Vampiros e lobisomens. Seres sobrenaturais com séculos de tradição na literatura e no cinema sempre despertaram o medo no imaginário popular. Mas os tempos mudam. Hoje, com o fenômeno Crepúsculo, por exemplo, as suas principais características foram alteradas. Não metem mais medo em ninguém. Ao contrário, foram romantizados, domesticados.
O vampiro é uma fada: brilha, voa e vive na floresta. O lobisomem se mostra forte e impetuoso, mas todos sabem que vai perder a mocinha da história no final. Qualquer semelhança com o passado de glórias de Remo e Paysandu e o atual enfraquecimento dos clubes - que nem no âmbito regional têm o respeito e temor por parte dos adversários - é mera coincidência? Talvez, não.
A parte um do último filme da saga criada pela escritora Stephenie Meyer chegou aos cinemas nesta semana. Recordes de público sendo quebrados, fãs fervorosos em todos os cantos da cidade. Tudo estaria às mil maravilhas.
Não fossem as críticas negativas à qualidade do longa-metragem, que repetem a dos filmes anteriores para desespero da legião de defensores de Crepúsculo. Algo parecido com a torcida bicolor, por exemplo, que há cinco anos, tempo do calvário na Série C, pega no pé da imprensa – os dirigentes do Paysandu, inclusive, adoram culpar os jornalistas pelos fracassos do clube –, que divulga fatos como salários atrasados, brigas no elenco, fofocas de bastidores. Se o time ou o filme é ruim, tanto faz. Falar mal é impensável. Fãs e torcedores xiitas. Personagens que a gente vê por aqui.
E tomem efeitos especiais para disfarçar uma história ou um time fraco. No caso dos clubes, eles atendem pelos nomes de Finazzi, Josiel e similares. Um nome “consagrado” sempre é um bom chamariz, passa uma ideia de que o caminho é esse mesmo. Fora as promoções, os discursos jogando pra galera. Lotar um “estádio” pelo interior então, que maravilha... Remo e Paysandu ainda são grandes, blockbusters. Vamos respeitar esse vampiro e esse lobisomem, podem pedir os mais exaltados. Eles são sucesso de público, afirmam. Jovens. Não assistiram ou não se lembram dos inesquecíveis esquadrões de outrora: Bela Lugosi, Christopher Lee, Gary Oldman, entre os vampiros. Lon Chaney e David Naughton entre os licantropos. Não dá para competir.
Não é à toa que Bella Swan, a protagonista de Crepúsculo, precisa urgentemente de anti-depressivos. A garota tem um desejo suicida patológico. Talvez por ver que as suas paixões são tão... Ridículas. A torcida paraense ainda não chegou nesse ponto, mas se o amadorismo dos nossos dirigentes permanecer nesse estágio, esse hora não vai tardar. Remistas e bicolores são apaixonados por seus clubes, assim como as crepusculetes por Edward e Jacob. Os defendem com unhas e dentes, apesar de todas as suas falhas. Mas aqui já há uma divisão. O “Amanhecer” chega para Crepúsculo, é fato, mas um novo dia pode não chegar para Remo e Paysandu.
(Diário do Pará)
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