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410 ANOS DE HISTÓRIA

Casarões respiram memória e revelam cotidiano de ontem e de hoje de Belém

Às vésperas dos 410 anos, a capital paraense preserva memórias, afetos e identidades entre paredes centenárias da Cidade Velha e do centro de Belém.

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Imagem ilustrativa da notícia Casarões respiram memória e revelam cotidiano de ontem e de hoje de Belém camera Casarões, um charme a mais na Belém que mantém arquitetura colonial como uma de suas marcas urbanas | (Arquivo/Celso Rodrigues/Diário do Pará)

Belém também vivia seu ciclo de mudanças particular enquanto o mundo atravessava profundas transformações provocadas pela Segunda Revolução Industrial. Era o tempo de sentir o impacto do avanço do imperialismo europeu, do surgimento de novas ideologias sociais, de descobertas científicas e de inovações como a eletricidade, o automóvel, o telefone e o rádio. Do lado de cá, no coração da Amazônia, a capital paraense começava a se reinventar, impulsionada pela riqueza da borracha e por um desejo de modernidade que se refletiu diretamente na paisagem urbana.

Foi nesse contexto, entre o final do século XIX e o início do século XX, durante o auge da Belle Époque amazônica, que surgiram os casarões mais imponentes e simbólicos da capital paraense. Embora fundada em 1616, Belém passou a ganhar contornos arquitetônicos marcantes apenas séculos depois, com edificações que até hoje resistem ao tempo. Exemplos como a Casa Salomão, construída em 1906, e outros imóveis do centro histórico ajudam a contar esse capítulo da história.

Casa Salomão. Loja tradicional de Belém
📷 Casa Salomão. Loja tradicional de Belém |Foto: Octavio Cardoso / Diário do Pará

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Ruas como a antiga Ladeira (hoje Siqueira Mendes), no bairro da Cidade Velha, já abrigavam construções desde o século XVII. No entanto, são os casarões da era da borracha que moldaram a imagem que Belém apresenta até hoje a quem chega a uma cidade onde passado e presente convivem lado a lado.

Prestando-se a completar 410 anos no próximo dia 12 de janeiro, a capital das mangueiras tem sua história impressa não apenas nos livros, mas nas fachadas, janelas, pisos e paredes que seguem de pé, testemunhando gerações.

Teatro Waldemar Henrique já foi sede do Museu comercial do Pará
📷 Teatro Waldemar Henrique já foi sede do Museu comercial do Pará |(Foto: Brenda Hayashi)

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Casas de memória

Caminhar pelo centro histórico de Belém, especialmente pela Cidade Velha, é atravessar um museu a céu aberto. Entre ruas estreitas e calçadas antigas, surgem casarões cheios de detalhes, ainda vivos na memória (e no cotidiano) da cidade.

“Mantê-los de pé é como contar uma história ilustrada para as próximas gerações. É manter a história viva”, resume a arquiteta Emily Mendes, moradora de um casarão antigo no bairro.

Há cerca de 30 anos, Emily convive diariamente com paredes que guardam lembranças, pisos de madeira marcados pelo tempo e janelas que já testemunharam diferentes fases de Belém. Segundo ela, quando o pai comprou o imóvel, a casa estava bastante danificada e com a planta original alterada.

“Mesmo assim, ela inspirava um clima de mistério, que despertou em mim imediatamente a vontade de conhecer a história da casa e do bairro”, relembra.

Com o passar do tempo, o imóvel se transformou em um espaço de convivência familiar. Após as reformas necessárias para torná-lo habitável, a casa passou a ser ponto de encontro de amigos e parentes, especialmente durante o Círio de Nazaré.

Cidade Velha concentra grande parte dos casarios antigos de Belém.
📷 Cidade Velha concentra grande parte dos casarios antigos de Belém. |( Reprodução / arquivo pessoal )

“Esses encontros estão entre as melhores memórias que tenho. Lembro também das minhas sobrinhas, ainda crianças, andando de bicicleta dentro da casa, algo que só era possível por conta das dimensões dos ambientes”, conta, com afeto.

O casarão, além de moradia, também chama a atenção de quem passa. Emily relata situações curiosas, como turistas que param para fotografar a fachada.

“Já aconteceu de eu estar saindo de casa e um turista estar fotografando. Precisei pedir para apagar a imagem em que eu aparecia”, relata.

Preservar é resistir

Manter um imóvel histórico, no entanto, não é tarefa simples. Emily explica que os desafios vão desde questões estruturais até limitações legais.

