Em maio, o brasiliense que sintonizou na frequência 89,9 FM levou um susto. A programação da Brasília Super Rádio FM, única especializada em música clássica na cidade – algo também raro no Brasil –, deu lugar à Alpha FM no primeiro dia do mês.
Pop, anos 1980 e demais gêneros tocados dia e noite em outras frequências convencionais passaram a ocupar o espaço de obras eruditas. O programa Um Piano ao Cair da Noite, transmitido ao vivo do Conjunto Nacional, acabou. Depois de quase 38 anos no ar, a emissora, afetada por uma dívida milionária com o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), continua apenas na internet.Restam, agora, poucas opções para os entusiastas de concerto via ondas eletromagnéticas. Todas em veículos públicos. Criada em 1936 e instalada no Rio de Janeiro, a veterana Rádio MEC tem 85% de sua programação dedicada ao estilo, além de bossa nova, jazz, choro e instrumental. A transmissão chega a Brasília pela frequência 800 AM.
Outras emissoras cumprem roteiro apenas pontual. Aos sábados, às 7h30, e domingos, às 22h, a Rádio Câmara divulga o gênero no programa Pauta Musical. Eventualmente, no Brasil Instrumental. E é só. Senado e Justiça reúnem no máximo títulos de jazz, música brasileira e blues.
Um Piano era o único programa a celebrar ao vivo temas eruditos. Na falta dele, o morador de Brasília tem à disposição, na área central, apresentações da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro (foto no alto), sempre às terças, no Cine Brasília – o Teatro Nacional, casa do conjunto, permanece fechado.
Entenda a crise da Brasília Super Rádio
Fundada por Mário e Lúcia Garofalo, a rádio enfrentou um agravamento das condições financeiras a partir de setembro do ano passado, quando a viúva faleceu. O casal não deixou herdeiros. A emissora passou para o controle de Ivo Steffen, cunhado da empresária.
Em abril de 2018, uma empresa de São Paulo, a Emerge, assumiu a administração. “O cunhado sumiu e resolveu passar a rádio para esse grupo. Eles entenderam que teriam que colocar outra emissora no lugar. Mas, por contrato, mantiveram a tradicional na internet”, explica Luiz Cláudio Pitta, produtor executivo da ex-89,9 FM desde 2000.

Mário e Lúcia Garofalo: fundadores da única rádio especializada em música clássica no Distrito Federal
Apoiada por mais de 4,5 mil pessoas em grupo de fãs no Facebook, a Super também segue adiante por meio de aplicativo (para iOS e Android). Eis a vantagem, segundo o programador: “a transmissão de web é liberada de pagar para o Ecad”. “O programa do piano ainda existe, mas é gravado. Saía caro e não tinha patrocínio. Só para manter transmissor no ar, é mais de R$ 10 mil por mês. Acho que dificilmente volta ao ar na frequência”, continua.
Um dos instrumentistas de Um Piano ao Cair da Noite e autor de abaixo-assinado on-line para tornar a rádio patrimônio cultural e imaterial do Distrito Federal, Ricardo Pimentel conheceu Garofalo em 1987. O empresário o viu tocando no restaurante Bierfass e o convidou para se apresentar ao vivo no programa. “Fomos pegos de surpresa e ficamos chocados”, relata, sobre o fim da atração.
“Essa rádio é um sonho que foi consolidado há 38 anos. Ela foi criada para ser a diferença. Isso que aconteceu é um retrocesso e está gerando mal-estar entre os ouvintes. Estamos na luta”, afirma o pianista.
Erudito no streaming: farto repertório
Para quem se habitua a escutar rádio via internet, vale explorar os catálogos disponibilizados pelos serviços de streaming. O Spotify, por exemplo, organiza várias playlists por meio de recortes temáticos diversos, como trilhas sonoras de filmes e lançamentos.
Na seleção Composer Weekly, um grande autor é lembrado semanalmente com dezenas de faixas. Uma maneira de introduzir o ouvinte a obras de artistas atemporais. Procurada pela reportagem, a plataforma afirmou que não divulga dados de usuários mensais de música clássica.
Mas um simples passeio pela página dedicada ao gênero dá a dimensão do interesse das pessoas. Vejamos a popularidade dos maiores “popstars”: Beethoven acumula quase 3,4 milhões de seguidores mensais, Mozart chega perto de 3,5 milhões e Bach supera os colegas com pouco mais de 3,7 milhões.
Dono de um estilo conhecido como “música clássica popular”, o pianista Richard Clayderman esteve em Brasília no mês de abril para fazer show na capital. Em entrevista ao Metrópoles, se disse um ávido consumidor de obras eruditas na web.
Fonte: Metropoles
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar