Não são poucas as pessoas, sobretudo pais e mães de jovens, que não veem com bons olhos o atleta profissional ou não de e-sports, como são chamados os esportes eletrônicos. A recusa talvez se dê em função de ser algo novo, carente de uma consolidação maior. A atividade esportiva, porém, é encarada com muita seriedade por pessoas de ambos os sexos e diversas idades. Como ocorre em competições de esportes mais tradicionais, como o futebol, vôlei, basquete e tantos outros, a modalidade eletrônica conta com campeonatos e torneios importantes e bastante rentáveis, caso do Free Fire, o mais popular deles.
Entre as competições de Free Fire que se destacam está a recém-criada Taça das Favelas Free Fire, que este ano vai para a sua segunda edição. A competição aparece para moradores de áreas carentes como a oportunidade de alcançar campeonatos mais importantes, como o Brasileiro, que assim como o futebol profissional está dividido em Séries. Mesmo não tendo, ainda, a relevância do Brasileiro, a competição destinada aos moradores de zonas periféricas não só reúne uma grande quantidade de jovens, mas também paga premiações que surpreendem quem não é do ramo.
Liga Brasileira de Free Fire: tudo sobre os campeonatos
Free Fire atinge 1 bilhão de downloads
A expectativa da Central Única das Favelas (CUFAs), que organiza a Taça, gira em torno de 200 mil participantes na edição do torneio deste ano. De acordo com a entidade, a premiação destinada à equipe campeã será de R$ 100 mil. O torneio ainda distribuirá bootcamp (treinamento intensivo) para a equipe vencedora e chips de celular com conexão à internet para todos os jogadores que alcançarem as etapas estaduais. Um grande atrativo, sem dúvida, para qualquer um, mais ainda para quem não conta com poder aquisitivo tão alto, como é o caso de moradores da periferia.
As inscrições para o torneio, iniciadas em novembro de 2020 e encerradas no último dia 13, foram divididas em duas etapas. A primeira, já encerrada, esteve disponível para as lideranças comunitárias cadastrarem as suas favelas. Mais de 3500 das favelas manifestaram interesse em participar. A partir daí foi feita uma seleção de 1296 favelas participantes, com seus moradores-jogadores podendo fazer suas inscrições no site oficial do torneio na internet. Entre os paraenses participantes estão Ronald Barbosa, Alexsander Gomes e David Castro, moradores dos bairros da Terra Firme, Icoaraci e Atalaia e que foram ouvidos pela reportagem.
Os jogadores cadastrados passarão por uma triagem das CUFAs locais, que escolherão os melhores deles para formar as seleções de cada favela. O torneio seguirá para uma fase de disputas estaduais, onde as favelas tentarão a classificação para a etapa nacional. As seleções vencedoras de cada estado - um total de 27 - se classificam para a etapa nacional e as vice-campeãs entrarão em uma fase de repescagem, até que sejam definidas as oito equipes que também avançam. A grande final, que será entre as 12 melhores equipes e está programada para o dia 4 de dezembro.
COMO FUNCIONA O FREE FIRE?
O Free Fire, jogo criado pela Garena, empresa do sudeste asiático em 2017. O formato do game é o Battle Royale, gênero que consiste na disputa de um mesmo espaço por diferentes equipes, em que o objetivo é ser o único sobrevivente ao fim de cada partida. No caso do Free Fire, dezenas de jogadores começam a partida em uma ilha, na qual têm de procurar armas e itens por todo o cenário. Conforme o jogo avança, a área vai se tornando cada vez menor – o que aumenta as chances de jogadores de diferentes equipes se encontrarem e lutarem. Vence o último a ficar em pé. Com mais de 100 milhões de jogadores ativos três anos após o seu lançamento, o jogo tem seu amplo potencial de disseminação ligado ao fato de que funciona em smartphones de qualquer tipo – o que lhe rendeu o título de game mais baixado para dispositivos mobile em 2020.
Muito mais do que uma simples diversão
Praticante de esporte eletrônico desde 2017, primeiro sem compromisso, só por diversão mesmo, agora o jovem David Castro Pinheiro, de 22 anos, morador do bairro do Atalaia, sonha mais alto praticando o Free Fire. Ele mira o que chama de carreira profissional neste esporte. O paraense, que está desempregado, diz ter como ídolo Luís Fábio Júnior, jogador da equipe Miners GG e que no Free Fire é conhecido como O Trem BB. “É um jogador baiano da Série A, um craque”, elogia David Castro, que já deu os primeiros passos para chegar ao seu objetivo. “Já disputei duas vezes a Série C, mas, infelizmente, não consegui o acesso. Continuo tentando”, conta David Castro, que já faturou alguns trocados por participar das competições. “Deu até para dar uma pequena grana para minha mãe”, revela. Aliás, a mãe do jogador, inicialmente, torcia o nariz ao ver o filho dedicando tanto tempo ao celular que usa para jogar. “Só depois que ela viu que o Free Fire pode ser uma forma de sustento de vida, acabou aceitando, impondo apenas regras de horário”, explica. Na opinião de David Castro, o esporte eletrônico é mais que um divertimento e uma forma de ganhar dinheiro. “Vejo esse jogo como um fator de inclusão social”, afirma. Casado com Fernanda Ribeiro, de 18 anos, com quem tem um filho, David Miguel, recém-nascido, o jogador é um dos inscritos para participar da Taça das Favelas Free Fire. “Pode até ser que, de repente, seja chamado por alguma equipe de uma Série B ou Série A”, imagina o jogador.
