Fundado em 1627, o Ver-o-Peso é um dos pontos mais representativos da cidade de Belém e um dos mercados mais antigos do Brasil. À beira da Baía do Guajará, o "Veropa" simboliza a identidade cultural e histórica da cidade. Mais do que um centro comercial, hoje em dia, é um espaço vivo onde o passado e o presente se encontram, carregando a memória de gerações.
Com a chegada dos colonizadores no século XVII, a Coroa Portuguesa estabeleceu a Casa de Haver o Peso para cobrar impostos sobre mercadorias tomando um espaço que já servia ao comércio para os povos indígenas antes da colonização. Daí, inicia-se um ciclo que o consolidaria a feira como ponto central da cidade no futuro.
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Com diversas feiras que oferecem de tudo: peixe fresco, frutas exóticas, ervas medicinais, artesanato regional e produtos típicos da Amazônia, o Ver-o-Peso é hoje considerado como a maior feira a céu aberto da América Latina, com cerca de 25 mil metros quadrados. O historiador Michel Pinho destaca a importância do mercado no processo de construção econômica de Belém e da Amazônia.
"Os mercados refletem o processo de construção econômica da Amazônia. Até o século XIX, Belém era o principal ponto econômico da região. O comércio de produtos como pirarucu, açaí, ervas e farinha foi fundamental para o crescimento da cidade e garante a relevância do Ver-o-Peso até hoje", afirma.

Ao longo do século XX, o Ver-o-Peso continuou a se expandir. Até 1985, grande parte da comercialização ainda era informal, em barracas improvisadas e produtos vendidos no chão, até que a primeira grande reforma trouxe padronização e organização ao local. Apesar das mudanças com o passar dos anos, o mercado mantém a essência popular e se consolidou como um símbolo da identidade paraense, refletindo a cultura, a fé e o trabalho da população local.
De geração em geração
O Mercado do Ver-o-Peso também é um lugar de vivências pessoais e de histórias de vida, e muitos dos feirantes que ali trabalham pertencem a famílias tradicionais do local. Edileia Marques trabalha há 43 anos no mercado vendendo ervas e essências típicas da cidade. Ela pertence à terceira geração da família e mantém a tradição no espaço até hoje. Para ela, o Ver-o-Peso é mais que um local de trabalho, é uma parte fundamental da vida.
"O Ver-o-Peso representa tudo para mim. Eu sou da terceira geração da minha família aqui. Minha avó Cheirosa começou, minha mãe Lira continuou e agora estou eu, passando essa tradição para as minhas filhas. Aqui é a nossa vida", compartilha Edileia.

No aniversário de 410 anos de Belém, ela também deixa uma mensagem para o futuro da cidade. "Que esse ano venha muita paz, prosperidade e mais conquistas para nossa Belém”, afirmou.
Assim como Edileia, Nazaré Barros, que trabalha no Ver-o-Peso vendendo polpa de frutas e bombons regionais, considera o mercado como uma segunda casa. Ela conta que vem de uma tradição familiar, que começou quando o avô dela chegou à Belém vinda de de Abaetetuba. "Trabalho aqui há 50 anos! Eu era criança quando vim ajudar minha mãe, que, por sua vez, ajudava minha avó. Para mim, o Ver-o-Peso é minha segunda casa, é daqui que tiramos nosso sustento e nossa história", compartilha Nazaré.

Ela conta que no início, a família dela vendia apenas frutas típicas da região. Mas, com o passar dos anos e o crescimento da procura por produtos regionais no mercado, eles passaram a vender também polpas desses frutos e bombons com sabores regionais.
Para Nazaré, o Ver-o-Peso tem um forte impacto na riqueza e na identidade da região. "A nossa região é muito rica, e o Ver-o-Peso é parte disso. As pessoas de fora ficam maravilhadas com o que encontram aqui. Só aqui, na nossa terra, é possível ver tantas frutas e produtos tão únicos”, afirmou.
Identidade de Belém tecida no cotidiano da feira
A rotina de quem trabalha no Ver-o-Peso e faz dele parte da identidade belenense e a maior feira a céu aberto da América Latina é puxada. Um exemplo disso é de Ricardo Rodrigues, que trabalha ao lado da esposa Maria Gorete, e conta como acorda todos os dias de madrugada para manter a barraca funcionando.
"Eu saio de casa quase às cinco da manhã e só volto para casa depois das sete da noite. É cansativo, mas é gratificante. Aqui a gente vende de tudo: castanha-do-pará, cachaça com jambu, pimenta, mel de abelha, e o famoso café de grão de açaí. O Ver-o-Peso é uma vitrine para a cultura da nossa terra", relata Ricardo.

Embora ainda haja desafios e pontos a se melhorar na infraestrutura do mercado, ele também comenta as melhorias visíveis no local ao longo dos anos e do desenvolvimento de Belém. "O Ver-o-Peso passou por grandes melhorias, o que é ótimo, mas ainda há detalhes a serem ajustados. A reforma foi um grande avanço e minha expectativa é que o mercado siga melhorando cada vez mais", disse.
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Hoje em dia, o Ver-o-Peso não é apenas um mercado, mas um lugar de vivências e de histórias que refletem a diversidade cultural de Belém. A cada barraca, a cada venda, o mercado guarda uma memória viva da cidade. Como explica Michel Pinho, o Ver-o-Peso simboliza a identidade paraense, marcada pela diversidade cultural, pela culinária única e pela convivência de diferentes povos e tradições.
"O Ver-o-Peso representa nossa cultura de maneira completa, desde a música, passando pela arquitetura, até as nossas práticas alimentares. Olhar para o Ver-o-Peso é olhar para Belém, é olhar para a nossa história", conclui Pinho. Para aqueles que trabalham e convivem ali, o mercado é uma parte fundamental das vidas, um ponto de resistência e de continuidade.

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