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FRAGMENTO DE MATA NATIVA

Bosque Rodrigues Alves preserva relação de Belém com a floresta

No aniversário de 410 anos de Belém, o Bosque Rodrigues Alves surge como elo entre passado, presente e floresta.

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Imagem ilustrativa da notícia Bosque Rodrigues Alves preserva relação de Belém com a floresta camera Irene Almeida/Diário do Pará

No mês em que Belém completa 410 anos, celebrar a cidade é também reconhecer os espaços que ajudaram a moldar sua identidade ao longo do tempo. Entre avenidas movimentadas e o ritmo acelerado da capital amazônica, o Bosque Rodrigues Alves se impõe como um território de memória, natureza e pertencimento. Mais do que um ponto turístico, o jardim zoobotânico sintetiza a relação histórica de Belém com a floresta e reafirma, em pleno aniversário da cidade, a importância de preservar o passado para projetar o futuro.

Criado há mais de um século, o Bosque Rodrigues Alves está localizado na Avenida Almirante Barroso e ocupa uma área de 15 hectares no coração urbano de Belém. Desde sua origem, o espaço foi pensado como um fragmento da floresta amazônica preservado dentro da cidade, mantendo características naturais mesmo diante do crescimento acelerado do entorno. Ao longo de 142 anos, o bosque atravessou diferentes fases da história da capital paraense, consolidando-se como um dos seus principais cartões-postais.

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Administrado atualmente pela Prefeitura de Belém, por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, o Bosque Rodrigues Alves recebe, em média, cerca de 20 mil visitantes por mês. Sua estrutura mantém a lógica original de priorizar a vegetação: mais de 80% da área é composta por mata preservada, enquanto apenas 20% são destinados a caminhos e áreas de circulação. Essa configuração ajuda a conservar o microclima e a sensação de imersão na floresta, mesmo em uma das regiões mais urbanizadas da cidade.

Ao longo das décadas, o espaço passou por adaptações e revitalizações, mas sem perder sua essência histórica. O bosque abriga mais de 10 mil árvores distribuídas em mais de 300 espécies, muitas delas nativas da Amazônia. Além da vegetação, o jardim consolidou-se como referência na manutenção de animais silvestres, reunindo atualmente 435 indivíduos de 29 espécies em cativeiro, além de outras espécies que vivem em liberdade ou semiliberdade na área de mata.

Bosque Rodrigues Alves preserva relação de Belém com a floresta
📷 |Ascom/Prefeitura de Belém

A trajetória histórica do Bosque Rodrigues Alves está diretamente ligada ao processo de modernização urbana vivido por Belém no final do século XIX, período marcado pelo auge econômico da borracha e pela influência da chamada Belle Époque amazônica. Inaugurado em 25 de agosto de 1883 como parque municipal, o espaço surgiu em um contexto em que a criação de áreas verdes simbolizava civilidade, progresso e uma nova forma de pensar a cidade, mesmo em plena Amazônia.

Memória afetiva belenense

O Bosque Rodrigues Alves é reconhecido como um dos mais importantes patrimônios naturais e históricos de Belém. Sua relevância ultrapassa a função ambiental e se conecta diretamente à memória da cidade, especialmente por preservar elementos arquitetônicos e paisagísticos do período áureo da borracha. Um dos principais símbolos desse passado é a Fonte dos Intendentes, construída em 1906, que reflete a influência europeia presente em Belém no início do século XX.

Recentemente revitalizada, a Fonte dos Intendentes abriga bustos em homenagem a Augusto Montenegro e Antônio Lemos, figuras centrais da história política e urbana da capital paraense. O local, que já sediou encontros e decisões administrativas importantes, hoje funciona como um marco histórico dentro do bosque, reforçando o valor cultural do espaço e sua ligação direta com a construção da Belém moderna.

Além do patrimônio histórico, o bosque exerce um papel fundamental na educação ambiental e na conservação da biodiversidade amazônica. O espaço desenvolve ações de resgate de animais silvestres, cultivo de sementes e produção de mudas utilizadas na arborização urbana, contribuindo para a preservação das espécies e para a conscientização da população. Ao reunir lazer, turismo, ciência e memória, o Bosque Rodrigues Alves se afirma, aos 410 anos de Belém, como um símbolo vivo da cidade que cresce sem romper completamente seus laços com a floresta.

Para o historiador Michel Pinho, o Bosque Rodrigues Alves foi concebido a partir de referências europeias, especialmente no modo como as cidades do Velho Continente integravam natureza e urbanismo. Segundo ele, o espaço materializa a ideia de estruturar a cidade a partir da valorização do meio ambiente. “O bosque guarda essas características de pensar as cidades europeias, com a definição de um espaço onde se louve a natureza”, explica. Essa importância institucional é evidenciada pelo fato de o local ter sediado, no início do século XX, encontros de intendentes, equivalentes aos prefeitos da época, reforçando seu papel político e simbólico.

Inspirado no Bois de Boulogne, tradicional parque parisiense, o Bosque Rodrigues Alves tornou-se um ícone da modernização urbana em Belém. De acordo com Michel Pinho, essa inspiração dialoga diretamente com a noção de civilização que orientava o pensamento das elites urbanas no final do século XIX e início do século XX.

“A ideia de amplos espaços, com circulação de ar e presença da natureza, se coloca de maneira fundamental”, afirma. Essa lógica também se refletia na arquitetura da cidade, marcada por influências italianas, romanas, francesas e inglesas, visíveis tanto no entorno urbano quanto nas estruturas presentes no próprio bosque.

Professor e historiador Michel Pinho.
📷 Professor e historiador Michel Pinho. |Arquivo/Irene Almeida/Diário do Pará

A localização do Bosque Rodrigues Alves, na região conhecida como Marco da Légua, também é estratégica para compreender sua relevância histórica. Segundo o historiador, a criação do parque está diretamente ligada ao processo de expansão da cidade impulsionado pela estrada de ferro Belém–Bragança. A partir desse eixo, Belém passou a se expandir com um novo padrão de arruamento e formação de quadras, bastante distinto daquele observado nos bairros mais antigos, como Cidade Velha, Campina e Reduto. O bosque, nesse contexto, tornou-se um marco dessa nova etapa de organização territorial.

Ao longo dos anos, o Bosque Rodrigues Alves passou por reformas e incorporou elementos arquitetônicos e paisagísticos que reforçam seu valor como patrimônio cultural. Estruturas como o Chalé de Ferro, a Fonte dos Intendentes e outros monumentos do século XIX ajudam a contar a história da ocupação urbana e da administração da cidade. Para Michel Pinho, o espaço sempre teve intensa vida social e diálogo direto com a formação simbólica de Belém. “Tudo o que vem depois confirma aquele espaço do ponto de vista histórico”, destaca.

Bosque Rodrigues Alves preserva relação de Belém com a floresta
📷 |Reprodução/Nostalgia Belém

Desde 2002, o reconhecimento do Bosque Rodrigues Alves como integrante da Rede Brasileira de Jardins Botânicos e sua titulação como Jardim Botânico da Amazônia ampliaram ainda mais sua importância. Para o historiador, essa condição fortalece não apenas a preservação ambiental, mas também a proteção do patrimônio histórico edificado.

“É a única quadra, em toda a região do Marco e de São Brás, que permanece inalterada desde o início do século XX”, observa. Assim, o bosque se mantém como um testemunho vivo da história urbana de Belém, preservando, em meio à cidade em transformação, a memória de sua relação com a natureza e com o próprio processo de construção da capital paraense.

Fragmento de floresta amazônica no centro da cidade

Os depoimentos de quem convive diariamente com o Bosque Rodrigues Alves revelam que o espaço vai muito além de um jardim zoobotânico. Para o povo belenense, o bosque é parte da memória afetiva da cidade, influencia a dinâmica urbana e preserva, em plena área central, a relação histórica de Belém com a floresta amazônica. Ao longo de mais de um século, o local se consolidou como um território onde natureza, trabalho, lazer e identidade cultural se entrelaçam.

Permissionária de um quiosque nos arredores do bosque, na Avenida Rômulo Maiorana, Marta Mariana tem uma trajetória que se confunde com a história recente do entorno. Há mais de 40 anos trabalhando na área, ela lembra que a presença do Bosque Rodrigues Alves sempre foi determinante para a atividade comercial e para a qualidade de vida dos trabalhadores. “A gente já está aqui há mais de 40 anos. Trabalhar perto do bosque sempre foi muito bom pra gente, porque é um bosque histórico, que representa a natureza, o ar puro”, relata. Segundo ela, a vegetação abundante garante um clima mais ameno, criando uma sensação constante de frescor e leveza. “Aqui a gente não sofre tanto com o calor. Tem sempre esse vento, essa frieza, essa leveza”, diz.

Marta Mariana trabalha ao redor do Bosque há mais de 40 anos.
📷 Marta Mariana trabalha ao redor do Bosque há mais de 40 anos. |Foto: Lucas Quirino/DOL

Marta também destaca o movimento intenso de pessoas que utilizam o espaço diariamente, sobretudo para a prática de atividades físicas. De acordo com ela, desde as quatro horas da manhã já é possível ver moradores caminhando, correndo e utilizando o percurso ao redor do bosque.

“A gente recebe muitas pessoas que participam de corridas, que caminham, que vêm fazer o percurso. E a gente fica feliz de estar participando de tudo isso”, afirma, ressaltando que o bosque se tornou um ponto de encontro para diferentes gerações e perfis da população.

Amor à primeira vista

A importância do Bosque Rodrigues Alves também é percebida por quem visita Belém pela primeira vez. Natural de Mossoró, no Rio Grande do Norte, Kelly Andrade conheceu o local acompanhada do marido, o paraense Matheus Silva. Para ela, o espaço funciona como uma porta de entrada para a compreensão da identidade amazônica.

“É muito importante a gente conhecer um pouco da fauna e da flora, que são muito diferentes de onde eu vim. Isso remete à Amazônia dentro da capital, inserida no espaço urbano”, observa. Kelly destaca ainda o valor cultural do bosque, especialmente para quem vem de fora do estado. “É muito rico, tanto para a cultura do Pará quanto para quem visita Belém e tem acesso a essas outras culturas”, completa.

Kelly Andrade e Matheus Silva
📷 Kelly Andrade e Matheus Silva |Foto: Lucas Quirino/DOL

Morador de Belém e permissionário da região, Agnaldo Sérgio Silva de Souza enxerga o Bosque Rodrigues Alves como um patrimônio centenário que simboliza a própria história da cidade. Para ele, o espaço representa a “floresta amazônica dentro de Belém” e deve ser preservado para as futuras gerações.

“Esse bosque é muito antigo, é centenário. É uma relíquia. A gente tem que preservar o lazer, a cultura, o ambiente e os animais que estão aqui”, afirma. Agnaldo associa a importância do bosque às raízes culturais do povo paraense, marcadas pela influência indígena e pela relação direta com a natureza.

O vendedor de coco Agnaldo de Souza reforça a importância de preservar a fauna e flora do Bosque.
📷 O vendedor de coco Agnaldo de Souza reforça a importância de preservar a fauna e flora do Bosque. |Foto: Lucas Quirino/DOL

Na avaliação de Agnaldo, preservar o Bosque Rodrigues Alves é também preservar a identidade do Pará. “A nossa cultura vem da raiz dos povos indígenas. O paraense gosta de preservar a cultura, preservar o que é nosso”, diz.Ele observa que, mesmo com o crescimento e a expansão urbana de Belém, é fundamental manter espaços que garantam qualidade de vida e conexão com a floresta.

Para o permissionário, o bosque se insere em um contexto mais amplo de valorização ambiental, reforçado por debates globais sobre clima e sustentabilidade. “O foco no meio ambiente, no clima e na prática amazônica é muito importante, e o bosque entra totalmente nisso”, ressalta.

Bem-estar em meio à natureza

O papel do Bosque Rodrigues Alves na promoção da saúde e do bem-estar também é destacado pelo educador físico Célio Lobato, que há cerca de dez anos realiza treinos no entorno da área. Segundo ele, o espaço se tornou referência para a prática esportiva em Belém.

“Nós treinamos aqui há 10 anos. É um espaço maravilhoso, arborizado, com uma vegetação centenária”, explica. O percurso de aproximadamente 1.600 metros ao redor do bosque, segundo o professor, é um dos principais atrativos para corredores e praticantes de caminhada.

Educador físico Célio Lobato realiza aulas aos arredores do Bosque há 10 anos.
📷 Educador físico Célio Lobato realiza aulas aos arredores do Bosque há 10 anos. |Foto: Lucas Quirino/DOL

Além do entorno, Célio destaca que algumas atividades também são realizadas dentro do próprio bosque, o que aumenta o contato direto com o verde. “Às vezes a gente faz o treino dentro do bosque, e a turma gosta muito. Esse horário da manhã já é bem agradável”, relata. Para ele, a proximidade da natureza, mesmo no centro da cidade, é um diferencial que atrai pessoas de diferentes idades, inclusive idosos. “Esse clima da manhã cedo é muito importante, melhora o corpo, melhora a saúde”, afirma.

Na avaliação do educador físico, o Bosque Rodrigues Alves é um espaço democrático, que acolhe trabalhadores, esportistas, moradores e turistas. “Treinar aqui é o chamego dos alunos, por causa do verde, dessa proximidade da natureza dentro da cidade”, diz. Ao relacionar o espaço às comemorações do aniversário de Belém, Célio reforça o valor simbólico do bosque. “Nada mais justo do que homenagear o Bosque Rodrigues Alves, esse ponto maravilhoso no centro da cidade, onde todos podem usufruir dos benefícios da natureza”, conclui.

