Foi uma partida dura, com muitos lances de perigo e jogadas ríspidas, que resultaram em 10 cartões amarelos e 3 expulsões, mas na vontade, na garra e na categoria os atletas do time sub-20 do Clube do Remo suplantaram os amazonenses do Holanda e conquistaram o primeiro título do futebol azulino em 2013, a Copa Norte de Futebol Sub-20. O time venceu por 2 a 1, com gols de Jayme e Sílvio, para o Remo, e Daniel para o Holanda. Para os torcedores que compareceram ao Mangueirão nessa manhã de dia dos pais, não importava se era um título das divisões de base, o importante era mais uma vez ver o Leão levantar uma taça e fazer a alegria de seus torcedores que desde 2008 não veem o time principal repetir esse ritual.
O primeiro tempo começou quente. Com apenas um minuto Tsunami emendou com chute forte de fora da área, em rebarba de lance de Jayme. Aos 5, o Holanda respondeu com Jemerson, que chutou com perigo de fora da área. As equipes se alternavam em chances no ataque quando, aos 25 minutos, o Leão abriu o marcador em um golaço de Jayme – recebeu a bola, se desmarcou e chutou de muito longe acertando o ângulo superior esquerdo do goleiro Douglas. O gol mexeu com os brios do Holanda, até então disperso, que passou a atacar mais, expondo as falhas na defesa azulina. Numa dessas, Daniel recebeu sem marcação na entrada da área e o zagueiro Raí, chegando atrasado, fez falta sobre ele dentro da área. Pênalti. Daniel cobrou com tranquilidade no canto direito de Jader e empatou o jogo, aos 38.
No segundo tempo o Remo voltou com Rodrigo no lugar de Alexandre e uma nova postura em campo, mais ousada e ofensiva. Aos 2 minutos, Rodrigo apareceu com um chute de fora da área que animou a torcida. Aos 10 e 12 Jayme apareceu com perigo, mas foi aos 15 que saiu o gol que definiu a partida. Jayme se lançou na linha de fundo e cruzou para a área do Holanda, Sílvio apareceu e acertou uma “raquetada” na bola, virando o jogo e levando a torcida ao delírio.
A partir daí os nervos passaram a jogar contra a equipe amazonense. O técnico Marcelo Giroski colocou o time inteiro no ataque mas, nervosa, a equipe criava pouco e fazia muitas faltas. O jogo violento acabou culminando com a expulsão do artilheiro Daniel e do próprio técnico por reclamação. O Holanda voltou a pressionar após a expulsão do zagueiro azulino Ian, aos 40 minutos, mas o Leão estava bem posicionado na defesa e não houve tempo para tentar mudar a história do jogo.
Após o apito final, a alegria dos garotos
Após o final da partida, os meninos, apesar de tanta correria embaixo de um sol escaldante, corriam alegremente comemorando a conquista. Um dos mais animados era o atacante Jayme, tido como grande promessa azulina mas que nunca gozou de grandes chances na equipe principal e viveu seu melhor momento, ironicamente, eliminando o Remo do Parazão desse ano pelo Paragominas. “Fico feliz. Foi aqui que eu me formei e eu sempre quis levantar um troféu para a torcida azulina”, disse o atacante.
O volante Tsunami, que retornou ao clube após batalha judicial antes do início da competição não poupou palavras. “Fomos guerreiros! O cara que batalha, que luta, o resultado aparece. Estamos aí, campeões do Norte! Isso é pra mostrar que esses atletas têm chances de jogar pelo profissional”, desabafou. O atleta, que nunca tinha conquistado títulos pela base azulina antes de se desligar resumiu de forma simples a situação. “Saí daqui sem títulos. Mas eu voltei, de uma forma um tanto complicada, e isso acabou. Agora é só alegria!”, brincou.
Um verdadeiro herói. Dentro e fora dos gramados
O herói do título da Copa Norte Sub-20 é um jovem de 19 anos que, antes de qualquer esforço para superar a zaga do Holanda, dá dribles espetaculares só para continuar treinando. O atacante Sílvio, reserva da equipe azulina é morador do município de Barcarena e todo dia enfrenta uma trajetória tortuosa até o estádio azulino. “Todo dia eu acordo às 5 da manhã para pegar a balsa das 6 e viajo para poder treinar às 9. Quando dá meio-dia, depois do treino, às vezes não tenho sequer um prato de comida pra almoçar antes de pegar a balsa das 13 horas e voltar pra casa”, desabafa Sílvio.
A vida de Sílvio é de humildade. A mãe vende perfumes, o pai é pescador. O próprio jogador trabalhou durante algum tempo em uma padaria para poder ajudar em casa. “Trabalhei com panificação por um tempo, mas não deu muito certo. Até cortei o meu dedo antes de parar e apostar no futebol”, relata Sílvio que garante que nunca pediu 1 real que fosse para os pais para jogar futebol. “Eu sei o quanto eles dão duro e nunca ousei pedir algo mais a eles. Eu espero poder devolver pra eles o que eles investiram em mim”, comenta.
Às vésperas da decisão, outra dificuldade que apareceu no caminho do atacante foi uma lesão no braço. “Desloquei o ombro na última partida. Doía, o técnico nem sabia se ia poder contar comigo. Mas ontem o presidente Pirão me levou a um médico, ele ajustou e eu, graças a Deus, pude ir a campo e deixar minha marca”, comemora.
O futebol ainda não é uma garantia para a vida do jovem, que sequer tem contrato assinado com o Clube do Remo. Mas Sílvio não desanima. “O Pirão disse que deve me chamar para assinar contrato esses dias, seja o que Deus quiser. Eu não boto dificuldades, enquanto puder vou lutar para jogar e viver do futebol. Agora tudo que eu quero é dedicar essa conquista para os meus pais e essa torcida maravilhosa que tanto sofreu antes”, finalizou Sílvio.
(Diário do Pará)
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