A indústria do futebol sempre foi responsável por grande movimentação de dinheiro. Trocas, vendas, empréstimos e diversas outras transações realizadas na famosa “janela” de negociação são as principais responsáveis pelo afastamento do que os fãs mais saudosistas chamam de futebol moleque, de várzea ou simplesmente o bom e velho futebol arte. Essa imagem pejorativa aumentou muito nos últimos anos, com o crescente número de clubes comprados por xeiques e seus petrodólares ou por alguns dos diversos bilionários da Rússia e países adjacentes.
Mas nem tudo está perdido para quem sente falta do amor à camisa e o clubismo de craques na era moderna. Mais recente exportação brasileira para a Europa, Neymar foi o ápice da discussão sobre a permanência de jogadores no Brasil e a venda prematura de craques. Após quatro temporadas jogando no Santos, o garoto de apenas 21 anos já tinha sido elevado ao topo da cadeia alimentar do futebol nacional. Não foi sem razão que clubes como Barcelona, Real Madrid e Bayern de Munique vieram com todas suas economias dispostos a tirar o rapaz do litoral santista.
Neymar pode ter ido jovem, mas deixou um legado no Brasil. A referência para o tempo em que jogadores passavam em clubes nacionais começou a ser contestada e pode ser o sinal de um cenário nacional mais forte que sabe manter seus astros.
No Pará, conhecido pela falta de esmero com que os clubes tratam suas bases, o futebol já revelou diversos bons jogadores para o Brasil. Infelizmente, a estrela desses jogadores só brilha forte quando deixam suas terras. Buscando entender a que passo anda o futebol de base paraense, o Bola foi em busca daqueles que são o futuro e esperança de um novo cenário local.
‘GERAÇÃO PLAYSTATION’
Resultado da popularização dos canais por assinatura e do aumento de procura pelo futebol de fora, hoje o brasileiro fã da redonda vive uma nova situação. Chamados de “geração Playstation” pelos mais retrógados, os garotos de hoje em dia não precisam mais ver Corinthians e Flamengo para saber quem é seu ídolo. Ao apertar de um botão, eles podem ver Manchester United, Barcelona, Lyon, Chelsea e Real Madrid. Integrante dessa geração, o jovem Giovanni Silva cresce assistindo aos campeonatos da Europa, enquanto veste suas chuteiras para defender o Clube do Remo nos torneios de futsal do Estado.
Trajando o uniforme do ídolo, Lionel Messi, Giovanni permanece sentado e quieto em sua cadeira, mas é só perguntar sobre futebol que o garoto logo se anima. Apesar de apenas nove anos de idade, o menino sabe do que gosta e do que quer para o futuro. Quando questionado sobre que time ele gostaria de jogar, Gigio, como é chamado pela família e amigos, não tem dúvida nenhuma. “Eu queria jogar no Manchester United, ou o Barcelona, ou o Real Madrid ou o Porto”, afirmou.
Vontade é de ser craque, mas estudo vem na frente
A fascinação pelo time de Manchester é tão grande que serve até como motivação para o pequeno Giovanni Silva ir ao curso de inglês. “Tem dia que ele me diz que não quer ir pra aula de inglês, aí eu pergunto como ele quer jogar no Manchester se ele não souber falar inglês? Num instante ele se arruma e vai pra aula. Volta feliz”, revela o pai do menino, José Wilson.
A educação é muito importante na casa de Giovanni. Para os pais, o futebol é secundário, a prioridade deve ser nos estudos. “Ele adora futebol, mas só pode jogar se apresentar boas notas. E nisso ele também é muito bom, sempre chega com o boletim com 10. É um menino inteligente e esforçado”, disse o pai orgulhoso.
O fato de pertencer a uma geração que cresceu com os videogames só trouxe benefícios para Gigio, que busca repetir os feitos do videogame na vida real. “Ele fica treinando uns lances que ele gosta no Playstation e depois vai pra quadra e imita o que ele fez. Mesma coisa quando ele fica no computador ou no Ipad vendo as jogadas do Messi. Ele vê e imita”, diz José Wilson.(R.S.)
É preciso ‘paitrocínio’, talento e sorte
Mesmo para quem gosta de futebol e tem talento, o caminho para se tornar profissional na área é cheio de obstáculos que acabam muitas vezes tirando até os mais entusiasmados dessa trilha. O garoto Giovanni Silva é um exemplo do que os mais jovens têm a oferecer. Atualmente no time Sub-9 de futsal do Clube do Remo, o menino sonha em um dia ser profissional e jogar do lado de Messi e Neymar, mas aqueles que mais deveriam ajudar o caminho para isso são os que mais atrapalham. Sem condições de manter base, os times dependem de pais prestativos pra poder contar com times juvenis.
Hoje, o Remo conta com pais que pagam as despesas dos filhos para poder ver as crianças jogarem como federados. “Nós que bancamos o material e tudo para o Giovanni, o Remo entra com a marca, que serve para federar o time, tornar isso profissional”, revela José Wilson, pai do garoto.
Mas se engana quem pensa que o time funciona apenas na base de pais bancando os filhos. Existe um processo seletivo pelo qual os garotos têm de passar para garantir vaga. “Tem muito pai que quer pagar pro filho entrar na escolinha, mas não é assim que funciona. Tem garotos que não tem como bancar, mas se eles forem bons em campo e na sala de aula, são mantidos no time”, conta a mãe de Gigio, Thelma Reis.
Apesar da preocupação com a educação do garoto, o pai de Giovanne, José Wilson, não nega que o mundo do futebol profissional é tentador. “Claro que um jogador muito bom pode ganhar às vezes muito mais do que qualquer estudo. Mas é importante formar não só um bom jogador, mas um bom homem e um bom cidadão. Se ele se formar no ensino médio e preferir o futebol à faculdade, a escolha é dele”, afirma o pai.
(Diário do Pará)
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