Bosque Rodrigues Alves é um pedaço da floresta amazônica no centro de Belém.
📷 Bosque Rodrigues Alves é um pedaço da floresta amazônica no centro de Belém. |Lucas Quirino/DOL

Assim, por meio das vozes de quem trabalha, visita e utiliza o espaço diariamente, o Bosque Rodrigues Alves se reafirma como um patrimônio vivo de Belém. Mais do que um fragmento de floresta preservada, o local representa história, cultura, saúde e identidade, mantendo viva a relação do povo belenense com a Amazônia em meio à paisagem urbana.

Cuidando para preservar a história da cidade

A Prefeitura de Belém, por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma), reforça que o Bosque Rodrigues Alves é um dos pilares históricos, ambientais e culturais da capital paraense. Para a gestão municipal, o espaço não é apenas um parque urbano, mas um marco da relação entre Belém e a floresta amazônica desde o final do século XIX, período em que a cidade buscava modernizar sua paisagem sem romper com sua identidade natural.

Segundo a Semma, o Bosque Rodrigues Alves está diretamente ligado ao processo de formação urbana de Belém e à memória da região conhecida como Marco da Légua, antigo limite territorial da expansão da cidade. A manutenção da área como espaço verde protegido permitiu que essa referência histórica atravessasse gerações, resistindo às transformações urbanas do entorno. Caminhar pelo bosque, destaca a secretaria, é revisitar um momento em que a floresta era elemento estruturante da organização urbana e da vida cotidiana da capital.

A administração municipal avalia que essa dimensão histórica é percebida pelos visitantes na própria experiência oferecida pelo espaço. A presença de árvores centenárias, lagos, caminhos sombreados e elementos arquitetônicos históricos, aliados a ações educativas e sinalizações interpretativas, reforça a ideia de que o Bosque Rodrigues Alves é um patrimônio cultural vivo. Para a Semma, o local convida não apenas ao lazer, mas à contemplação, ao aprendizado e ao respeito à memória coletiva da cidade.

Bosque Rodrigues Alves preserva relação de Belém com a floresta
📷 |Ascom/Prefeitura de Belém

Ao longo das décadas, o entorno do bosque passou por profundas transformações, marcadas pelo aumento do fluxo de veículos, pela verticalização e pelo adensamento populacional. De acordo com a secretaria, essas mudanças impuseram desafios ambientais importantes, como pressão sobre os recursos naturais e alterações no microclima. Por outro lado, evidenciaram ainda mais a função estratégica do bosque como refúgio climático, área de respiro urbano e espaço essencial para a qualidade de vida da população belenense.

No campo social, a Semma destaca o papel do Bosque Rodrigues Alves como instrumento de educação ambiental, especialmente voltado para crianças e jovens. Por meio de visitas guiadas, projetos educativos, ações em parceria com escolas e atividades interativas, o espaço funciona como um verdadeiro laboratório a céu aberto. Essas iniciativas aproximam a população da biodiversidade amazônica e estimulam a formação de uma consciência ambiental desde cedo, fortalecendo o cuidado com os ecossistemas urbanos.

A secretaria também ressalta que o bosque mantém parcerias com universidades, instituições de ensino, órgãos ambientais e projetos socioculturais, voltadas tanto à preservação ambiental quanto à valorização de sua história. Essas ações, segundo a Semma, fortalecem o vínculo com a comunidade, promovem o sentimento de pertencimento e reforçam a responsabilidade coletiva pela proteção do patrimônio.

Sustentabilidade urbana

Em relação ao futuro, a Prefeitura de Belém enxerga o Bosque Rodrigues Alves como um elemento estratégico em uma cidade cada vez mais urbanizada. A gestão aponta o espaço como fundamental para a sustentabilidade urbana, a adaptação às mudanças climáticas, a conservação da biodiversidade e o bem-estar social. Projetos de revitalização de estruturas históricas, modernização dos recintos de fauna, ampliação das ações educativas, melhorias na acessibilidade e práticas de manejo ambiental sustentável estão entre as iniciativas em andamento para garantir a preservação do local para as próximas gerações.

Para a Semma, a fauna e a flora presentes no bosque ajudam a contar a história ambiental da Amazônia dentro da cidade. Árvores nativas centenárias, como samaúmas e andirobas, além de espécies de aves, répteis e mamíferos amazônicos, simbolizam a biodiversidade que resiste e se adapta ao ambiente urbano. Ao permanecer como uma grande massa verde em meio ao crescimento da capital, o Bosque Rodrigues Alves, segundo a Prefeitura, transmite uma mensagem clara: é possível crescer sem apagar a história e sem destruir a natureza, mantendo cidade e floresta em equilíbrio.

Bosque Rodrigues Alves preserva relação de Belém com a floresta
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