O perfil de Carlos Alberto Claudino Lucena ou simplesmente Carlos Lucena, no WhatsApp revela, literalmente de cara, toda a identidade que o treinador tem com a Tuna Luso, onde trabalhou por anos e anos. Lá, pode-se ver a foto de Lucena com a camisa do clube, tendo ao fundo o símbolo maior da agremiação, a Águia Guerreira, uma das muitas alcunhas da centenária equipe do futebol paraense. No “berço” na última sexta-feira, quando completou 65 anos de idade, grande parte deles dedicado ao esporte, Lucena conversou com o DIÁRIO abordando os mais diferentes temas, mas todos, óbvio, ligados ao futebol.
Lucena se confunde com a história recente da Lusa e nem poderia ser diferente. Para muita gente do meio futebolístico e até mesmo fora dele, o treinador é a cara da agremiação, onde ele chegou em 1982, vindo do Pinheirense, de Icoaraci, na posição de lateral-direito. Depois de algum tempo vestindo a camisa alviverde, o ex-jogador passou, também, pelo Santa Rosa, Sport Belém, Anápolis-GO, Anapolina-GO e, por último, o Internacional-SP. Encerrada a carreira de atleta, Lucena iniciou uma vitoriosa trajetória como treinador das divisões de base da Lusa, quando conquistou diversos títulos, revelando uma “carrada” de craques locais.
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Como treinador, além das glórias dadas não só à Lusa, mas ao Clube do Remo e ao Paysandu, clubes nos quais ele também trabalhou na carreira, Lucena é um contador de histórias do mundo da bola. Causos capazes de levar mesmo os mais sisudos dos torcedores a gargalhadas. Ao longo de sua trajetória, o treinador, que se encontra desempregado no momento, “aguardando por convites”, como diz, levantou, só pela Tuna, cinco títulos estaduais, categoria sub-20, sendo campeão de aspirantes pela mesma Lusa. No Leão e no Papão, foi campeão sub-20 e sub-17 nos anos de 1995 e 1997, respectivamente.
Depois de deixar, momentaneamente, a Lusa, Lucena retornou a antiga casa, onde levantou, em 2003, o super campeonato sub-20, sendo essa a sua última conquista no futebol de base local. Como técnico do profissional da Cruz de Malta, Lucena levou o time alviverde ao título do primeiro turno do Parazão 2007, feito que é reconhecido como a última grande conquista tunante na elite do futebol local, a qual a Lusa está de volta este ano, após sete temporadas de jejum. Lucena, como bom cruzmaltino, promete acompanhar atentamente a participação do time na elite local.
SANGUE CRUZMALTINO
- Torcedor declarado da Tuna Luso, Carlos Lucena acompanhou atentamente a campanha do time na Segundinha. “Acho que pela tradição, pela história que tem, a Tuna nem deveria ter disputado a Segunda Divisão. São dois títulos nacionais conquistados pelo clube”, salienta Lucena, se referindo aos títulos da Taça de Prata (Segundona) e Série C (Terceirona) de 1985 e 1991, levantados pela equipe cruzmaltina.
- Para o treinador, a formação de um grupo comprometido com a causa foi fundamental. “A diretoria levou gente competente para trabalhar e o resultado veio”, diz. Lucena ressalta, no entanto, que não é só retornar à elite local. “O mais importante agora é fazer uma boa campanha no Estadual para seguir na Primeira Divisão, se possível com o título de campeã. A Tuna precisa formar um bom elenco, esquecendo o título da Segundinha, que não é parâmetro para o Estadual”, avalia.
- Lucena recomenda à diretoria da Lusa evitar a contratação de jogadores trazidos por empresários. “É preciso ter muito cuidado com isso aí”, recomenda. “A diretoria não pode deixar de olhar para a base do clube, que sempre revelou grandes talentos”, ensina Lucena, salientando: “Sempre disse que a Tuna nunca deixou ninguém rico, mas para muita gente o clube foi o começo da riqueza, com muitos jogadores que saíram de lá estando muito bem financeiramente hoje”, argumenta.
A base como o maior patrimônio dos clubes
Na avaliação de Carlos Lucena, o futebol do Pará poderia estar hoje em situação bem mais confortável no futebol nacional desde que os clubes locais seguissem a política de valorização dos atletas locais. “Hoje a base dos nossos clubes, infelizmente, não tem praticamente nenhum apoio”, aponta. “A garotada, coitada, tem três, quatro bolas velhas, refugo do profissional, para treinar. Os treinos, normalmente, são realizados em campos sem as menores condições. Campos, muitas vezes, que nem peladeiro utiliza”, acusa.