“As casas são geminadas, então animais se deslocam pelos telhados e acabam danificando as estruturas, provocando goteiras. As paredes de tijolo de barro, com até 40 centímetros de espessura, facilitam a subida da umidade do solo, o que causa mofo”, explica.

Nos imóveis que ainda preservam o piso original de madeira, as dificuldades são ainda maiores. “Hoje é muito difícil substituir tábuas danificadas por causa das leis ambientais. Por isso, muitas pessoas acabam trocando os pisos por materiais de manutenção mais simples”, lamenta.

Mesmo assim, Emily destaca que o cuidado vai além da obrigação. “É uma mistura de necessidade de manter a casa habitável, afeto e vontade de preservar as histórias da família, que estão intimamente ligadas à história da casa”, afirma.

“Pelo simples fato de essa casa estar de pé, ela já ajuda a contar a história do bairro e da cidade.”

Pertencimento ao longo de séculos e gerações

Esse sentimento de pertencimento também é vivido por Maura Rezende, de 60 anos, técnica em Vigilância Sanitária e Saúde Ambiental, moradora da Cidade Velha há quatro décadas.

“Morar aqui foi como voltar no tempo. Meus pais se conheceram e se casaram na Cidade Velha. Muitas das minhas memórias, principalmente as ligadas aos meus filhos, estão aqui”, conta.

Ela lembra com carinho dos encontros familiares no porão da casa, onde o pai reunia filhos e netos para churrascos que atravessavam gerações. Para Maura, preservar o imóvel sempre foi uma escolha consciente.

As cadeiras e conversas na calçada: gostosa Belém de outrora ainda vive
📷 As cadeiras e conversas na calçada: gostosa Belém de outrora ainda vive |( Reprodução / arquivo pessoal )

“O piso da cozinha, por exemplo, meu pai nunca mudou. São peças que não existem mais. Os tacos de acapú e pau-amarelo das salas e quartos também nunca foram trocados”, explica.

Os pisos de madeira nobre que resistem à passagem do tempo
📷 Os pisos de madeira nobre que resistem à passagem do tempo |( Reprodução / arquivo pessoal )

Mais do que estrutura, a casa representa afeto, memória e identidade. “Entrar na minha rua já me faz sentir em casa. O convívio com os moradores do bairro é muito bom. É um sentimento de pertencimento”, diz.

Os casarões como memória coletiva

Para o historiador Márcio Neco, os prédios históricos exercem um papel fundamental na construção da memória coletiva da cidade.

“Esses espaços são importantes porque são tangíveis, significativos para a história, a cultura, a arquitetura e, principalmente, para a sociabilidade”, explica.

Segundo ele, há um erro recorrente em valorizar apenas o aspecto arquitetônico, esquecendo que esses espaços foram (e ainda são) vividos.

O historiador Márcio Neco
📷 O historiador Márcio Neco |( Reprodução / arquivo pessoal )

“Eles não são históricos apenas pela monumentalidade, mas pelas relações sociais que aconteceram ali. São elos de continuidade entre o passado e as gerações atuais”, afirma.

Márcio destaca ainda o poder educativo desses espaços. “Eles nos fazem lembrar de tragédias, lutas, triunfos e alegrias. Têm mais força do que um livro didático”, pontua.

Memória em construção

O historiador e administrador da página Historiando Belém do Pará, Henrique Coelho, ressalta que a memória coletiva da cidade está diretamente ligada aos seus monumentos.

“Muitos são tombados justamente para que essa memória permaneça. É fundamental o trabalho do historiador para explicar o que cada espaço representa”, afirma.

Henrique Coelho: Belém ainda não é reconhecida pelo seu rico patrimônio histórico e arquitetônico.
📷 Henrique Coelho: Belém ainda não é reconhecida pelo seu rico patrimônio histórico e arquitetônico. |( Reprodução / arquivo pessoal )

Henrique avalia que, apesar de sua riqueza histórica, Belém ainda não é plenamente reconhecida nacionalmente por seu patrimônio.

“Quando se fala em cidades históricas, lembram logo de Ouro Preto, do barroco, das capelas. Em Belém, dificilmente alguém imagina o Palacete Pinho, o Palacete Bibi ou a Catedral Metropolitana”, analisa.

Mesmo prestes a completar 410 anos, o caminho para a valorização plena ainda é longo. Mas, entre casarões que resistem e moradores que cuidam, Belém segue contando sua história com vidas.

Veja fotos de alguns casarões espalhados por Belém

Casarões respiram memória e revelam cotidiano de ontem e de hoje de Belém
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