tu” - seja nos personagens libertários de “Pedrinho” e “Desinibida” ou na defesa de uma existência mais calma de “Dois Cafés”.
“Era muito interessante ver naqueles shows como as canções batiam diferente nas pessoas. Como se elas encontrassem momentos da letra aos quais nunca prestaram atenção. A vontade de gravar o disco veio disso”, diz Tulipa.
Entre as inéditas, estão o single “Game” e a canção-título (ambas de Tulipa e Gustavo); a já citada “Terrorista Del Amor” (Ava Rocha, Paola Alfamor, Saulo Duarte, Tulipa e Gustavo), com participação de Adan Jodorowsky (“Achei interessante o desenho dessa árvore, ter a filha de Glauber e o filho de Alejandro Jodorowsky”, ela comenta); “Pólen” (apenas de Tulipa); e “Pedra”, que encerra o disco.
“‘Pedra’ tem a melodia se repetindo enquanto a harmonia muda. Gosto também de ser surpreendida pelo verso. Você espera ‘O galo de que eu gosto/ É o que cedinho acorda/ Antes que o dia amanheça’, mas o verso final é ‘Antes que tudo aconteça’. Como esses filmes que te sacodem com um fim inesperado. Essa música pra mim é isso, cinema, artes plásticas..."
(Leonardo Lichote/Agência O Globo/RJ)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar