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Boteco, esquina e memória além do cartão-postal: uma Belém para conhecer a pé

Em bares, padarias e esquinas, moradores constroem laços que transformam o cotidiano em memória

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Imagem ilustrativa da notícia Boteco, esquina e memória além do cartão-postal: uma Belém para conhecer a pé camera A Panificadora A Bijou é palco de muita resenha, histórias, cerveja e leitão. E ela não está nos destinos turísticos de Belém | Cristiano Pantoja/DOL

Belém completou 410 anos. Uma cidade que cresceu entre o final do século XVIII e o início do XIX, moldada por ciclos econômicos, pela força da Amazônia e por uma cultura que mistura cheiros, sabores, sons e afetos. É a capital da Amazônia que aparece nos livros, nos guias turísticos e nas reportagens especiais. Mas há uma Belém que não costuma estampar capas nem figurar nos cartões-postais.

Essa Belém existe nos becos, nas praças discretas, nos bares de esquina, nas padarias que viram ponto de encontro, nos cafés onde o tempo parece desacelerar. É ali que amizades se formam, histórias se repetem, memórias são criadas e recriadas semana após semana. Uma cidade que não se visita: se vive.

Entre uma cerveja gelada e um petisco simples, entre conversas sobre política, futebol ou sobre a própria vida, Belém vai se afirmando como espaço de convivência.

Não estava no roteiro

Na semana do aniversário da cidade, as amigas Ana Carolina e Camila saíram de Marituba com um plano bem definido: assistir ao filme O Agente Secreto, produção brasileira de Kleber Mendonça Filho, premiada no Globo de Ouro, com Wagner Moura também reconhecido na cerimônia. O destino era o Cine Líbero Luxardo, no Centur. O plano, porém, não deu certo. Chegaram tarde, e os ingressos já estavam esgotados.

O que poderia ser frustração virou descoberta.

Amigas de infância, elas decidiram não voltar para casa. Era sexta-feira. “A gente não ia fazer uma viagem dessas à toa”, contam. Caminhando sem pressa, entraram no Bar do Horto.

“Nasci e cresci em Belém, mas atualmente moro em Marituba. Mesmo assim, passo a maior parte do meu tempo em Belém, porque é onde trabalho e estudo”, conta Ana Carolina. Ela diz que frequenta o bar de forma esporádica há cerca de três anos. “Costumo ir mais a outros bares e espaços culturais. Um lugar onde estou sempre é a Feira do Açaí, principalmente por causa do carimbó e do samba.”

Boteco, esquina e memória além do cartão-postal: uma Belém para conhecer a pé
📷 |Cristiano Pantoja/DOL

Para Ana, esses espaços quase nunca entram no circuito turístico tradicional. “Quando se fala em pontos turísticos de Belém, esse tipo de lugar geralmente não aparece. Mas são eles que fazem parte do cotidiano de quem vive a cidade. O que me chama atenção aqui é o clima. Não é privacidade, é liberdade. Dá pra conversar, estar com qualquer pessoa e se sentir à vontade. Não é elitizado, é simples, acessível, acolhedor.”

Camila, que trabalha com a venda de bolos e comidas e estava ali pela primeira vez, sentiu algo parecido. “Normalmente, circulo mais pelo centro de Belém. Hoje a ideia era ir para lá, mas acabamos vindo para cá por sugestão dela”, diz. “Gostei muito do ambiente. Por me considerar uma pessoa mais alternativa, prefiro espaços onde me reconheço nas pessoas. Aqui eu me sinto mais segura, mais próxima. Dá uma sensação de pertencimento.”

O bar não estava no roteiro, mas virou parte da história delas com a cidade.

Para a historiadora Anna Coelho, professora da Universidade Federal do Pará (UFPA), esse modo de viver Belém não é algo recente, mas estrutural. “Ao longo do tempo, Belém sempre foi narrada não apenas por seus grandes marcos, mas pelas experiências cotidianas. Escritores, poetas e intelectuais ajudaram a construir essa memória sensível da cidade, feita de sons, cheiros, cores e encontros”, explica.

Em uma de suas crônicas, a escritora Eneida de Moraes descreveu o tradicional banho de cheiro das festas de São João, enquanto o poeta Manuel Bandeira eternizou as cores das velas dos barcos na Doca do Ver-o-Peso. Já nas décadas de 1930 e 1940, o grupo modernista conhecido como Academia do Peixe-Frito se reunia informalmente não apenas no Ver-o-Peso, mas também em bares como o Carioca e o Flor de Belém, no Largo das Mercês. “Esses intelectuais narravam a cidade de forma intimista e sinestésica, associando sabores, perfumes e paisagens à experiência urbana”, destaca a professora.

Anna Coelho cita Eneida de Moraes e Manuel Bandeira, que narravam locais e práticas em Belém
📷 Anna Coelho cita Eneida de Moraes e Manuel Bandeira, que narravam locais e práticas em Belém |Reprodução

Sextas-feiras desde 1988

No Reduto, outro tipo de encontro atravessa décadas. Desde 1988, todas as sextas-feiras à noite, Augusto César, hoje com 65 anos, se reúne com amigos na Panificadora e Confeitaria A Bijou. O motivo é simples e profundo: estar junto.

