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MODELOS DE SUCESSO

Amazônia e Caeté dão aula sobre como trabalhar com a base

Clubes apostam na filosofia de investir em jovens promessas do futebol paraense e, em pouco tempo de existência, conseguem chegar à elite do estadual como exemplos que devem ser copiados pelos "grandes"

quinta-feira, 30/12/2021, 22:20 - Atualizado em 31/12/2021, 11:57 - Autor: Kaio Rodrigues


Ivan Corrêa e Matheus Lima após a decisão da Segundinha
Ivan Corrêa e Matheus Lima após a decisão da Segundinha | (Foto: Arquivo Pessoal)

Quantos jovens deixam o seio familiar para buscar a sorte, apostando na mudança de vida com o sonho de ser jogador de futebol? Mas o caminho é longo e árduo. Não é fácil se profissionalizar e chegar em um clube de primeiro escalão do futebol. E, nessa estrada, a categoria de base é o maior desafio, muito porque a maioria dos clubes e profissionais encarregados possuem uma visão superficial quando se trata da formação de atletas.

O aprimoramento técnico dos garotos é primordial nesse processo. Mas também é preciso o acompanhamento social, algo bem longe da realidade do futebol no estado do Pará. Quantos atletas os gigantes da capital paraense revelaram nos últimos anos para o futebol nacional? Rony? Pikachu? A conta é baixa, mas porque Remo, Paysandu e Tuna não enxergam o potencial que há em seus jovens. Ai, Amazônia e Caeté, dois clubes novos do cenário paraense, chegam para dar exemplo aos grandes.

"Poucas pessoas sabem o que os atletas de base passam para chegar até o profissional, principalmente em nosso estado do Pará. Existe uma realidade financeira abaixo da expectativa do atleta dar continuidade nos trabalhos do dia a dia. Existem bons profissionais aqui que fazem bons trabalhos, que colocam ideias de jogo para esses atletas, mas o problema é que sofremos bastante com o calendário do futebol paraense de base. Alguns atletas jogam apenas oito jogos por ano, o que é muito pouco para mostrar o trabalho deles. É pouca minutagem para que eles cheguem ao nível ideal, a fim de fazer a transição para o profissional. Eu sempre procurei levar a sério a formação durante cada dia de trabalho, de treinamentos, procurando passar treinos próximos do que há no profissional, para que os atletas não tenham dificuldades na transição. Procuramos trabalhar bastante a parte emocional do atleta, o controle emocional para que eles possam ter um nível de jogo bastante competitivo e que a maturidade esteja elevada para encarar os desafios dentro de campo", destacou o técnico Matheus Lima, conhecido pelos trabalhos de base na Desportiva Paraense e campeão da Segunda Divisão do Paraense com o Amazônia, utilizando uma equipe com média de idade de 22 anos.

 

Sapo Doido levou a melhor na decisão e, com seis meses de profissionalização, chega à elite estadual
Sapo Doido levou a melhor na decisão e, com seis meses de profissionalização, chega à elite estadual | (Foto: Amazônia IFC)
  

Existe um gigante trabalho em uma categoria de base. Formar jogadores para proporcionar a melhor equipe, antes de qualquer negociação, deveria ser a prioridade dos clubes. Essa é a filosofia usada por Matheus e que está implantada no Amazônia. O Caeté, fundado em 2019, também não fica atrás e sabe que a fórmula para o sucesso está na base. Não é à toa que o clube conquistou o acesso à elite do Parazão de 2022 com uma equipe jovem também.

"A sociedade Esportiva Caeté trata-se de um clube-empresa e tem em como principal característica a formação de atleta. Atuando na região do Salgado, Bragança, Caeté surgiu em 2019 com a proposta de desenvolver o potencial dos talentos do Pará e especificamente da região do Salgado. Tem em seu pequeno currículo um vice-Campeonato Paraense Sub-20 e o acesso à primeira divisão do Campeonato Paraense como Vice-Campeão da Segundinha em 2021", comentou o diretor de futebol, Ivan Corrêa.

