Tarde de quinta-feira, Belém, Paraíso dos Pássaros, área da CDP. Sob o sol de fim de tarde, Alex Natalino, 26 anos, corta grama do Feirinha, campinho de futebol em frente à sua casa, que se acumulava nas beiradas, com a ajuda do amigo que também costuma jogar por lá. Esperam o relógio bater 18h para a vez dos mais velhos chegar, pois, no campinho existem regras: das 14 às 18h, só “a molecada joga”. Um deles apresenta o time. Pelo menos os que ele conhece. “Eu sou o Tiago. Esse é o Paulo Vitor, esse o Lucas, aquele o Felipe e aqueles outros dois não lembro o nome”. De qualquer forma, o maior clássico do futebol de pelada ia começar: time de camisa contra time sem camisa.
A areia sobe a cada chute. O ritmo é frenético. A bola não para. As faltas, escanteios, laterais, só em caso extremo, quando ela corre demais até chegar às barracas da feira ao lado do campo, quando sai para rua ou mesmo quando passa do muro atrás do gol. Cada um quer mostrar a sua habilidade e se acha melhor do que o outro. “Ê, sai daí, que teu chute é ruim. Deixa isso comigo”, diz um dos garotos ao outro que tentava cobrar uma falta. “Essa molecada aqui é tudo ‘fominha’ de bola. Eles jogam todo dia até a hora que a gente chega”, comenta Alex, sem parar de limpar o gramado. Dele sai pedra, saco, pedaço de madeira... É tanto lixo que é preciso de ajuda dos moradores.
Tanto apreço pelo aquele campinho de terra batida tem uma explicação: há oito anos, Ferinha é o último campo de pelada do bairro. “Aqui já chegou a ter quatro campos. Mas, com o tempo, as pessoas foram tomando conta, colocando casa, invadindo e eles sumiram. Já quiseram fazer isso com esse aqui, mas a gente resiste”, revela.
A BOLA NÃO PARA
Distante dali, no bairro do Telégrafo, a areia dá lugar ao asfalto. “Aqui, eu já vi meus irmãos, sobrinhos, jogando bola nessa rua, quando ela ainda nem era asfaltada”, diz dona Neide Maia, 78 anos, moradora do Telégrafo há 55 anos. Hoje, ela assiste ao bisneto Cayo jogar bola com os amigos.
Lá, o bisneto de dona Neide se reúne com Rafael, Yan, Junior, Vinicius e Oziel para armar as travinhas de garrafa pet. Descalços, eles dão ritmo à tarde. Assim, como no campinho da Feirinha, ele também é intenso. Nem tanto por causa dos carros. “Eu gosto de olhar eles jogando aqui. A gente só fica preocupada com os carros. Mas, como não tem nenhum outro lugar, tem que ser aqui mesmo para eles brincarem”, conta dona Neide. Mas, fora isso, a bola só para por dois motivos: ou quando entra na caçamba de algum carro estacionado ou quando bate na casa daquele vizinho mais nervoso.
Durante dois dias, a equipe de reportagem do Bola percorreu diversos bairros da Região Metropolitana de Belém e constatou uma realidade: cenas como o do campinho da Feirinha estão cada vez mais raros em Belém. O motivo para eles estarem desaparecendo é o mesmo.
“A cada ano que passa, a cidade cresce de maneira desordenada, sem planejamento, sem o poder público para organizar. A tendência é ocupar qualquer espaço vago”, explica Juliano Ximenes, arquiteto-urbanista da Universidade Federal do Pará. Mas ainda há quem prefira resistir às arenas fechadas, aos videogames e à falta de espaço. “Se acabar isso aqui um dia, não sei como vai ficar nossa diversão. É melhor nem pensar”, comenta Alex. “Preferimos jogar na rua do que ficar no videogame”, garante Cayo. Tudo em nome da verdadeira essência da bola: o futebol de pelada.
(Diário do Pará)
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