A década de 1970 que foi marcada por dois tricampeonatos estaduais do Clube do Remo, sendo um deles invicto, foi a mesma que teve nomes inesquecíveis dentro do Leão. Um desses nomes viveu um dilema entre a paixão pelo futebol e a paixão pela medicina. Aderson Lobão, que em menos de 10 anos de carreira no futebol viveu um dos maiores auges do Remo e na década seguinte no Flamengo, além de ter dividido o gramado com jogadores renomados como Aranha, Alcino, Bira, Zico, Júnior, Tita...
Aderson disputou um dos jogos mais importantes da história azulina: o famigerado 2 a 1 sobre o rubro-negro do Rio de Janeiro, em pleno Maracanã em outubro de 1975. O ex-volante se desdobrava para realizar sonhos. Quando trocou o Ex-Combatentes pelo Remo em 72, dividindo a vida acadêmica com a vida em campo, mal saía da sala de aula e ia direto para os treinos do Leão.
“Era para eu me formar em seis anos. Me formei em sete. A minha mãe bem que falava: ‘Meu filho, se esse negócio de futebol tiver atrapalhando seus estudos é melhor você dar um tempo’. Mas o tempo foi passando e eu fui levando. Acabei prejudicando minha vida acadêmica. Quando viajava, por exemplo, perdia prova. E, ao final do curso, não tinha uma vida hospitalar e precisava me tornar médico. Quando o time estava no auge mesmo, eu resolvi me dedicar à faculdade por medo de não conseguir mais conciliar. Eu realmente precisei escolher naquela época”, revela Lobão.
O ex-jogador relembra dos bons momentos vividos no Leão e no Flamengo, mas afirma nunca ter se arrependido da escolha que fez. Aderson ficou de 72 a 79 no Remo e quando resolveu “encerrar” a carreira no clube paraense foi para o Rio de Janeiro tentar acompanhar a esposa que fazia mestrado e também fazer prova para residência médica. Passou, e fez da Terra do Cristo Redentor a casa dele. “Quando fui para o Rio a minha menor pretensão era voltar a jogar futebol, quando eu vi surgiu o convite para jogar no Flamengo em 1980, e eu não pensei duas vezes”.
Os ex-jogadores entrevistados para esta série geralmente reclamam sobre os salários pagos naquela época para jogadores de futebol, e com Aderson aconteceu diferente. O ex-atleta vibrava por receber qualquer quantia que fosse apenas por estar jogando futebol. “Eu achava incrível as pessoas me pagarem para eu jogar bola. Claro, não dava para comprar um apartamento, mas dava para muitas coisas. Eu conheço ex-companheiros de campo que ganharam muito dinheiro, mas também gostavam de esbanjar”.
Quando se formou, Aderson ainda quis voltar a trabalhar com futebol, mas se decepcionou quando viu o outro lado da realidade. “Quando voltei a morar em Belém, até para estar ligado ao futebol, tentei ser médico do Remo ainda em 83. Para começar eles mal pagavam o médico. O especialista que tinha que arrumar as consultas, remédios, consultas para os filhos dos jogadores e o clube não dava muita estrutura para o jogador e para eu não me aborrecer com o clube que eu gosto, era melhor eu me desvincular sem muito desgaste”, relembra.
(Diário do Pará)
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