Ao atravessar os portões de ferro do Espaço São José Liberto, a beleza que hoje se impõe, jardins bem cuidados, arte pulsante, vida circulando não é suficiente para silenciar o que se sente. Há algo que permanece. As paredes parecem guardar vozes, e o passado insiste em se fazer presente, mesmo diante de tanta transformação. O silêncio ali é diferente, carrega peso, provoca uma sensação difícil de traduzir em palavras.
Localizado na Praça Amazonas, no bairro do Jurunas, o espaço é hoje uma das principais referências culturais e turísticas de Belém, que celebra seus 410 anos. Bonito aos olhos, com vibrante na programação cultural, o São José Liberto segue atravessado por memórias profundas, lembranças que não se apagam com tinta nova, nem se escondem com o paisagismo bem ornado.
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“Tinha muito assassino, muita gente ruim ali dentro. Muita maldade mesmo. Até hoje dizem que têm espíritos ali… com tanto bandido que passou por lá”, conta um morador de 72 anos, que cresceu vendo o prédio funcionar como presídio e prefere não se identificar. Direto e sem romantização, ele sabe muito bem o que sente e o que viu ao longo dos últimos anos.

Outra moradora, hoje com 82 anos, também guarda memórias contraditórias do espaço. “Gente ruim que matava, roubava, essas coisas… eles mandavam tudo pra lá. Mas lembro de uma festa que teve dentro do presídio. Eu e meu marido fomos. Era muito bonita. Os presos se comportavam muito bem”, relembra, revelando como aquele lugar sempre foi marcado por extremos.
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O prédio que hoje abriga o Polo Joalheiro teve, ao longo de mais de dois séculos, uma trajetória ligada ao controle, à punição e à dor. De acordo com o artigo acadêmico “São José Liberto ou Presídio? Memória coletiva e o patrimônio material em Belém do Pará”, da pesquisadora Priscilla R. Camargo Ferreira, o edifício foi fundado em 1749 como Convento Franciscano. Com a retomada do território pela Coroa Portuguesa, os religiosos foram expulsos, e o espaço passou ao controle do Estado.
Desde então, o prédio assumiu diversas funções conforme as necessidades do poder público como: depósito de pólvora, esquadrão de cavalaria, corpo de artilharia, olaria e hospital durante a Cabanagem. Com o aumento de detidos sob custódia judicial, o hospital acabou se transformando em cadeia pública e, mais tarde, em presídio, função que manteve até o final do século XX.
A rebelião que marcou o fim
Um dos episódios mais traumáticos ocorreu em 1998, durante uma rebelião liderada por José Augusto Viana David, conhecido como Ninja. O motim, iniciado durante o lançamento da Campanha da Fraternidade, terminou de forma brutal após o assassinato do líder que teve o corpo pendurado no alto do prédio, em uma cena transmitida ao vivo pela televisão para todo o país. A população local acompanhou tudo à distância, marcada pelo medo e pelo choque.

Em 2000, o então governador Almir Gabriel determinou a desativação total do presídio, transferindo os presos para uma nova unidade em Marituba. Dois anos depois, o prédio foi devolvido à população completamente restaurado, transformado oficialmente no Espaço São José Liberto, um complexo cultural e criativo.

Hoje, o local abriga a Capela São José, a Casa do Artesão, o Museu de Gemas do Pará, o Memorial da Cela, o Anfiteatro Coliseu das Artes e o Jardim da Liberdade. Ainda assim, para muitos, a energia do passado permanece.
“O espaço hoje é bonito, mas a história nem tanto. Quem é sensitivo sente. Por trás desse lugar reconstruído existe uma história sombria, cheia de dor, sofrimento e angústia”, diz a visitante Maria de Fátima, de 65 anos.
Quem trabalha ali tenta transformar a memória em cuidado. Luzia Maia, atendente do espaço, conta que sua relação com o São José Liberto é também pessoal. “Quando entrei aqui pela primeira vez, senti que a energia já não era mais a mesma de quando era presídio. Hoje é um espaço de arte, criação e geração de renda. Isso dá outro significado.”
Ela se emociona ao lembrar de turistas que retornam ao local carregando histórias familiares ligadas ao antigo presídio. “Já atendi pessoas que tiveram parentes presos aqui. Elas voltam emocionadas, agora para comprar artesanato, para conhecer o espaço transformado. A gente se emociona junto.”
Assista:
Para Leila Salame, lapidária que atua no local há quase 30 anos, a transformação representa afeto e pertencimento. “Pra mim, isso aqui é amor. O que ficou no passado ficou. Hoje as pessoas vêm, gostam, elogiam, se sentem bem. Eu me sinto bem aqui.”
Confira a entrevista:
O Espaço São José Liberto não apaga o que foi vivido entre suas paredes. O lugar segue como um símbolo de que a história (por mais dura que seja) pode ser transformada, mas nunca esquecida.

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