29 de abril de 1965. Remo goleado por 9 a 4 em um baile capaz de deixar qualquer torcedor azulino de cabeça quente por vários dias. Mas aquela era uma noite atípica. Não havia espaço para tristeza, vaias ou cobranças. Pelo contrário. Aplausos e reverências irrompiam a cada jogada do camisa 10 do time adversário. Teria o Baenão sido tomado por um bando de vira-casacas, então? Não. Era uma situação diferente, especial. Em campo, disputando amistoso contra o Leão, estava o Santos, bicampeão mundial, com Pelé no auge.
Torcer contra o Rei, uma missão complicada pela qualidade do futebol apresentado, tornou-se impossível logo na subida do time paulista ao gramado, quando o maior jogador de futebol do mundo, em uma demonstração de respeito e gratidão pelo carinho com que foi tratado em Belém, surgiu trajando o manto azul-marinho.
A cena fez o Baenão vibrar, entrou para a história do clube. Torcedores mais antigos até hoje fazem questão de contar que estavam lá e viram com os próprios olhos como a camisa do Remo caiu bem em Pelé, como o craque adentrou o campo de jogo com um ramalhete nas mãos, saudando a torcida nas arquibancadas. Uma aula de carisma e um raro exemplo de comunhão entre jogador e torcida de clubes diferentes.
Tanto foi assim que, após o apito inicial, não havia torcedores de Remo ou Santos. Apenas de Pelé. A cada toque na bola ou gol marcado – e foram cinco –, o nome do Rei era gritado a plenos pulmões. E como o inusitado dava o tom da noite, nada mais natural quando o Peixe teve um pênalti marcado a seu favor, que a torcida azulina exigisse que Pelé se encarregasse da cobrança. Ao final da partida, o craque se desculpou com presidente do Remo à época, Rainero Maroja, por esse gol específico, alegando que o juiz havia assinalado a penalidade de forma errônea. “Como era grande a expectativa do público de me ver cobrar o pênalti, aceitei batê-lo”, teria dito na ocasião, segundo descrito no livro do centenário azulino.
Outra jogada bastante lembrada, de acordo com o benemérito do clube, Orlando Ruffeil, foi a tabela que Pelé fez com a perna do zagueiro azulino Socó, levando a torcida ao delírio. Os gols da partida foram marcados por Walter, Zanzé (2 vezes) e Faustino para o Remo; Pelé (5 vezes), Coutinho, Toninho Guerreiro, Peixinho e Carlos Alberto Torres para o Santos. Um dia histórico que vale ser lembrado por ocasião do aniversário de 79 anos de Edson Arantes do Nascimento, Pelé, o maior de todos, comemorado na última quarta-feira (23). Vida longa ao Rei!
Atuação irretocável
Na última quarta-feira (23), Pelé, o maior nome da história do futebol mundial, acrescentou mais um ano de vida ao seu legado irretocável. Considerado como o ‘Rei’ do esporte mais popular do país, alcunha essa que faz parte da sua identidade, o decorrer dos 21 anos como jogador profissional separou contos que, certamente, serão imortalizados. Quem desfruta da intimidade de um caso é o torcedor do Clube do Remo, que teve o seu manto sagrado utilizado pelo atleta em um dia acalorado de 29 de abril de 1965, no estádio Evandro Almeida, o Baenão.

Um torcedor que faz questão de exaltar cada detalhe daquele dia é Orlando Ruffeil, grande benemérito da instituição e que foi um dos presentes no amistoso. Então com 14 anos, o ‘historiador azulino’ detalhou o momento. “Hoje em dia mexe, empolga. Agora você imagina isso no ‘ao vivo’. Ele já era o Pelé, tinha o bi mundial com a seleção. Para um garoto como eu, mesmo torcendo a veras pelo Remo, não tinha como ficar abatido”, mencionou, perante a desenvoltura do craque ao longo da partida.
Para Orlando, dois pontos foram fundamentais e que seguem vivo na sua memória. “Era algo tão impactante que tinham cadeiras nos tobogãs. Outro foi que o Remo chegou a abrir 2 a 1. Mas quando o Zanzé marcou, ele (Pelé) foi no fundo do barbante pegar bola e falou: ‘agora vão ver o que gol’. Marcou cinco”, relembrou ao dizer que o ex-jogador escolhia o momento para brilhar.
Ainda de acordo com Orlando Ruffeil, o amistoso fez o Remo alterar o seu time principal, justamente pela competitividade momentânea frente ao time de astros. “A equipe titular remista fazia uma excursão no Acre. Quem jogou o amistoso foram os reservas, salvo pelo zagueiro central Socó, por exemplo. A partir daí, eles se tornaram titulares”, destacou.
Momento único na história do futebol paraense
Se para a torcida a comoção foi tremenda em acompanhar a presença do Rei Pelé, sobretudo ao utilizar o manto sagrado do Clube do Remo, mesmo que por poucos minutos, quem presenciou de perto e com um olhar mais profissional pôde relatar que tal situação foi única e que, conforme o parâmetro atual, dificilmente um dia tornará a se repetir.
O jornalista e comentarista esportivo Carlos Castilho acompanhou a história ser escrita. “É algo que não iremos mais presenciar, ou pelo menos não tão cedo. Um jogador do calibre de Pelé, vencedor e no auge, vestir a camisa de um dos nossos times e diante de um mar de torcedores. É algo que merece o seu espaço na história, até porque hoje o futebol ficou muito mercantilizado. Tem jogador que cobra para dar entrevistas, imagine vestir a camisa de um time local”, ponderou.
Apesar dos centros das atenções se voltarem a Pelé, Carlos Castilho explicou, também, o timaço que veio a Belém para o amistoso. Contudo, o nível do camisa 10 era diferenciado. “Todos queriam ver aquela qualidade que o mundo inteiro já reverenciava. Foi uma noite memorável no Evandro Almeida e o escore, realmente, extravagante. O Rei envergou a camisa do Clube do Remo e foi uma honra porque nada mais nada menos, era o Rei e em um Baenão lotadíssimo”, disse. “Um jogo de alto nível e com Coutinho, Pepe, que se tornou técnico do Remo depois. Jogadores do mais alto nível que vieram e alegraram o momento e a história íntima do futebol local”, explicou.
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar