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ESPORTE PARÁ

Esporte em Belém é para poucos

Com aproximadamente 1,4 milhão de habitantes, espalhados por 68 bairros e oito distritos administrativos, Belém é a cidade com a maior população da região Norte, segundo o IBGE. Ainda que tenha a ambição de receber centros de treinamento para as Olimpíada

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Com aproximadamente 1,4 milhão de habitantes, espalhados por 68 bairros e oito distritos administrativos, Belém é a cidade com a maior população da região Norte, segundo o IBGE. Ainda que tenha a ambição de receber centros de treinamento para as Olimpíadas de 2016 e Copa do Mundo de 2014, a prática do esporte cotidiano não é incentivada entre seus moradores.

O espaço público voltado para a prática do esporte é muito restrito. Enquanto as imagens do Mangueirão lotado em dia de Re-Pa impressionam, o bate-bola cotidiano dos cidadãos muitas vezes ocorre de forma improvisada em áreas abandonadas, ou pior, no meio das ruas, disputando espaço com os carros e deixando de promover a saúde e bem-estar para gerar riscos à integridade dos participantes, aos transeuntes e problemas no já caótico trânsito da cidade. Uma situação que revela diversos outros problemas.

E a dificuldade não é só dos boleiros. Não raro encontramos ciclistas em meio aos carros no trânsito, pessoas praticando a corrida em calçadas esburacadas e em meio aos pedestres, skatistas desviando dos buracos e matos em pistas abandonadas. “Há uma falta geral de espaços para a prática do esporte. A gente praticamente não vê espaços poliesportivos e esses seriam fundamentais para a população” afirma Herondina Oliveira, graduada em Educação Física pela Uepa e que trabalha atualmente como personal trainer e avaliadora física em duas academias da cidade.

Herondina critica a forma como os projetos para a área do esporte público têm sido levados em Belém. Ela afirma que as várias academias a céu aberto, levantadas em avenidas pela cidade, são prejudicadas pela falta de orientação de profissionais. “Por não haver um projeto de apropriação pela população, vemos alguns desses espaços abandonados e depredados. Outra situação que ocorre é a população começar a fazer atividade física por conta própria, sem avaliação, e com isso comprometer a sua saúde, agravando problemas com cargas erradas de exercício ou atividades inadequadas”, define.Mesmo nos espaços construídos para a prática poliesportiva, como o estádio Mangueirão, que desde sua reforma está apto a receber atividades de atletismo, Herondina aponta dificuldades para a utilização pelo povo. “O estádio é pouco utilizado para treinamento dos atletas de outra modalidade que não o futebol. Alguns projetos para a prática de outras modalidades, abrigados no espaço, são obrigados a encerrar atividades cedo, no final da tarde, pela falta de segurança no entorno do estádio”, pontua.

Pesquisadora aponta segregação

O artigo “Os Espaços e Equipamentos de Lazer das Cidades: O Caso de Belém” da professora doutora Mirleide Chaar, defendido em 2008 no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da UFPA, uma das maiores referências em pesquisas sobre a Amazônia do País, apontou que a disposição dos espaços para atividades físicas têm se concentrado nos bairros nobres da cidade, o que tem deixado a pratica esportiva na cidade com uma feição elitizada.

A pesquisa de Mirleide aponta a substituição da prática esportiva em espaços públicos pelo espaço privado, como academias, arenas e clubes particulares. A opção por essa mudança se dá, entre outros motivos, pela pouca disposição de parques e áreas verdes, o sucateamento dessas e crescimento de criminalidade e violência, o que leva a busca pela troca dos espaços públicos, perigosos, pelos privados, seguros.

“Esses espaços acabam reforçando as diferenças, distanciando as realidades sociais e criando um falso direito de livre circulação; já que na realidade são espaços que só quem pode comprar usufrui da melhor forma, do contrário, não consegue fazer parte” afirma a pesquisadora.

Mirleide aponta outro efeito nocivo nessa troca do espaço público pelo privado. “A tendência é de que os indivíduos desenvolvam a mentalidade de clientes, sentindo-se como ‘consumidores dos espaços públicos’, não se dando conta de seu compromisso com os problemas de sua cidade”, aponta a pesquisadora.

“Os bairros com melhor distribuição de praças por habitantes são a Campina, Cidade Velha e Souza. Com a pior distribuição estão o Guamá, Benguí, Pedreira e Pratinha. Não por acaso, os bairros com déficit ou falta de áreas de lazer também concentram os casos de violência urbana em Belém” observa a pesquisadora.

Vereadores e cartolas, Pirão e Vandick lamentam

Vereadores, ex-desportistas e gestores do esporte. Como os atuais presidentes de Remo e Paysandu enxergam a situação atual do esporte na cidade de Belém?

Zeca Pirão, presidente do Remo, afirma que “seria um sonho” que cada bairro, ou pelo menos cada distrito, tivesse espaços poliesportivos para a população. “Acho que o esporte é o grande saída para a juventude. Colocar crianças e jovens para praticar em turno contrário às aulas é uma forma de elas desenvolverem seus talentos e promoverem saúde. Pena que as gestões municipais não vinham tendo essa visão”, comenta, acrescentando que tem procurado conversar com o atual prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho, sobre projetos para a construção de centros esportivos pela cidade.

Zeca diz que não é muito adepto da política de projetos. “Se não há boa vontade do outro lado, você faz e apresenta projetos e fica por isso. Eu trabalho mais com o convencimento da importância dos colegas e gestores, para a partir daí propor projetos. Projetos de esporte mesmo não apresentei muitos, mas sempre discuti o tema na Câmara (de Veradores)”, afirma o presidente azulino. Pirão diz ter planos para, através da reforma do estádio Baenão, aproveitar o local para prática de esportes e projetos educacionais com crianças.

Já o presidente do Paysandu e vereador de Belém, Vandick Lima, não esconde que um dos principais eixos de seu mandato é o esporte. “Meu trabalho mais marcante como vereador, para mim, foi o projeto de reforma do ginásio do Paysandu. Em contrapartida às verbas de reforma, foi instalado um programa esportivo e hoje temos cerca de 300 crianças que praticam basquete e futsal naquela quadra”, informa.

Vandick comenta que o tema do esporte, infelizmente, é pouco representado em nível municipal. “Há defesa de muitos interesses mas pouca gente está realmente interessada. Para aprovar um projeto que beneficie o esporte, há grande resistência”. Vandick acredita que ainda é cedo para comentar a atuação da Secretaria Municipal de Esporte, Juventude e Lazer (Sejel).

“Ela foi criada há pouco tempo pela prefeitura, então ainda não teve tempo de realizar muitos projetos. Espero que ela faça um investimento em centros de formação de atletas, para que mais jovens pratiquem o esporte”, diz o presidente bicolor.

Sejel reconhece problemas

O coordenador de esportes da Secretaria de Esporte Juventude e Lazer de Belém, Lucas Paz, faz coro às críticas apontadas por quem vive na capital.

“Se hoje temos essa situação de pessoas jogando futebol no meio da rua, ciclista em meio aos carros, é porque temos um grande desafio pela frente na Secretaria. Infelizmente a realidade dos espaços para prática de esporte hoje é muito ruim”, reconhece.

“As quadras poliesportivas do Portal da Amazônia, menos de dois anos após sua inauguração, já se encontram rachadas”, disse o coordenador.

No cargo há sete meses, Lucas Paz afirma que há uma defasagem grande na parte estrutural e que uma das formas de enfrentamento dessa dificuldade é através de parcerias com outros órgãos e a comunidade. Segundo ele, outra via para o enfrentamento é mais complicada, e passa por um diálogo com outras secretarias. “A falta de espaço para ciclistas não é um problema exclusivo para a Secretaria de Esporte, pois as bicicletas também são um meio de transporte, então a questão envolve a estrutura de locomoção da cidade. Temos procurado realizar reuniões multidisciplinares com a Amub, federações esportivas, ONGs e outros grupos que representam o esporte e temos procurado soluções que tragam benefícios a todas as partes”, justifica Lucas.

(Diário do Pará)

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