A seleção brasileira, tricampeã em 1970, no México, título até então inédito em Copa do Mundo, foi montada a quatro mãos. A opinião quase que unânime entre os torcedores, cronistas esportivos e profissionais do futebol, em atividade ou não, é de que o técnico João Saldanha, mesmo tendo dirigido a equipe apenas na fase eliminatória do torneio, teve participação decisiva para a conquista da taça Jules Rimet. Já o treinador Mário Jorge Lobo Zagallo, que esteve à frente do escrete no Mundial, com a troca de algumas peças e o novo sistema tático que implantou, deixou o time à feição do título.
Há quem afirme, como é o caso do experiente jornalista carioca João Máximo, 85 anos, presente no Mundial do México, que sem o complemento dos trabalhos dos treinadores a seleção brasileira não teria chegado à conquista da “Jules Rimet” e os 90 milhões de brasileiros (população da época) não teriam ido às ruas para festejar o tricampeonato. “Acho que o Brasil não teria ganhado a Copa de 70 sem o João Saldanha de 69 e não teria ganhado a Copa sem o Zagallo de 70 “, declarou Máximo em entrevista ao jornalista Sérgio du Bocage, no programa “No Álbum da Bola”, da TVBrasil.
A opinião de Máximo, compartilhada por tantos outros brasileiros, chegou a gerar certa dose de insatisfação entre alguns partidários de Saldanha, de quem o jornalista era amigo, tendo inclusive o levado para a redação do extinto Jornal do Brasil. “O João Saldanha de 69 foi maravilhoso. Ele deu caráter à seleção. Ele deu uma cara, personalidade. Nos fez acreditar na Seleção”, elogia.
Entre os paraenses, o tom da prosa é o mesmo, com muita gente do meio esportivo, do simples torcedor de arquibancada aos jornalistas especializados, tendo pensamento parecido com o exposto por Máximo. É o caso, por exemplo, do veterano radialista e colunista do Bola, Cláudio Guimarães, de 74 anos, 60 deles dedicados à cobertura esportiva. Ele destaca a importância de Saldanha na montagem da Seleção de 70, mas ressalta a personificação da equipe dada por Zagallo.
“O time das eliminatórias do Saldanha foi mudado em pelo menos 50% para a conquista da Copa pelo Zagallo”, aponta Guimarães. Já o calejado torcedor Altamirano Martins Filho, 73 anos, resume a importância do complemento do trabalho dos treinadores em uma frase: “O Zagallo terminou de moldar a obra iniciada por Saldanha e que precisava de alguns pequenos ajustes”, resume.
TÁTICAS: Saldanha e Zagallo tinham estilos distintos
A seleção brasileira do Tri disputou as eliminatórias sob o comando de João Saldanha, substituído por Zagallo, que trocou algumas peças do time e refez a maneira do grupo jogar.
A equipe comandada por Saldanha jogava no 4-3-3, tendo em sua defesa a formação com os dois zagueiros (quarto e central) e os dois laterais (direito e esquerdo). No meio de campo, o “João Sem Medo”, adotava dois volantes, ambos de contenção, e um meia de ligação. O setor era mais afeito a destruição das jogadas dos adversários do que do municiamento ao ataque.
Com Zagallo, o Brasil passou a jogar no 4-3-3. Os números do sistema de Zagallo enganam, visto que o time chegava, em determinados momentos das partidas a contar com até cinco atletas, em função do recuo de dois homens de frente, o que dava maior poder de fogo ao setor e, em outros momentos dos jogos, esse poder se transferia para o ataque que possuía um maior número de atletas. Sobre a estratégia tática do velho Lobo, Jairzinho colocou o dedo na ferida: “Ele (Zagallo) colocou cinco números 10 para jogar junto”, afirmou o Furacão da Copa.
