Está no DNA, no sobrenome e na carreira a semelhança entre eles. O amor pela música os une e faz dessa relação uma verdadeira parceria dentro e fora dos palcos. É o caso da cantora Naieme de Cassia Silva dos Reis, 27 anos, a Nanna Reis, filha caçula do cantor e compositor Alfredo Reis.
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“Meu pai foi a minha primeira referência musical e artística. Em casa sempre havia muita música, amigos músicos dos meus pais sempre a frequentavam, eu também sempre estive pelas coxias de shows, teatros, festivais. Acabei seguindo os mesmo passos, mas de forma muito natural”, diz Nanna.
Quando resolveu, aos 8 anos de idade, ser cantora, ouviu do pai: “Ah, tu quer? Então, estuda, te dedica, sempre aprenda coisas novas”. O conselho foi seguido à risca e hoje Nanna é professora de Música graduada pela Universidade Federal do Pará, pós-graduanda em Musicoterapia, e também arte educadora e atriz.
Apesar do apoio, pintou uma insegurança por parte de Nanna que, quando começou a compor, ficava morrendo de vergonha de mostrar ao pai o resultado. Mas esse bloqueio foi vencido, Alfredo sempre dá uma ajuda na letra ou melodia, e com o passar do tempo essa parceria na música e na vida vem só aumentando.
“Hoje um dá opinião no trabalho do outro e já temos uma música juntos, ‘Duas Notas Musicais’, onde tem uma frase que eu acho que nos define: ‘Somos a música’. E a música nem sempre é linear, ela muda o compasso, o tom, o andamento, e nós também divergimos em opiniões e alguns pontos de vista, mas somos parceiros. Meu pai é meu brother, a gente conversa muito e ele tem maior cara de brabão, mas o ‘broa’ é muito gente boa”, conta, orgulhosa.
SEMPRE PRESENTE
Com 40 anos de carreira, Alfredo Reis, mesmo nos palcos era visto pela filha como o pai que estava presente na reunião de escola, que brigava e colocava de castigo quando descobria tudo o que ela aprontava - e ela confessa que aprontava muito. Mas, indo além disso, ela passou a observar um pai que faz mil coisas e nas horas vagas ainda é uma espécie de guru.
“Via um pai que canta muito, que toca e compõe, que faz as vezes de guru, porque saca de coisas místicas, dá umas dicas de uns banhos pra galera, gosta desses lances paraenses do Veropa. Um pai que é o chefe de cozinha nos almoços importantes. Mas eu passei a ver meu pai como artista, redescobrindo o artista incrível que ele é já na academia de música, na universidade, na pesquisa, quando fiz minha monografia sobre tradição oral na música paraense”, admite Nanna.
Na pesquisa na universidade ela descobriu a importância do pai como compositor, que firmou parcerias musicais com grandes mestres como Ruy Barata, Benedito Monteiro, José Maria de Villar Ferreira e João de Jesus Paes Loureiro. “Aí eu me orgulhei muito mais. Redescobri o meu pai como artista a partir disso e tenho muito orgulho de ser filha dele, de ter herdado esse DNA e um pouco dessa garganta abençoada que ele tem. Canta muito, mesmo hoje com seus quase sessentinha”, brinca a filhota.
Dos toques nas canções, conselhos e parceria de pai e filha, esse amor pela música já deu show em festivais e em apresentações de TV. Apesar de muito próximos, subir ao palco ao lado do pai para Nanna é sempre um aprendizado cheio de emoção. E seu Alfredo não contribuiu apenas para a filha como artista, mas plantou uma sementinha para que ela valorize as pessoas que passam pelo seu caminho.
“Ele sempre me ensinou a falar com todo mundo, a valorizar os profissionais que somam comigo, seja na função que for, e isso serviu pra vida, do motorista do bonde ao porteiro da escola. Essas coisas ele nem sabe que guardei, mas são as pequenas lições diárias. Ele é uma figura, um avozão para os meus sobrinhos. Sou praticamente uma Alfreda de saia”, finaliza Nanna.
Apoio incondicional na carreira

Lucinha Bastos coleciona histórias com o pai Luciano Bastos que, entre outras lições, ensinou o respeito pela música e sempre dá sugestões para o repertório da filha (Foto: Divulgação)
Já Lucinha Bastos, 51, começou a cantar muito cedo ao lado do pai, Luciano Bastos, 76 anos, fundador da Banda Sayonara. Além da parceria nos palcos, fora dele o pai foi o grande apoiador da sua carreira.
“Cantava com ele em várias serestas em casas de amigos, com a banda, sempre com autorização do juizado de menores. Me levou, com 9 anos, para São Paulo para participar de programas na extinta TV Tupi, como o ‘Clube dos Artistas’ e ‘Almoço com as Estrelas’. Gravei meu primeiro disco pela gravadora Continental e mais adiante ele patrocinou um disco meu, me apoiou para ir morar no Rio de Janeiro para tentar carreira nacional. Enfim, fez o que pôde e o que não pôde para realizar meu sonho”, contou.
Foi seu Luciano quem apresentou muitos compositores e intérpretes para a filha, mostrando a características de cada um, sendo crítico. “Aprendi muita coisa com ele, inclusive a entender que mesmo que fosse uma boa cantora não significava que tudo ficaria bem na minha voz. Ele era crítico e quando não estava bom dizia: ‘essa música ainda não é para você, quem sabe um dia’”, relembrou.