De acordo com Lucena, os próprios dirigentes não mostram interesse em prestigiar o atleta local por está quase sempre envolvido com a importação de jogadores de outros centros. “Os dirigentes, com raras exceções, não mostram interesse em prestigiar o atleta regional. Aqui sempre teve, tem e vai ter bons jogadores. Basta ver que com toda essa dificuldade que coloquei, aqui e ali sempre surge algum jogador que se destaca e acaba indo para algum clube de maior expressão que os nossos, como são os casos do Pikachu e do Rony, que brilham no Vasco-RJ e no Palmeiras-SP”, argumenta Lucena.

O treinador recomenda aos dirigentes do futebol local uma aposta ousada na base, tendo a certeza de que em pouco tempo o retorno positivo aparecerá. “Os dirigentes precisam entender que a base representa um dos maiores patrimônios dos nossos clubes. É com a revelação de talentos vindos da base que nossos clubes farão grandes receitas, que até podem ser usadas na contratação de alguns jogadores de fora, mas gente de qualidade e não os pernas de pau que estamos acostumados a ver aqui no nosso futebol nos últimos anos”, diz.
TREINADORES TAMBÉM...
Como um treinador autenticamente “papa-chibé”, Carlos Lucena não esconde a sua decepção com a falta de oportunidade aos técnicos locais nos grandes clubes do futebol paraense, notadamente em Clube do Remo e Paysandu. “Essa é uma realidade. O treinador regional não tem vez, não é valorizado. O treinador paraense, em situação como essa, é sempre muito discriminado pela torcida, pelos dirigentes, por quase todo mundo”, afirma.
Segundo o experiente treinador, a tolerância dos dirigentes com o treinador local é quase zero. “Quando o treinador local ganha alguma oportunidade, basta uma, duas derrotas, para ser logo mandado embora”, acusa. “Com os caras que vêm lá de fora a situação é bem diferente. Esses treinadores vindos de fora podem perder, cinco, seis partidas que está tudo normal”, compara Lucena.
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Lucena garante que a qualidade dos técnicos locais, como é o caso dele próprio, em nada fica a dever àqueles que são importados por nossos clubes. “Temos muitos profissionais capacitados, conhecedores do futebol e que poderiam estar trabalhando hoje em nossas grandes equipes, mas por falta de visão dos nossos dirigentes isso não acontece”, diz Lucena, que ressalta as despesas provocadas pela importação de técnicos para o futebol local. “Normalmente esses caras não vem sozinhos. Eles trazem auxiliares, preparadores físicos, preparadores de goleiros e até o tal do executivo de futebol”, relaciona.
EXECUTIVO? “COVEIROS DO FUTEBOL”
- Com larga experiência no futebol, adquirida desde a época em que este esporte não contava com a figura do executivo de futebol, Carlos Lucena é um crítico mordaz do profissional que atua nesta área. Sem meias palavras, o ex-treinador da Tuna Luso não pensa duas vezes ao classificar aqueles que atuam na função como “os grandes coveiros do nosso futebol’’. Lucena vai além nas críticas aos executivos, disparando “chumbo grosso” naqueles que, hoje, são os responsáveis pelas contratações dos principais clubes do futebol brasileiro, entre eles Clube do Remo e Paysandu.
- “Normalmente esse pessoal que se intitula executivo de futebol nunca chutou uma bola, nem quando criança, muitas das vezes nunca haviam ido a um estádio antes de assumirem a função”, detona Lucena. “Basta ver o que esses caras trouxeram pra cá para o nosso futebol nos últimos anos. A maioria dos jogadores contratados por eles são verdadeiros pernas de pau, que em outros tempos jamais teriam a oportunidade de vestir a camisa de nossas grandes equipes”, acusa Lucena.
- Na opinião do ex-treinador, grande parte das mazelas enfrentadas pelo futebol local nos últimos anos pode ser creditada a figura do executivo de futebol. “Desde que os nossos dirigentes passaram a acreditar nesses caras, entregando a eles a responsabilidade pelas contratações de jogadores, nosso futebol foi para o buraco. A gente olha para um jogador ruim e já sabe quem o trouxe para cá: foi sempre o tal do executivo”, detona Lucena.
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