Ainda era cedo quando Monique começou a organizar as primeiras flores sobre a bancada da floricultura. Entre rosas, margaridas e flores do campo, o cheiro adocicado que hoje ocupa o espaço parece distante da realidade da menina que, anos atrás, observava flores apenas com admiração, sem imaginar que um dia reconstruiria a própria vida através delas.
Natural de Oeiras do Pará, no interior paraense, Monique Elma, hoje com 35 anos, chegou a Belém ainda criança, aos seis anos de idade, acompanhando os pais agricultores, que deixaram o interior em busca de melhores oportunidades para os filhos. Cresceu em uma realidade simples, marcada pelo esforço da família e pelas dificuldades financeiras.
“Minha infância foi muito simples. Cresci vendo meus pais trabalharem duro, enfrentando muitas dificuldades, mas sempre ensinando valores como honestidade, coragem e trabalho”, relembra.
O encanto pelas flores nasceu cedo. A beleza, os aromas e as cores despertavam nela um fascínio silencioso que permaneceu mesmo diante das dificuldades da vida adulta. Aos 15 anos, quando se tornou mãe solo, precisou interromper os estudos e assumir responsabilidades ainda muito jovem. Depois de passar um período em outra cidade, decidiu retornar para Belém, determinada a construir uma vida melhor para o filho.
Antes de empreender, trabalhou em diferentes funções: academia, restaurante, lanchonete, serviços domésticos, como babá, promoter e vendendo roupas. Tudo o que surgia se transformava em oportunidade de sustento.
Eu fazia tudo o que aparecia porque precisava criar meu filho e construir uma vida melhor para nós dois.
Monique Elma,Mas foi ao trabalhar em uma floricultura que percebeu que aquele universo fazia sentido para ela. Pouco tempo depois, a loja onde trabalhava fechou as portas. Foi naquele momento que surgiu a decisão que mudaria sua trajetória. “Mesmo sem entender exatamente o motivo, eu sentia que precisava continuar trabalhando com flores", recorda.
Sem capital para investir, decidiu fazer um empréstimo e abrir a primeira floricultura. O sonho, porém, encontrou rapidamente a falta de experiência. Ela ainda desconhecia detalhes fundamentais do ramo, como a necessidade de refrigeração adequada para conservar flores de corte no clima quente e úmido de Belém.
O espaço alugado não suportou as altas temperaturas e, em poucos dias, praticamente todo o estoque foi perdido. Em apenas dois meses, a empresa faliu. “Foi um dos momentos mais difíceis da minha vida. Cheguei a vender televisão, cama e eletrodomésticos para conseguir pagar aluguel e sobreviver", relembra ela. Veja o vídeo:
Mesmo diante das dificuldades, abandonar as flores nunca pareceu definitivo. Depois de um tempo, passou a vender arranjos em casa e, aos poucos, conseguiu se reorganizar financeiramente. Mais tarde, abriu um quiosque em um shopping da capital paraense, etapa que considera uma das mais importantes da própria trajetória.
Mas a pandemia trouxe novos desafios, e o espaço precisou ser fechado. Mais uma vez, foi necessário recomeçar. Ao longo da trajetória, a vontade de proporcionar uma vida melhor ao filho e o amor pelas flores permaneceram como força para continuar.
As flores deixaram de ser apenas um trabalho, elas passaram a representar a minha história.
Monique Elma,Hoje, a Flor e Flor, localizada em Belém, se tornou a principal fonte de renda da família e gera empregos para oito colaboradores. A trajetória de Monique representa a realidade de milhares de pequenos empreendedores paraenses que iniciam um negócio por necessidade e encontram no empreendedorismo uma possibilidade de transformação social e financeira. Assista ao vídeo:
Pequenos negócios impulsionam empregos e economia no Pará
Segundo dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), analisados pelo Sebrae/PA, os pequenos negócios representam 97% das empresas no Pará e são responsáveis por 94% dos empregos formais gerados no estado em 2025.
Para o gerente da Unidade de Negócios de Impacto do Sebrae/PA, Igo Silva, os pequenos negócios exercem papel essencial no desenvolvimento econômico e social das comunidades.
“São os pequenos negócios que movimentam a economia local, geram empregos, criam oportunidades de renda e contribuem para o desenvolvimento dos municípios. Muitas vezes, são as micro e pequenas empresas que mantêm a atividade econômica em bairros, distritos e cidades do interior”, destaca.
