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UMA BELÉM CINEMATOGRÁFICA

Cinemas de rua construíram a modernidade da cidade mais cult da Amazônia

Descubra a rica história do cinema em Belém, desde o Cine Olympia até a nova geração de cineastas que retratam a cultura local nas telonas.

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Imagem ilustrativa da notícia Cinemas de rua construíram a modernidade da cidade mais cult da Amazônia camera O Cinema Olympia é o mais antigo em funcionamento no Brasil. | (Reprodução)

O cheiro de pipoca fresquinha exalando pelo ar, os ingressos na mão, o burburinho das pessoas saindo da sala após uma sessão comentando sobre o filme que acabaram de assistir, as luzes apagando devagarzinho para um novo grupo que entra pela sala escura. Ir ao cinema é mais do que aproveitar um tempo livre, é poder conhecer histórias e viajar para qualquer lugar do mundo.

Belém tem uma relação centenária com o cinema. Muito antes dos shoppings e das grandes redes exibidoras, a capital paraense já vivia a experiência coletiva das salas escuras, onde imagens em movimento encantavam públicos diversos e ajudavam a formar uma identidade cultural própria.

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De acordo com o professor Marco Antônio Moreira Carvalho, docente do Curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Pará (UFPA), o contato de Belém com o cinema aconteceu de forma quase imediata após o surgimento da sétima arte. “Logo que o cinema foi criado pelos irmãos Lumière, em 1895, um ano depois já houve a primeira exibição aqui em Belém, no Theatro da Paz, de forma improvisada”, explica.

Nos anos seguintes, a cidade passou a contar com diversas salas temporárias, espaços que não eram originalmente cinemas, mas que exibiam filmes. As salas permanentes, no entanto, só começaram a se consolidar na primeira década do século XX, culminando na inauguração de um patrimônio histórico e mais antigo em funcionamento do Brasil: o Cinema Olympia.

Inaugurado em 1912, o Olympia foi o primeiro grande cinema permanente de Belém e simboliza até hoje o auge econômico vivido pela cidade durante a Belle Époque. Segundo o professor, o cinema fazia parte de um projeto cultural ambicioso. “Os proprietários do Grande Hotel criaram o Olympia para formar um triângulo cultural com o Theatro da Paz. Era um cinema feito com todo o luxo e investimento possíveis na época”, destaca.

Esse investimento consolidou a paixão do público belenense pelo cinema, que só cresceu ao longo das décadas e séculos seguintes com a abertura de novas salas espalhadas pela cidade.

Marco Antônio é professor do Curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Pará (UFPA).
📷 Marco Antônio é professor do Curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Pará (UFPA). |(Reprodução/Arquivo pessoal)

Palácios do cinema e diversidade cultural

A partir dos anos 1950, Belém viveu uma expansão significativa de cinemas de rua. Surgiram salas que se tornaram referência para gerações e marcaram a memória afetiva de muitos paraenses, como o Cine Palácio, o Cine Nazaré, o Cine Iracema, o Cine Guarani e, em 1961, o Cine Ópera. Mais tarde, vieram os Cinemas 1, 2 e 3, do Circuito Cinearte, na Travessa São Pedro, inaugurados entre 1978 e 1987.

Marco Antônio ressalta que, naquela época, o termo “cinema de rua” não existia. “Eram apenas cinemas. Essa distinção só surgiu no final dos anos 1990, quando começaram a aparecer os cinemas de shopping”, explica. O que tornava essas salas ainda mais especiais era a diversidade da programação. “Era possível assistir a filmes italianos, franceses, alemães, ingleses. Isso influenciou profundamente a formação da cultura cinéfila de Belém”, afirma o professor.

Resistência e futuro

Atualmente, o número de cinemas de rua em Belém é reduzido. O Cinema Olympia, em processo de retomada, e o Cine Ópera, com uma programação diferenciada, seguem como símbolos de resistência. Há ainda espaços institucionais, como o Cine Líbero Luxardo, ligado à Fundação Cultural do Pará, que mantêm viva a experiência coletiva do cinema fora dos shoppings.

Para o professor, esses espaços continuam despertando carinho especial, sobretudo entre o público que frequentou os cinemas de rua até os anos 1990. “Existe uma relação afetiva muito forte com essas salas”, concluiu.

Inspiração para as telonas

Belém não é apenas cenário, mas matéria-prima central no trabalho do cineasta Matheus Neves, diretor dos curtas “Manoel, o porteiro quase aposentado” e “Rua da Felicidade”. Formado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal do Pará (UFPA), ele constrói narrativas ancoradas no cotidiano urbano amazônico e na vivência da periferia, buscando fugir de estereótipos e ampliar a representatividade nas telas.