HISTÓRIAS
O tempo passou, mas a inspiração no pai continua e ela coleciona histórias ao lado dele, uma aos 20 anos quando foi participar de um festival em Minas Gerais com grandes nomes da MPB.
Ela era a única desconhecida e todos com suas torcidas organizadas, com faixas e tudo. E quem estava lá no meio gritando pela filha? Seu Luciano e a esposa eram a torcida de Lucinha. Nesse festival ela acabou ganhando como Melhor Intérprete. Mas as histórias não param por aí! “Ele vai me ouvir e quando muita gente está conversando, chama a atenção e faz cara feia”, entregou Lucinha.
A cantora contou ainda que o pai é muito mais popular que ela, que ouve uma música e sabe se vai levar o povo para o salão, se tem um bom refrão, se é boa para dançar, faz uma avaliação de vários pontos. Já ela gosta de tudo, mas acaba gostando mais de algumas músicas sem tanto apelo popular. “Quando ele monta o repertório do CD, mostra para várias pessoas e pergunta a opinião. A que eu digo que adorei, ele coloca lá para o final do CD e a que eu digo que não gostei muito, ele diz: ‘Então, é essa que vai estourar’”, contou rindo.
APRENDIZADO
“Meu pai, se não tiver show, monta um e vai em frente. Aprendi a ter responsabilidade com horário e com tudo na minha vida. Na época que eu era cantora da banda, cheguei uma vez atrasada para nunca mais. Tento levar isso comigo”, diz.
Ele é figura certa na plateia dos shows de Lucinha, faz questão de sugerir música para o repertório da filha e dá conselhos. A cantora entrega que nem sempre concordam, mas que no final sempre se entendem. Um conselho em especial Lucinha não esquece: aos 14 anos, quando começou a fazer shows, ouviu do pai que tinha de escolher bem o repertório, ver o que o público esperava dela e que ela seria aplaudida pela sua competência, mas que precisava lembrar que o primeiro aplauso é para a música.
“E é verdade. Quando Roberto Carlos, por exemplo, canta a primeira frase de ‘Emoções’ o público já aplaude. Nilson Chaves quando entoa ‘Olho de Boto’ já é aplaudido de cara antes mesmo de mostrar sua voz linda e interpretação ímpar. E levo comigo esse respeito pela música”, lembrou ela.
Se na música eles têm opiniões diferentes, na vida são bem parecidos, adoram contar piada e rir de besteira. Se irritam quando as pessoas não chegam no horário. “Até hoje sei o nome de várias pessoas que me ajudaram e sempre que posso agradeço, ele sempre me falou da importância de ter reconhecimento. Em uma coisa não pareço com meu pai: ele tem uma disciplina enorme com alimentação e atividade física e eu não, mas alguma coisa tinha de puxar para minha mãe, né, tadinha”, terminou aos risos.
Pai e filha dividem experiências musicais

Malu e Yuri pretendem gravar juntos canções para um EP. (Foto: Divulgação)
Malu Cavalleiro de Macedo Guedelha, 18 anos, passou a infância acompanhando o pai, o músico Yuri Guedelha, em rodas de choro, teatro e ouvia muita música por influência dele, o que ela acredita que foi um fator determinante para seguir a carreira de cantora.
“Meu pai, por estar imerso no mundo da música e das artes, sempre quis despertar esse carinho em mim. Vê-lo em cima dos palcos fazendo a música acontecer sempre agradou meus olhos, ouvidos e coração. Sentia orgulho e me sentia bem e, com certeza, essas sensações todas me instigaram a fazer o que tenho feito hoje”, falou Malu.
O gosto pelo samba, jazz, a bossa nova e o chorinho, aproximam ainda mais pai e filha. Essa semelhança no gosto musical já rendeu a Malu a participação em vários shows de Yuri e o projeto “Tal pai, tal filha”, que foi uma forma que eles encontraram de se aproximar ainda mais dentro da música e experimentar como daria isso tudo: gravar juntos. O projeto continua e os dois pretendem gravar mais músicas, sendo composições de Malu e Yuri, que provavelmente vão virar um EP.
“Dividir o palco com o papai sempre será uma honra e me deixará feliz. Das últimas vezes foram ainda melhores por eu estar cada vez mais me encontrando e me sentindo também cada vez mais livre em cima dos palcos. Essa segurança e maior prazer que venho adquirindo/sentindo com o tempo faz com que cada próxima apresentação seja melhor que a outra”, disse Malu.
Ela subiu ao palco pela primeira vez em 2010, com apenas dez anos, se apresentou pelo colégio e atualmente integra a banda “O Cinza”, tudo isso com o apoio do pai, que foi a grande influência para seguir na música.
“São oito anos cantando fora do meu quarto ou do chuveiro. São oito anos de pura aprendizagem, de descobertas e redescobertas e de auto-conhecimento. É muito bom o sentimento enquanto canto e depois de ter cantado. Foi difícil me enxergar como cantora. Sempre disse que era compositora. Mas hoje em dia não tenho nem um receio em me chamar assim e espero cantar o resto da vida”, finalizou Malu.
(Aline Rodrigues/Diário do Pará)
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