O fenômeno da violência no futebol é bem antigo, mas um fator aumentou ainda mais os riscos que envolvem uma partida. É unânime que o advento das organizadas trouxe novos contornos a essa violência e que as ações em grupo as têm levado a ser comparadas, constantemente, com gangues. Para o senso comum, fica a imagem de vilã para essas instituições, que carregam a fama, na maioria das vezes merecida, de afastar o torcedor que vai ao estádio só pra brincar e curtir o jogo com sua família, transformando o espetáculo do futebol em um deprimente campo de guerra.
Alguns pesquisadores, no entanto, acreditam que a situação deve ser analisada por outro foco. “As organizadas permitem que uma pessoa seja reconhecida como parte de um grupo, além de proporcionar inserção social, algo que o governo não faz. O jovem sem espaço para brincar, se distrair e para consumir cultura acaba procurando as torcidas para ter isso”, afirma o psicólogo Júlio Pimenta.
Apaixonado por futebol, Júlio entende que a violência atrelada às torcidas tem ligação direta com o ambiente onde esses torcedores violentos crescem. “Quando uma pessoa cresce em uma realidade de privação de direitos e legitimação da violência como forma de afirmação, ela leva essa lógica para suas ações dentro do grupo. As pessoas que cometem crimes dentro das torcidas organizadas são as mesmas que cometeriam fora dela”, define Pimenta.
O pesquisador ainda identifica nas causas para o crescimento da violência nos estádios as mesmas da violência cotidiana. “Quando você apoia cegamente um clube e passa a ver quem é ligado a outros clubes como inimigos, a manifestação violenta passa a se tornar uma forma de afirmação pessoal”.
Júlio entende que as organizadas têm um papel importante dentro do espetáculo com seus cantos de incentivo, bandeiraços, baterias e outras manifestações que tornam um jogo um espetáculo similar ao carnaval, mas é preciso utilizar de inteligência para coibir a violência. “Dentro das próprias torcidas os torcedores violentos são uma minoria, então é importante que os dirigentes das instituições sejam mais rigorosos ao aceitar membros e mais vigilantes no comportamento destes, cooperando com a polícia para separar e punir os membros mal intencionados. Pelo bem do espetáculo e sua própria subsistência, acho que eles deveriam tomar essas ações”, define Pimenta.
Garantir segurança é tarefa árdua
Organizar a segurança de jogos de futebol em Belém tem se tornado ato complexo. O esquema de segurança para a realização dos últimos duelos da dupla Re-Pa chegaram a envolver 1,3 mil policiais militares, o que equivale à 10% do total da frota do Estado – 13 mil policiais. Se dentro dos estádios a incidência de confrontos e problemas envolvendo as duas torcidas realmente diminuiu, não há como impedir a violência que se constrói no cotidiano, em zonas afastadas da praça de esporte e que muitas vezes nem tem relação com o jogo em si.
“As rixas entre torcidas de Remo e Paysandu lembram os embates entre fanáticos religiosos – qualquer motivo fútil se torna motivo para matar”, afirma o delegado da Delegacia do Jurunas, Newton Nogueira.
O promotor público Domingos Sávio observa alguns progressos nessa luta contra a violência, como a instalação do Juizado Especial do Torcedor no estádio do Mangueirão e a cooperação das torcidas organizadas em dialogar com o MP, mas alerta que não há saída mágica para o problema. “É uma questão complexa de se lidar. Não há uma ação isolada que resolva o problema da violência, porque o futebol acaba se tornando uma justificativa para uma violência que talvez ocorresse de outra forma. Para acabar com a violência nos estádios, é preciso enfrentar a violência da sociedade”, diz Sávio.
Verdadeiro torcedor se retrai
Cláudio Coutinho, 24 anos, costuma ir aos jogos do Remo com os pais, mas para fugir da violência, os dois só assistem os jogos das cadeiras. Waldir Chaves, 60, é Paysandu e ainda frequenta as arquibancadas da Curuzu, porém, para evitar as brigas e confusões, escolhe os jogos de menor apelo para ver no estádio, acompanhando os demais pelo rádio ou televisão. Como Cláudio e Waldir, a maioria dos torcedores não ignora o tema da violência no entorno do futebol. Apesar de serem de gerações diferentes, ambos são favoráveis às provocações e brincadeiras, mas contrários à agressão.
Artur Seabra, 29, chega a viajar em caravanas para acompanhar os jogos do Paysandu, lado a lado com torcedores mais exaltados, mas se diz completamente avesso às brigas. “Não tem nada a ver procurar briga com o adversário. Nem em Belém, nem fora. Se começa algum movimento nesse sentido nas arquibancadas, eu procuro logo me afastar. Estou aqui pelo Paysandu e só por ele”, disse o torcedor.Se por um lado o torcedor não é obrigado a conviver com as confusões e brigas da torcida, as pessoas que fazem o futebol não tem essa alternativa. “É claro que incomoda essa situação. É o nosso ambiente de trabalho e estamos sujeitos a todo tipo de abordagem do torcedor. Somos figuras públicas e somos muito visados. Quando as vitórias não vem, a gente até procura se reservar um pouco, porque sabemos que alguns torcedores exageram na cobrança”, afirma o volante bicolor Zé Antônio.
O técnico Arturzinho faz coro que preferia um futebol sem violência e afirma que é necessário jogo de cintura para lidar com o torcedor. “O torcedor é paixão, é a razão de ser de cada time. Você precisa saber levar a cobrança que ele te faz, desde que não extrapole”, afirma, citando a invasão de campo por torcedores antes do jogo contra o Sport.
(Diário do Pará)
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