Em entrevista ao DOL, Matheus conta que seu primeiro contato com o cinema ocorreu ainda na infância, por meio das fitas cassete, da TV aberta e, mais tarde, dos DVDs que se popularizaram com a pirataria. No entanto, foi a ida ao cinema Olympia que transformou definitivamente sua relação com o audiovisual. “Assisti ao filme da Xuxa e os Duendes, mas o que me marcou foi a atmosfera daquele lugar: a sala escura, a tela grande, o som diferente do alto-falante da TV”, relembra. A experiência, segundo ele, despertou um interesse que se aprofundaria na adolescência.

Hoje, o cineasta destaca o Cine Líbero Luxardo como sua principal sala de exibição e formação. É lá que ele acompanha filmes fora do circuito comercial dos shoppings, estuda novas obras e revisita clássicos em sessões especiais. “É um espaço fundamental para quem quer pensar cinema de forma mais ampla”, afirma.

Matheus Neves é cineasta belenense formado pela UFPA.
📷 Matheus Neves é cineasta belenense formado pela UFPA. |(Reprodução/Arquivo pessoal)

A cidade de Belém ocupa papel central em seu processo criativo. Matheus explica que seus roteiros nascem da observação do entorno: lugares, relações humanas e acontecimentos cotidianos. “As cores, os sons e as texturas do dia a dia esclarecem minha visão artística”, diz. A partir dessa realidade, ele busca retratar personagens comuns da periferia, figuras que podem ser encontradas em uma caminhada pelo bairro ou em um bar de esquina. “Quero que essas pessoas se vejam na tela e se identifiquem com as histórias”, completa.

Entre as memórias mais marcantes de sua trajetória, Matheus cita a exibição de seu primeiro curta, “Manoel, o porteiro quase aposentado”, em 2019, no próprio Líbero Luxardo. “Compartilhar uma história e perceber que o público se identificou foi decisivo. Naquele dia, tive certeza de que queria fazer isso para sempre”, recorda.

Atualmente, o cineasta segue desenvolvendo narrativas que reforçam a essência de seu trabalho: falar de Belém e da periferia urbana amazônica a partir de vivências reais, sem caricaturas. Em janeiro, ele lançará seu mais recente curta-metragem, produzido como Trabalho de Conclusão de Curso na UFPA. A obra será disponibilizada no canal do YouTube do Observatório de Cinema e Audiovisual da UFPA (OCA UFPA), projeto que reúne o acervo dos filmes desenvolvidos pelos estudantes do curso.

Para Matheus Neves, o cinema segue sendo um espaço de encontro entre a cidade, suas histórias e o público que se reconhece nelas.

A paixão pelo cinema no dia-a-dia

Desde as sessões improvisadas na infância até a atuação profissional no audiovisual, o cinema ocupa um papel central na vida de Alan Freitas, produtor multimídia, belenense e apaixonado por filmes.Ele relembra que a relação com a sétima arte começou cedo e se transformou em uma influência decisiva para sua carreira e sua forma de enxergar o mundo.

Alan observa também que as obras que mais o marcaram nos últimos anos não passaram pelo circuito comercial dos cinemas de shoppings, dando preferência aos cinemas de rua. Segundo ele, muitos filmes de grande sensibilidade sequer chegam a essas salas. “Assisti a produções de uma delicadeza profunda, conduzidas por narrativas leves, mas que marcaram a minha vida”, afirma. Para ele, todo bom filme deixa marcas duradouras no espectador, que reaparecem naturalmente em conversas entre amigos e se perpetuam no imaginário ao longo dos anos. “Faço questão de recomendá-los, porque essas marcas continuam reverberando”, diz.

Frequentador assíduo das salas de cinema, ele afirma que costuma assistir a filmes pelo menos uma vez por mês, podendo chegar a três sessões mensais, dependendo da programação. O hábito acompanha sua trajetória profissional e se reflete diretamente no trabalho que desenvolve hoje.

“O cinema teve influência total na minha profissão”, resume. Além de produtor audiovisual, Alan sempre demonstrou interesse em compreender os bastidores das produções: as técnicas, os conceitos visuais e os caminhos criativos que levam ao resultado final.

Alan Freitas é produtor multimídia e apaixonado por cinema.
📷 Alan Freitas é produtor multimídia e apaixonado por cinema. |(Arquivo Pessoal)

Atualmente, trabalhando principalmente com edição de vídeo, ele busca reproduzir algumas dessas técnicas, com o objetivo de provocar debates semelhantes aos que sempre o fascinaram como espectador. “Gosto da ideia de que cada pessoa constrói sua própria leitura de um filme”, explica.

Ao falar sobre Belém, Alan destaca o peso histórico e cultural da cidade no cenário cinematográfico brasileiro. A capital paraense abriga o Cine Olympia, considerado o cinema mais antigo em funcionamento no país, além de uma rede ativa de cineclubes, mostras independentes e iniciativas voltadas à difusão do cinema. “Para quem aprecia a sétima arte, há muitas boas opções em Belém para vivenciar e celebrar o cinema”, conclui.

Cinemas de rua construíram a modernidade da cidade mais cult da Amazônia
📷 |Júlia Marques
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