“Sou aposentado, funcionário público. Vim morar aqui em 1988, quando me casei, e frequento esse lugar desde então”, conta. “O que me traz aqui até hoje são as amizades. Existe um clima de confraria. A gente conversa, discute política, ri, relembra histórias.”

Boteco, esquina e memória além do cartão-postal: uma Belém para conhecer a pé
📷 |Cristiano Pantoja/DOL

Ele faz questão de destacar o ambiente plural — mesmo com divergências. “Todo mundo aqui é de esquerda, menos um baixinho atarracado”, brinca. “Mas ele nunca foi colocado de lado. Aqui é assim.”

O leitão e a cerveja com preço acessível ajudam a manter o ritual. “A maioria mora aqui no bairro. Eu moro perto, dá até pra ir a pé. Mesmo tendo me mudado, continuo muito ligado a esse lugar.”

Boteco, esquina e memória além do cartão-postal: uma Belém para conhecer a pé
📷 |Cristiano Pantoja/DOL

Entre as memórias, Augusto lembra com carinho de Robertinho, dentista aposentado e figura querida do grupo. “Era como um tio pra todo mundo. Gostava de conversar, principalmente sobre política. Ele faleceu em 2016, mas a presença dele ainda é sentida.”

A Bijou, que por décadas foi um ponto quase exclusivo dos moradores do entorno, ganhou visibilidade internacional durante a COP30, quando estrangeiros passaram a ocupar as mesas. Para quem está ali há mais de 30 anos, no entanto, o sentido permanece o mesmo: encontro.

O quintal do bairro

Armando Ricardo conhece a Bijou desde criança. “Tenho 47 anos, sou proprietário de uma escola de idiomas e frequento a Bijou há cerca de 40 anos”, conta. “Comecei a vir com meu pai. Moro no Reduto desde pequeno. Esse lugar sempre foi como o quintal de casa.”

Para ele, a padaria extrapola o bairro. “É o xodó do Reduto, mas não só. Aqui todo mundo é bem-vindo: quem gosta de um bom papo, de uma cerveja gelada e do leitão, que pra mim é um dos melhores da cidade.”

Ricardo (de blusa preta e bermuda) sempre se reúne com os amigos na A Bijou.
📷 Ricardo (de blusa preta e bermuda) sempre se reúne com os amigos na A Bijou. |Cristiano Pantoja/DOL

As histórias se acumulam. Uma delas envolve futebol. “Sou Paysandu, meu amigo Luiz Azevedo é Remo. Em uma queda do Paysandu pra Série C, eu estava aqui com ele. Ele foi buscar foguetes pra comemorar. E fui eu quem acendeu os rojões”, ri. “Isso resume bem o espírito daqui. Cabe todo mundo.”

Para Anna Coelho, lugares como a Bijou carregam forte dimensão simbólica. “Funcionando em prédios antigos, esses espaços se inscrevem na nostalgia das décadas de 1980 e 1990 e hoje ganham nova vida nas redes sociais, onde a memória afetiva é constantemente compartilhada.”

"É o dono que faz o ponto”

No bairro Batista Campos, o Bar do Horto também foge dos guias turísticos, mas não da memória afetiva da cidade. Há 18 anos, Germano da Silva comanda o espaço ao lado da esposa, Jandira. “Muita gente dizia que aqui não ia dar certo. À noite era fraco, pouca circulação”, lembra. “Mas meu pai sempre dizia: é o dono que faz o ponto.”

E fez.

Boteco, esquina e memória além do cartão-postal: uma Belém para conhecer a pé
📷 |Cristiano Pantoja/DOL

“Já conversei hoje com uma amiga que morou em Fortaleza. Voltou a Belém e veio direto aqui. Isso emociona”, conta. “A gente vende salgado, cerveja, conversa. É simples, mas é firme.”

Tudo o que Germano construiu veio dali. “A formação das minhas filhas, minha família, tudo nasceu desse trabalho.”

Alana Costa frequenta o bar há seis anos. “O que me chama atenção é o ambiente. O atendimento, a comida, a cerveja gelada. Moro perto, então facilita. Venho uma ou duas vezes por semana”, diz.

Já Gina Siqueira, 67, servidora pública federal, acompanha o lugar desde o início. “Desde 2008. Saía do trabalho e parava aqui. Às vezes ficava só conversando ali fora. É costume. É hábito.”

A leitura de Anna Coelho dialoga com o pensamento do historiador francês Michel de Certeau, que diferencia o “voyeur” — aquele que observa a cidade de forma distante e teórica — do “caminhante”, que constrói o espaço a partir da vivência. “É no caminhar cotidiano que as pessoas produzem sentidos para a cidade. São essas ‘artes do fazer’, como diria Certeau, que transformam lugares comuns em espaços carregados de memória”, afirma.

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