O Paysandu Sport Club só tinha dois anos de fundação quando Raul Correia Olivier nasceu, no dia 3 de agosto de 1916. E lá se vão 105 anos de vida do mais longevo torcedora bicolor. De lá para cá, o mundo mudou completamente: duas Grandes Guerras Mundiais ocorreram e a humanidade sobreviveu à epidemia de gripe espanhola, de 1918 a 1919, e outra epidemia pôs medo no mundo, a da Aids, no começo dos anos 1980, assim como a pandemia do coronavírus continua assustando muita gente.
Em mais de um século, o surgiram o rádio, a televisão, a Internet e o Brasil abraçou o football, esporte vindo da Inglaterra com Charles Miller, como a paixão nacional. O país passou pela Era Vargas, as mulheres tiveram direito ao voto e acesso ao mercado de trabalho. Entre os presidentes Rodrigues Alves e Jair Bolsonaro, a nação brasileira teve 33 chefes do Executivo nesses 105 anos, passando por golpes de Estado, duas ditaduras e dois impeachments depois da redemocratização. Raul testemunhou e sobreviveu a tudo e passou por todas essas mudanças com uma paixão imutável: a pelo Papão.
Mas a história não é bem assim. Não começou no nascimento do torcedor. Para remontar a origem, precisamos voltar a 1941, quando Raul foi parar na internação do Hospital da Ordem Terceira, em Belém. Ele tinha apenas 25 anos, ainda não era um apaixonado pelo time (e talvez nem tão chegado ao futebol). Na verdade, o amor ao clube veio depois impulsado pela gratidão - e, convenhamos, o futebol no Brasil, naquela época, ainda estava engatinhando como esporte hegemônico.
Quem conta esse iniciozinho da história é a filha de Raul, Regina Olivier. "Papai foi internado por causa de um acidente e, no hospital, conheceu um jogador do Paysandu, com nome de Heitor", relata. O novo amigo conseguiu transferir o jovem Raul para outra enfermaria, mais tranquila e confortável - na que ele estava fazia um barulho danado devido à proximidade com a Central de Polícia, fora o sol que batia direto na cama em que ele estava. Por causa dessa gentileza do jogador, Raul adotou as cores azul e branco para sua vida. Nunca mais deixou de amar e torcer pelo Papão.
Festa temática e homenagem
Ama tanto que o 105° aniversário teve as cores, obviamente, do time. Tudo azul e branco. A idade avançada não atrapalha Raul de continuar relembrando grandes lances do Papão. Dentre os preferidos dele, está a inédita conquista da Copa dos Campeões de 2002. Por uma alegria que o destino traçou, a partida histórica ocorreu no dia seguinte à sua data de nascimento. O Lobo derrotou o Cruzeiro-MG, no Estádio Castelão, nos pênaltis e cravou a vaga para participar da Copa Libertadores da América, em 2003.

Claro que a paixão de Raul não se fez nem se faz sozinha. Ao logo do tempo, desde o já longínquo episódio do hospital, ele também curte o futebol com os amigos, como qualquer brasileiro comum. Entre os mais chegados estão os médicos Eduardo e Gabriel Hermes, este último ex-dirigente alviazul e também decisivo numa importante escolha do torcedor: morar pertinho do estádio, na Travessa Curuzu.
"Anteriormente , moravamos na Passagem Nossa Senhora das Graças, na Terra Firme. Na procura de encontrar uma casa, achamos esta onde atualmente meu pai reside. O imóvel foi pago pelo Dr. Gabriel Hermes, depois meu pai quitou a dívida em em parcelas. Ele tem muita gratidão pelo amigo que o ajudou. E ficou muito feliz por ser da mesma rua seu clube de coração", detalha a filha Regina.
Como não poderia deixar de ser, o Paysandu reconhece a importância de Seu Raul para fomentar a paixão pelo Clube. Afinal, ele sempre esteve lá e viu a conquista de todos os 55 títulos do seu time - são 49 estaduais, dois nacionais da Série B, uma Copa Norte, dois da Copa Verde e um da Copa dos Campeões. Viu também as derrotas, claro, pois fazem parte da história de qualquer grande time. No dia do aniversário, torcedor mais antigo recebeu uma camisa do presidente, Maurício Ettinger e da diretoria bicolor.
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"É uma satisfação muito grande e feliz pelas homenagem a ele. A gente vê que é um amor recíproco com este que é o torcedor mais veterano do Papão", finaliza Regina. Agora, o vovô bicolor quer um presentão neste 2021: o acesso para a Série B do Brasileirão, ao fim da temporada, para poder comemorar mais essa conquista.

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