Luiz Felipe Scolari não está aproveitando os oito dias de convivência com os jogadores da seleção brasileira, por causa dos amistosos contra a Itália e Rússia, apenas para definir e aprimorar o esquema tático e ver com quais jogadores pode contar dentro de campo. Também usa o tempo para conversar com os atletas e “sentir” os que têm realmente espírito de seleção. E também dá conselhos, muitos conselhos. Felipão está no início do processo de formação de uma nova família, embora não utilize o termo.
As conversas de Felipão têm sempre futebol como assunto, mas os temas podem variar, de acordo com o interlocutor. O atacante Neymar, por exemplo, recebeu até dicas sobre como administrar sua carreira e suas finanças. Com o zagueiro Thiago Silva, o papo foi basicamente de boleiro. O lateral Marcelo também foi um dos que tiveram um tête-à-tête com o treinador. Falaram da bola e da vida.
Neymar, por exemplo, está merecendo atenção especial, por sua importância para o futebol brasileiro e também por ser jovem (tem 21 anos). Ele está sendo preservado na seleção, não é escalado para entrevistas, para evitar que tenha de falar de assuntos que o deixam desconfortável, como a transferência para a Europa. “Eu disse a ele que aqui com a gente não será tão exposto como é no Santos. Lá ele precisa cumprir uma série de compromissos. Aqui será preservado”, explicou Felipão.
Felipão garantiu que percebeu logo de cara que Neymar é um garoto equilibrado e tranquilo. Mas as conversas do astro santista com o treinador não giram apenas em torno da bola. Dia desses, falaram de negócios. “Ficamos até tarde falando sobre investimentos, sobre o futuro”, revelou o comandante. “Eu sei que não é normal, mas como a gente passa algum tempo juntos, vamos falando.”
Marcelo tem fama de destrambelhado e, de acordo com uma pessoa que testemunhou um papo, o treinador o aconselhou a ser menos intempestivo. Quando falaram de bola, numa conversa antes do primeiro treinamento em território suíço, Felipão explicou que escalaria Filipe Luís diante da Itália porque o lateral do Atlético de Madrid entrou numa fria no jogo contra a Inglaterra - substituiu no segundo tempo Adriano, que estava levando um baile de Walcott, e também teve dificuldade - e seria injusto tirá-lo da equipe.
Na conversa com Marcelo, Felipão também elogiou a ofensividade do lateral do Real Madrid, mas disse-lhe que é preciso ter consciência de que é necessário, para um jogador da posição, dedicar-se também a defender.
Com Thiago Silva, a quase meia hora de conversa que precedeu ao treino de sexta-feira girou basicamente sobre a importância do zagueiro para o time. O treinador perguntou da família e da vida em Paris, mas falou longa e tranquilamente sobre o que espera do zagueiro, que hoje é o capitão da seleção. Quer que ele use toda sua técnica, experiência e tudo o que aprendeu sobre tática de jogo e posicionamento para liderar o setor e dar tranquilidade aos companheiros, a maioria jovens. Enfim, ser o comandante do time em campo.
Felipão conversou, nos treinamentos e também durante as longas estadas no hotel, com vários outros jogadores. E vai continuar a usar esse recurso sempre que possível. Acha fundamental transmitir o que pensa e, principalmente, saber o que passa na cabeça de seus atletas.
(AE)
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