Mistura que deu certo! Seleção de características híbridas
“time misto”
Um dos maiores historiadores do futebol brasileiro, o piauiense Severino Filho, 59 anos, consultor da revista Placar e autor de diversos livros, acredita que o time canarinho tricampeão no México foi uma espécie de “misto” envolvendo os trabalhos de Saldanha e Zagallo. Numa análise do dispositivo utilizado por cada um dos treinadores, Severino destaca a maneira como os ataques atuavam de maneiras diferentes. “O Saldanha usava dois pontas bem abertos, que eram o Jairzinho e o Edu”, recorda. “Já o Zagallo usou um terceiro homem de ataque, o Rivelino, que apoiava o meio de campo da equipe”, compara.
Severino, autor do livro “Curiosidades e Recordes do Futebol Brasileiro”, considerado pelo saudoso jornalista Armando Nogueira, “a bíblia do futebol’, vê na atuação de Rivelino, no Mundial de 70, algo semelhante ao que fez Zagallo nas Copas de 1958 e 60 como jogador. “O Rivelino era uma espécie de Zagallo dos Mundiais anteriores”, diz. A contribuição de Saldanha para a conquista do título, na avaliação do historiador, se deve mais a parte de ataque da equipe. “A equipe dele era bem mais ofensiva que a do Zagallo”, avalia, ressaltando, porém, a importância da estratégia tática do Velho Lobo para chegar ao título.
“O Zagallo usou um time menos ofensivo, mas isso entre aspas, pois quando o time tinha a posse da bola era tanto craque. No time do Zagallo só um jogador, o Everaldo (lateral-esquerdo), não tinha característica ofensiva”, ilustra. “O time teve o dedo do Saldanha, que formou a base do grupo, mas não se pode tirar o mérito do Zagallo com relação ao produto final, a arte final do time que jogou a Copa. Em resumo, a equipe produziu parte daquilo que foi construído por Saldanha se somando a parte que foi montada pelo Zagallo”, arremata.
TÉCNICO: OS MOTIVOS DA QUEDA DE SALDANHA
Passados quase 50 anos da conquista do tricampeonato mundial pelo Brasil, a saída do técnico João Saldanha do comando da Seleção, faltando 78 dias para a estreia do time na Copa do Mundo do México segue como uma das maiores polêmicas do futebol nacional. A substituição, no dia 17 de março de 1970, de João Sem Medo, como o batizou o escritor Nelson Rodrigues, por Mário Jorge Lobo Zagallo, não apresenta um motivo específico, como salienta o jornalista Humberto Peron, “e sim uma série de fatos e acontecimentos”.
Entre as supostas razões que teriam causado a queda do treinador, ainda segundo Peron, está o relacionamento pouco amistoso entre Saldanha e alguns membros da comissão técnica. Entre eles, o preparador físico Admildo Chirol e o médico Lídio Toledo, que chegou a declarar que o técnico sabia nada de preparação física. Para completar, Saldanha também costumava bater de frente com Antônio do Passo, dirigente do departamento de futebol da CBD. O fato da comissão técnica contar com vários militares também não agradava o treinador, um comunista de carteirinha em pleno regime militar comandado pelo general Emílio Garrastazu Médici.
Médici, que frequentava os estádios de futebol, com radinho de pilha ao pé do ouvido, como o tradicional torcedor, teria sugerido a convocação de Dario, o Dadá Maravilha, o que foi rechaçado por Saldanha. O treinador, ao ser aconselhado a convocar o atacante do Atlético-MG teria respondido: “O presidente escala o ministério dele, e eu escalo meu time.” A resposta malcriada do treinador teria sido a gota d’água para a sua substituição no cargo.
Não bastassem os atritos com membros da comissão técnica e a resposta ao presidente, Saldanha enfrentava críticas de treinadores e da imprensa ao seu trabalho. Irritado, com a situação, o treinador, conforme lembra Peron, chegou a fazer uma visita de “cortesia (e armada)” à concentração do Flamengo-RJ para falar com o técnico Yustrich, um dos seus desafetos e que não estava no local. Houve ainda a afirmação de Saldanha, mais tarde negada por ele, de que Pelé não reunia condições de disputar o Mundial por apresentar um problema de visão. Era o fim da era Saldanha no comando da seleção.
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