Igo também explica que muitos empreendedores começam por necessidade, mas conseguem crescer quando transformam a atividade em um negócio estruturado.
“A grande diferença está na capacidade de transformar uma atividade que surgiu por necessidade em um negócio estruturado. Isso passa pela formalização, planejamento, controle financeiro, conhecimento do cliente e busca constante por capacitação”, afirma.
Da necessidade à independência financeira: o papel do empreendedorismo na transformação de vidas
Assim como Monique encontrou nas flores uma forma de reconstruir a própria vida, a microempreendedora Fatiane Gaia descobriu na área da beleza um caminho possível entre a necessidade e a independência financeira.
Natural da comunidade de Pindobal Mirim, nas proximidades de Cametá, no nordeste paraense, Fatiane cresceu em uma família de agricultores e assumiu responsabilidades muito cedo. “Por volta dos oito anos de idade, saí de casa para trabalhar na residência de outras pessoas. Permaneci assim até os meus 15 anos", recorda.
A mudança para Belém marcou o início de uma nova etapa. Sem imaginar que encontraria justamente na beleza o caminho que transformaria sua realidade, chegou à capital paraense ainda adolescente. “Eu nunca tinha entrado em um salão de beleza. Nem bonecas eu tinha para brincar ou cortar cabelo", conta ela.
Sem experiência e precisando se manter na capital, aceitou trabalhar como auxiliar em um salão de beleza. Foi ali que começou a construir uma nova trajetória. Veja o vídeo:
Com poucos equipamentos e muita coragem, improvisou o primeiro espaço de atendimento em um quarto da própria casa. Havia apenas um espelho pequeno, uma cadeira, um lavatório, uma escova e um secador. O espaço simples, montado dentro de casa, foi o início de um negócio que cresceria junto com a própria história da empreendedora.
Tudo começou por necessidade, mas com o tempo me apaixonei pela profissão. Trabalhar com beleza me permite transformar vidas.
Fatiane Gaia,Logo na primeira semana de funcionamento, justamente em um período de grande movimento de final de ano, Fatiane adoeceu e acreditou que o sonho poderia terminar antes mesmo de começar. Apesar das dificuldades, continuou.
Com o passar dos anos, o pequeno espaço cresceu. O que começou em um quarto avançou para a sala da residência da família e, mais tarde, para um imóvel maior e estruturado em Ananindeua.
Hoje, Fatiane lidera uma equipe formada por nove mulheres, muitas delas vindas do interior do Pará em busca de oportunidades semelhantes às que ela também procurou um dia. “Sempre digo para elas que, embora trabalhem dentro do meu espaço, são empreendedoras das próprias carreiras”, destaca ela. Assista ao vídeo:
Empreender para mudar a própria história
Além da profissão, as empreendedoras precisaram aprender na prática sobre administração, liderança, finanças e gestão de equipe. Segundo Igo Silva, desafios relacionados à gestão financeira, acesso ao crédito, logística e adaptação às novas tecnologias ainda fazem parte da realidade dos pequenos negócios no estado.
“Em um estado com dimensões continentais como o Pará, também existem questões relacionadas à logística e ao acesso à informação qualificada. O Sebrae/PA atua justamente para transformar esses desafios em oportunidades, oferecendo capacitações, consultorias e incentivo à transformação digital”, explica.
Atualmente, o Sebrae/PA está presente nos 144 municípios paraenses, por meio das Salas do Empreendedor e das agências regionais de atendimento.
Ao olhar para trás, Fatiane reconhece a distância entre a menina que saiu do interior para trabalhar em casas de família e a empresária que hoje lidera um negócio consolidado. “Muitas pessoas nem acreditam quando conhecem minha história. Empreender é difícil, exige coragem todos os dias, mas também é apaixonante", afirma ela.
Entre flores, espelhos, secadores e arranjos, Monique e Fatiane construíram mais do que empresas. Transformaram trabalho em autonomia, dificuldades em oportunidade e pequenos espaços improvisados em negócios capazes de gerar renda, movimentar a economia local e abrir caminhos para outras mulheres no Pará.
Em comum, carregam a mesma certeza: empreender nunca foi apenas sobre vender produtos ou serviços. Foi sobre reconstruir a própria vida.
Reportagem: Mayra Monteiro
Edição: Andressa Ferreira
Multimídia: Emerson Coe e Cristiano Pantoja
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