 

Caeté jogou duas vezes a semifinal da Segundinha, por conta de problemas extra-campo dos adversários e passou nas duas oportunidades
Caeté jogou duas vezes a semifinal da Segundinha, por conta de problemas extra-campo dos adversários e passou nas duas oportunidades | (Foto: Caeté)
  

Ambos os clubes possuem como objetivo potencializar os conceitos técnicos do esporte para oferecer aos jogadores a forma mais apropriada possível para o futebol profissional. Feito isso, irá possibilitar ao atleta o desenvolvimento natural das coisas. No futuro, após o processo a longo prazo, será uma das melhores maneiras de montar um time hábil, sem tantos custos, já que o investimento está sendo realizado no decorrer dos anos. 

"Desde a época no Clube do Remo, onde iniciamos os trabalhos em 2013, pude vivenciar e contribuir com a formação de alguns atletas, que hoje estão no cenário nacional, como o Rony. Depois, eu segui para a Desportiva, onde fizemos um processo bem feito por seis anos. Não só pude contribuir, mas como os atletas me ajudaram muito na minha formação profissional. A identidade que tenho com eles é grande, pois vivenciei as realidades destes fora de campo também. Sempre fui um profissional que cobrei muito deles e sempre me deram respostas positivas, que era de alcançar o sonho de ser jogador profissional de futebol. Graças a Deus fiz parte e contribuir na formação de muitos", enfatizou Matheus.

 

Walter Lima tem trabalho fundamental à frente do Amazônia
Walter Lima tem trabalho fundamental à frente do Amazônia | (Foto: Amazônia IFC)
 

Vamos citar Remo e Paysandu, que são os dois gigantes do futebol paraense em termos históricos, patrimoniais e etc. É rotineiro ver garotos da base sendo colocados em jogos quando a situação na competição não está boa ou por extremas necessidades para "tapar buraco". Muitas das vezes, esses jovens são "queimados" por ainda não estarem preparados para o profissional, seja de maneira técnica ou emocionalmente. O torcedor não quer saber se o garoto tem 18 anos, quer que responda em campo e cobra como faz com qualquer outro atleta de 30. A culpa é de quem?

"O Caeté no ano de 2020 bateu na trave, saindo na semifinal da Segundinha e não conseguiu o acesso. Mas, mesmo assim, nunca deixou de acreditar que a fórmula do sucesso é a garotada, claro, mesclado com alguns nomes experientes para dar o equilíbrio que o campeonato requer. Segundinha é tiro curto. Quem errar o mínimo chega, mas sem dúvida, a juventude foi a válvula que precisava para chegada às finais. O forte do Caeté é a base. Ela é bem trabalhada, é investimento, não prejuízo como muitos clubes vendem para se eximir do compromisso com a garotada", ponderou Ivan.

 

Equipe sub-20 do Caeté antes de um jogo do Parazão da categoria.
Equipe sub-20 do Caeté antes de um jogo do Parazão da categoria. | (Foto: Caeté)

O atual texto da Lei Pelé classifica o esporte em quatro categorias diferentes: Desporto educacional; Desporto de participação; Desporto de rendimento e Desporto de formação. Infelizmente, a maioria dos nossos jovens, que buscam se profissionalizar através do futebol paraense, estão longe dessa realidade. Entretanto, clubes como Amazônia e Caeté começam a chamar a atenção e valem ser estudados.

"O Amazônia e o Caeté são exemplos para outros seguirem. Mostramos que no Pará temos grandes valores. Atletas jovens que possuem muito potencial. O Amazônia unificou essas gerações que passaram pelas categorias de base comigo. O Caeté coincidiu de fazer um trabalho muito parecido. Conseguimos mostrar bons valores, que podem ser olhados com maior delicadeza por todos os clubes do nosso cenário estadual. Remo e Paysandu têm uma boa base, uma boa estrutura, e eu acredito que se as diretorias olhassem com maior carinho por esses atletas, com um trabalho a longo prazo, seria excelente em relação às revelações. Quanto maior o investimento, maior o número de revelações. Com bons profissionais, com a qualificação deles e com um trabalho técnico em campo e social fora, acredito que teríamos muito mais revelações de atletas", observou Matheus.

 

Metodologia utilizada pelo Amazônia
Metodologia utilizada pelo Amazônia | (Foto: Amazônia IFC)
 

"A importância de dois times como Caeté e Amazônia, como reflexo no acreditar nas categorias de base, reflete o sucesso do trabalho bem feito com a garotada, embora o mercado e os campeonatos não sejam propícios. A base sempre será o mais importante ativo de um clube", finalizou Ivan.

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