O mestre Nelson Rodrigues já dizia que até a mais sórdida pelada possui uma complexidade shakespeariana. Por essa lógica, uma final de campeonato teria tantos componentes dramáticos que apenas um relato épico seria capaz de narrar a rica história contida durante noventa minutos de partida. E o confronto de ontem entre Remo e Cametá atestou de maneira insofismável a veracidade desta teoria. Portanto, caros leitores, perdoem essas mal traçadas linhas, que jamais conseguirão retratar fielmente o que se passou no gramado e arquibancada do Mangueirão, que viveu mais um dia para guardar na memória.
Esqueçamos o primeiro tempo, quando a bola não tocou o fundo do barbante e a pobreza técnica dos times imperou. Vamos direto à etapa final, cuja simples proximidade do fim sempre eleva a adrenalina e causa palpitações naqueles de coração fraco. Mal a bola rolou, o “seu” juiz expulsou um jogador do Cametá por uma falta que, em seguida, culminou no primeiro gol do Remo. O curioso é que o gol foi marcado por Juan Sosa, em uma jogada ensaiada pelo treinador Sinomar Naves. Curioso porque Sinomar não é mais técnico do Remo, e sim do Cametá. Sosa cansou de fazer gol assim nas pelejas pelo interior do estado quando o Remo ainda se preparava para o Parazão, sob o comando do agora adversário.
Mas, voltando ao jogo, até ali, a torcida azulina era quem comandava a festa, que aumentou quando Fábio Oliveira fez o segundo gol. Fatura liquidada: 2 a 0 no placar, um jogador a mais. Quem ousaria supor que o Cametá arranjaria forças para reagir? Mas o futebol é uma coisa linda, amigos. A maior invenção do homem. Uma invenção, que, diga-se, vive a desafiar o seu criador e não aceita limites. É um menino travesso, que adora pregar peças.
Pobres remistas que acreditaram o jogo ter terminado naquele momento. Esqueceram que do outro lado estava um time aguerrido, lutando pelos mesmos objetivos. Sim, no plural. Pois não era apenas o título estadual em disputa. A vaga no campeonato nacional também, o que significaria emprego até o final do ano. Nunca a expressão “jogar por um prato de comida” foi tão real. Não se podia desprezar tal motivação. Quando o Cametá diminuiu a contagem numa cabeçada de Garrinchinha (que nessa hora, ao menos para os cametaenses, virou mais craque do que o anjo de pernas tortas), o muro azulino rachou.
O golpe fatal veio do jeito que os deuses do futebol gostam: uma bola parada, com a expectativa nas alturas. Torcedores de Remo e Cametá segurando a respiração. Dedos cruzados, corações apertados. Soares correu para o chute e os segundos duraram uma eternidade. A trajetória da bola foi perfeita, num toque evidente do sobrenatural, diria mais uma vez Nelson Rodrigues, e os poucos torcedores interioranos presentes no estádio tomaram para si o papel de Davi na narrativa bíblica. Agigantaram-se e suas vozes soaram mais altas e fortes do que as da massa azulina, que assistia incrédula a derrocada do seu time.
Depois de tanto sangue e suor derramados em campo, era hora do choro, muito choro. Lágrimas de tristeza para a maioria. Mas de alegria para os valentes cametaenses, legítimos campeões, cuja glória, conquistada contra tudo e contra todos, será para sempre lembrada na história do nosso futebol.
(Diário do Pará)
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