Em busca da dedicação total ao esporte
Por algum tempo o jovem Alexsander Gomes Damasceno, de 18 anos, usou o celular da mãe, Josielen Tatiane Gomes, para fazer o que mais gosta: jogar Free Fire. Depois que passou a ter seu próprio aparelho, aí foi que ele passou a se dedicar ainda mais ao esporte eletrônico e assim a sonhar em disputar competições importantes, como, por exemplo, a Série A do Brasileiro da modalidade. Mesmo dedicando parte de seu tempo ao jogo, Alexsander ocupa se ocupa com outra atividade que, por enquanto, para ele é mais rentável. O jovem é um dos muitos menores aprendizes espalhados por empresas da capital paraense.
“Por enquanto atuo como auxiliar de linha de montagem em uma construtora. É bom para ir aprendendo algo diferente, mas meu sonho mesmo é me tornar um profissional do Free Fire. É um sonho comum entre os jovens que praticam esse esporte. Lá na frente posso atingir o grau de profissional, ter carteira assinada e ganhar muito dinheiro”, diz. Alexsander vai participar pela primeira vez da Taça das Favelas Free Fire e não esconde a ansiedade pela chegada da competição. “Fiquei bastante feliz por ter conseguido fazer a minha inscrição no torneio, o que não foi possível em 2020. É a oportunidade de ser reconhecido e ser chamado por uma grande equipe”, salienta.

O que mais atrai o jovem no Free Fire, conta ele, é o desafio do jogo e também o campo que se abre para fazer novas amizades. “Como a gente joga com pessoas de outros Estados, o círculo de amizade de quem pratica este esporte vai aumentando. Eu, por exemplo, troco contato com pessoas de fora direto”, justifica. O jovem garante que em casa a convivência com os pais não é atrapalhada pelo jogo. “Eles dão apoio contanto que o jogo não interfira na minha vida social. Tem a questão do horário, que nem sempre é bem entendido por eles, mas é normal isso”, comenta.
Alexsander confia que o Free Fire, assim como outros esportes eletrônicos, pode ter um papel social importante. “Ainda mais em áreas onde a violência é grande”, diz. “O jovem se dedica ao jogo como um profissional do futebol, que tem que se dedicar de verdade ao esporte. Fazendo isso não sobra tempo para pensar em coisas erradas”, argumenta. O jogador admite que não é ainda um craque, mas acredita que pode chegar lá. “Sempre aparece alguém se destacando. Por enquanto busco esse destaque com muito afinco”, garante.
Dividir bem o tempo é essencial
Existem muitos pais que torcem o nariz, como se diz, ao ver os filhos colados ao celular. A reprovação tem a alegação de que o tempo dedicado ao aparelho eletrônico atrapalha a vida dos filhos, principalmente nos estudos. O pensamento, no entanto, é contestado por muitos jovens, como Ronald Barbosa Garcia, de 21 anos, morador do bairro da Terra Firme. Ele garante que em nenhum momento o Free Fire, que ele pratica com assiduidade, prejudicou os seus estudos. “Terminei meu ensino médio sem nenhum tipo de problema por causa do jogo”, afirma. “Sempre soube dividir bem as coisas, tempo de estudo e tempo de jogo”, explica.

Ronald admite ser comum a insatisfação de muitos pais com a utilização de celular pelos filhos, principalmente quando se trata de games. “É uma questão pessoal. Tem jovem que não sabe separar as coisas. No meu caso, por exemplo, nunca sofri repressão de meus pais, justamente por saber o momento certo de jogar, estudar e trabalhar”, assegura o jovem, que trabalhava em um depósito de água mineral até o surgimento da pandemia da Covid-19. “Com o aparecimento dessa doença acabei ficando sem emprego”, lamenta.
Morador de uma região de Belém com alto grau de violência, Ronald conta que são muitos os praticantes do Free Fire no bairro. “São pessoas de todas as idades. De criança a pessoas adultas com boa idade”, detalha. “No tocante aos jovens, o jogo serve como uma forma de evitar que o mundo do crime e do tráfico ganhem mais integrantes”, argumenta. O jovem destaca a importância da Taça das Favelas Free Fire, que ele disputará pela primeira vez. “Como envolve jogadores de regiões periféricas, aí é que esse esporte ajuda a diminuir a possibilidade de pessoas partirem para a criminalidade”, afirma.
Ronald disputará a competição promovida pela CUFAs integrando uma equipe formada por moradores do bairro onde mora. “Com alguns deles costumo jogar. Outros foram indicados para entrar no grupo”, observa. A equipe “vem treinando forte”, como diz Ronald, para se destacar no torneio. “É a chance que temos de se destacar e participar de campeonatos mais importantes, como o Brasileiro, que rende um bom dinheiro e abre a possibilidade de ter uma vida melhor junto com a família”, argumenta.
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