Lá se foram 30 anos que o Brasil vivia um momento histórico ocorrido nos Jogos Olímpicos de Atlanta, nos Estados Unidos. E não se trata somente da conquista, mas o simbolismo para as mulheres. Em 27 de julho de 1996, Jackie Silva e Sandra Pires derrotaram Adriana Samuel e Mônica Rodrigues por 2 sets a 0 na primeira final olímpica do vôlei de praia feminino, que também foi a primeira decisão entre duas duplas do mesmo país na modalidade.
Além de garantir ouro e prata para o Brasil, a disputa marcou a estreia do vôlei de praia nos Jogos Olímpicos e abriu caminho para uma nova era do esporte no país. E nesta quinta-feira (30), dia de TBT, vamos relembrar.
Ouro e prata em uma final 100% brasileira
A arena temporária construída em Jonesboro, na Geórgia, foi palco da decisão. Jackie e Sandra venceram o primeiro set por 12 a 11 e confirmaram a conquista no segundo, com vitória por 12 a 6.
Para Adriana, que ficou com a prata ao lado de Mônica, o resultado foi muito além do que imaginava quando começou a sonhar com uma participação olímpica.
“Foi muito além do que eu podia sonhar quando era uma menina. Eu tinha um sonho muito real de participar de uma Olimpíada, mas se me contassem lá atrás que eu ia participar e ganhar uma medalha, talvez eu não acreditasse. Foi mágico, é inesquecível”, relembrou.
Sandra Pires, então com 23 anos, chegou à competição com menos experiência olímpica do que Jackie, que tinha 34. Segundo ela, o aspecto emocional foi um dos principais desafios durante a final.
A atleta contou que chegou a ficar dispersa ao perceber que estava disputando uma decisão olímpica. A mudança de estratégia de Adriana e Mônica também aumentou a tensão no primeiro set, mas Jackie e Sandra conseguiram controlar a partida e conquistar o ouro.
Para as campeãs, um dos momentos mais marcantes foi ouvir o Hino Nacional no lugar mais alto do pódio.
Uma medalha que mudou o vôlei de praia
A final de Atlanta ajudou a transformar a percepção sobre o vôlei de praia no Brasil. Até então, a modalidade ainda era pouco conhecida no país. A conquista das quatro atletas deu visibilidade ao esporte e fortaleceu reivindicações das jogadoras por igualdade na premiação e pelo direito de utilizar patrocínios nos uniformes durante as etapas do circuito mundial.
Para Jackie, a medalha representou uma conquista que ultrapassou as areias. “Depois dali, a gente conquistou uma credibilidade inquestionável de poder estar brigando por isso nas etapas mundiais de vôlei de praia”, afirmou.
Três décadas depois, as quatro atletas continuam ligadas ao esporte. Jackie e Mônica, que foram adversárias naquela final, atualmente dão aulas de vôlei de praia em locais próximos, em Ipanema, no Rio de Janeiro.
Jackie também destaca a importância de continuar aprendendo e ensinando. “Eu sempre tive muita vontade de ensinar, assim como eu tenho muita vontade de aprender. Eu tive a sorte de ter excelentes professores na minha estrada”, contou.
Mônica também trabalha com aulas de vôlei de praia e beach tennis. Apesar de ter seguido outros caminhos profissionais em alguns períodos, ela afirma que o vôlei continua ocupando um lugar especial em sua vida.
Prata com gosto de ouro
Apesar da derrota na final, Adriana e Mônica também fizeram história. A dupla tornou-se vice-campeã olímpica na estreia do vôlei de praia nos Jogos e ainda teve a oportunidade de ouvir o Hino Nacional no pódio ao lado das campeãs brasileiras.
Adriana guarda como uma das principais lembranças a imagem das quatro atletas juntas na cerimônia de premiação. “O momento que mais guardei com carinho foi a imagem de nós quatro no pódio. Uma dobradinha brasileira, a gente com a bandeira do Brasil nas costas. Não vou esquecer nunca, é inesquecível”, relembrou.
A medalha também se tornou um divisor de águas na vida da atleta, que atualmente atua como empresária, palestrante e em projetos socioesportivos.
Mônica, por sua vez, lembra que a tristeza pela derrota durou pouco e logo deu espaço à comemoração pelo feito histórico. “Na final, a gente perde. Então, quando a gente perde, é lógico que a gente tem aqueles cinco minutos que não gosta, né? Que fica triste. Mas, logo, logo, a gente se juntou a elas. Foi muito lindo”, afirmou.
Do biquíni aos uniformes atuais
Outro episódio marcante daquela final foi a vestimenta utilizada no pódio. Diferentemente do padrão atual, as atletas receberam a orientação da Federação Internacional de Voleibol para subir ao pódio usando biquínis.
Sandra lembra que, naquele momento, a discussão sobre a sexualização das atletas ainda não tinha o mesmo espaço que possui atualmente. “Ser pioneiro é isso. Você vai evoluindo, né? E a gente está ali bem exposto, bem cobaia mesmo. O lado bom, claro, você é o primeiro, né? Nunca mais vão te tirar isso”, afirmou.
Trinta anos depois, a mudança é visível. Nas Olimpíadas de Paris 2024, as brasileiras Duda e Ana Patrícia conquistaram o ouro disputando as partidas com shorts e tops.
Para Sandra, a transformação representa a evolução do esporte e mostra que a geração de Atlanta ajudou a abrir portas para as atletas que vieram depois.
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