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Nilton Santos parte e deixa o futebol mais triste

O futebol perdeu parte de sua elegância. Morreu nesta quarta-feira, aos 88 anos, na Fundação Bela Lopes, em Botafogo, no Rio de Janeiro, Nilton Santos, o maior lateral-esquerdo de todos os tempos. A Enciclopédia, como era conhecido por causa de sua inigua

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O futebol perdeu parte de sua elegância. Morreu nesta quarta-feira, aos 88 anos, na Fundação Bela Lopes, em Botafogo, no Rio de Janeiro, Nilton Santos, o maior lateral-esquerdo de todos os tempos. A Enciclopédia, como era conhecido por causa de sua inigualável capacidade técnica de jogar futebol e visão de jogo. Só vestiu duas camisas em 16 anos de carreira: a do Botafogo (de 1948 a 1964) e da seleção brasileira. “Agora, o mesmo jogador atua em dois times no mesmo ano”.

Nilton Santos era um jogador à frente de sua época. Ao contrário dos zagueiros contemporâneos, gostava de ir ao ataque. Na Copa do Mundo de 1958, no jogo contra a Áustria, levou uma bronca do técnico Vicente Feola por ter passado do meio de campo. “O Feola dizia: ‘Onde vai esse louco’”, relembrava Nilton. A jogada terminou com uma tabela com Mazzola e, na saída do goleiro austríaco, um toque sutil e com classe para fazer o segundo gol do Brasil.

Pelo Botafogo foram 729 jogos, com 11 gols e 26 títulos conquistados. Nos 16 anos de clube, muitas vezes, diz a lenda, Nilton Santos assinou contratos em branco. “Eu fazia o que gostava e ainda recebia salário. Era bom demais”, dizia. “Quando as pessoas falam que se jogássemos hoje ficaríamos ricos, eu não invejo o dinheiro que eles têm. Eu invejo é a liberdade que eles têm de jogar, de poder marcar e atacar”, costumava dizer, sempre com sorriso no rosto.

Foram quatro títulos cariocas, ao lado de mitos como Manga, Garrincha, Didi, Quarentinha, Amarildo e Zagallo. Na seleção, foram três gols em 84 jogos. Foi reserva na trágica derrota na final da Copa de 1950. Jogou em 1954 e foi bicampeão em 1958 e 1962.

Clássico, jamais se utilizou do “carrinho” para tirar a bola do pé de seus adversários. Na Copa do Mundo de 1962, no Chile, teve sangue-frio para fazer um pênalti contra a Espanha e dar dois passos à frente, com tanta tranquilidade que acabou enganando o árbitro, que anotou apenas a falta fora da área.

Em pesquisa da revista Placar nos anos 80 para se eleger o maior time do Botafogo de todos os tempos, Nilton Santos recebeu os 30 votos possíveis, mesma pontuação de Garrincha. Os dois gênios foram os únicos a ter votação total.

Nilton gostava de lembrar como conheceu o “compadre”. “Eu vi aquele cara todo torto, pensei que era só mais um fazendo teste no Botafogo. Ele veio, balançou e tocou a bola no meio das minhas pernas”. Nilton se dirigiu até o técnico Gentil Cardoso e cochichou: “Contrata este torto. Ele é gênio”. A partir daí, a dor de cabeça ficou principalmente para Flamengo, Fluminense e Vasco. “Eu dormia sempre sossegado”, divertia-se.

Nilton Santos começou jogando em um time amador de Flecheiras, uma praia da Ilha do Governador. Se tornou profissional no Botafogo aos 17 anos. Sob a direção de Zezé Moreira começou como meia-esquerda, mas por imposição de Carlito Rocha, ex-goleiro e presidente folclórico do clube, passou a atuar como quarto-zagueiro e depois como lateral-esquerdo.

Apesar de elegante com a bola nos pés, Nilton Santos não gostava de levar desaforo para casa. Em um jogo contra o Corinthians, no Pacaembu, deu um tapa no rosto do polêmico juiz Armando Marques. Como sempre desfrutou de grande crédito com os torcedores e com a imprensa, a atitude chegou a ser elogiada pelo escritor Nelson Rodrigues em uma de suas crônicas.

Nilton se orgulhava de jamais ter perdido em campo uma decisão de campeonato. Teve seu talento reconhecido em vida. Foi eleito em 1998 o melhor lateral-esquerdo de todos os tempos. Uma estátua foi erguida no estádio Engenhão. Mas nada disso era necessário.

Seus feitos pelos gramados do mundo jamais serão esquecidos. Nilton Santos é imortal. Como são os conhecimentos de uma enciclopédia. A Enciclopédia do Futebol.

(AE)

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