Há três anos no cargo de auxiliar-técnico do Paysandu, Rogério Soares Gameleira, o Rogerinho, 47 anos, acompanhou de perto a derrocada bicolor na Série B do Brasileiro, cujo desfecho foi a volta do time à Terceirona em 2014. O ex-jogador, antigo ídolo da Fiel, esteve ao lado dos treinadores que passaram pela Curuzu este ano: Lecheva, Givanildo Oliveira, Arturzinho e Vagner Benazzi. Portanto, conhece na palma das mãos os motivos que levaram, dentro de campo, o Papão a desastrosa campanha. Um dos pontos falhos apontado por Rogerinho foi a não valorização de alguns dos jogadores da base do clube, ontem aproveitados lançados por ele no jogo com o Sport-PE.
Mas não foi apenas o desprezo dado a garotada que causou o rebaixamento da equipe, na avaliação do auxiliar-técnico. Sem guardar segredo, o ex-jogador diz que muitos jogadores trazidos pelo clube não estavam à altura das tradições do Papão. “Esses jogadores também não estão acostumados a sentir a pressão de uma torcida de massa como a do Paysandu”, acrescentou. Questionado sobre a queda de produção do meia Eduardo Ramos em relação ao Estadual, quando o atleta chegou a ser chamado de “maestro”, Rogerinho acredita que a proposta que recebeu do Remo mexeu com a cabeça do atleta. Já o entrevero entre o volante Vanderson e o ex-treinador Arturzinho, na opinião do auxiliar-técnico, não chegou a desestabilizar o grupo. Leia a seguir trechos da entrevista dada por Rogerinho, minutos após o treino de quarta-feira à tarde, na Curuzu.
A queda do Paysandu parece ser irreversível. O que fazer em 2014 para o time voltar, no ano seguinte, a Segundona?
A diretoria já está fazendo o planejamento. Em minha opinião, tem jogadores da base que possuem totais condições de compor o grupo principal do Paysandu. Esse seria, na minha visão, um quesito que não deve faltar a esse planejamento. É uma garotada que precisa ser olhada com mais carinho. O Pikachu e o Pablo, exemplo de que o clube pode ter bons jogadores olhando para as divisões inferiores. Mas o elenco não pode ser formado só pela garotada. Tem de trazer gente de fora, mas essas contratações têm de ser feitas com muito critério. Quem vier tem de ter um bom nível. Uma boa comissão técnica, formada por um treinador qualificado e assistentes conhecedores, pode administrar bem esse material humano.
Você acha que os treinadores que passaram este ano pela Curuzu não deram a atenção devida à base do clube?
Com toda a certeza. Tem jogador cria do clube que poderia ter disputado a Série B e feito um bom papel. O Caio, por exemplo, é um deles. É claro que não se pode pegar o garoto e colocar logo de cara em jogos difíceis. É preciso ter paciência e ir colocando o atleta aos poucos. Assim ele vai ganhando cancha. O Araújo é outro que poderia ter sido melhor observado e não foi. O Caio até estava no grupo, mas foi pouco utilizado. Sobre isso já conversei com o Vandick (Lima, presidente). Uma das primeiras coisas que recomendei a ele foi subir, no mínimo, uns cinco jogadores da base para compor o grupo de profissionais.
Você chegou a tratar dessa questão com os treinadores que estiveram, este ano, no comando do time?
Sempre passei isso para todos eles. É claro, por uma questão ética, evitei forçar a entrada dos garotos no elenco. Mas sempre falei aos técnicos sobre os jogadores interessantes que estavam na base e poderiam ser aproveitados. Também falei sobre jogadores de fora do clube, mas daqui mesmo da nossa região que poderiam ser aproveitados. Procurei ajudar da melhor maneira possível, mas cada um tem a sua ótica no futebol. Eu tenho a minha e os treinadores a deles.
O Eduardo Ramos no Estadual foi um jogador que ganhou o apelido de maestro por conta de sua categoria, mas no Brasileiro não conseguiu reger quase nada. Você? A proposta que ele recebeu do Remo mexeu com a cabeça do atleta?
Não sei se mexeu. Mas, posso dizer que esse tipo de coisa acaba atrapalhando sim. O jogador acaba perdendo o foco das necessidades da equipe em que ele está atuando e começa a pensar desnecessariamente como será no futuro clube. Surgiram muitos boatos sobre a ida dele para o Remo e, todo mundo sabe, aqui em Belém a rivalidade é muito grande. O torcedor cobra muito. Não tem como o jogador fugir da cobrança. Em qualquer lugar que ele for vai ser sempre questionado. Não tem jeito. Acho que isso influenciou sim no desempenho do atleta. Mas tem também a questão do coletivo. Ele sozinho não poderia fazer nada. Um time precisa de, no mínimo, uns três jogadores para ter um diferencial.
O desentendimento do Vanderson com o Arturzinho atingiu o grupo e prejudicou o aproveitamento da equipe em campo?
Posso assegurar que não tumultuou em nada. O Arturzinho estava de saída. O que aconteceu foi que os jogadores estranharam o ritmo de trabalho do treinador. Ele é um técnico diferente do Givanildo (Oliveira, que antecedeu Arturzinho no cargo). Os treinos dele tem ritmo mais forte e os jogadores não estavam habituado a isso, pois o Givanildo é um técnico um pouco mais lento. No momento da troca de treinador, o grupo sentiu um pouco sim, não dá para esconder. Foi preciso uma conversa, um pedido para que o Arturzinho fosse mais maneiro no comando do time. Essa conversa deu certo, tanto é que ficamos, se não me engano, duas rodadas fora da zona de rebaixamento com o Arturzinho.
Como foi para você, um ex-jogador com tantas conquistas no Paysandu, como foi assimilar a queda?
Foi difícil e muito triste. O Paysandu é um clube que realmente eu gosto muito e, por isso, quero vê-lo sempre em condições melhores. Sou um profissional do futebol, mas tenho um apego muito grande a este clube. O Paysandu tem uma torcida que eu o admiro e ela me respeita muito, esteja eu onde estiver. O sentimento que ficou foi de muita tristeza. Tenho dois acessos com o Paysandu para a Série A (1991 e 2001) e não poderia ser diferente.
O Vandick admitiu, dia desses, que pecou nas contratações, trazendo para a Curuzu gato por lebre, você concorda?
Sem dúvida, os jogadores que vieram em sua maioria não apresentavam a qualidade exigida para jogar no Paysandu. Foram muitos os jogadores que vieram sem reunir as mínimas condições de jogar pelo Paysandu. Não vou citar nomes, pois não fica muito bem. Qualquer torcedor e aqueles quem estão aqui na Curuzu no dia a dia, como eu, viram que foram jogadores desqualificados e sem a menor condição de vestir a camisa do Paysandu. Isso, inclusive, foi um fato preponderante para a queda do time. É evidente que o erro não foi do Vandick. Todo mundo contribuiu para isso. É muito fácil, na hora que perde encontrar um judas para apedrejá-lo. Evitar esses erros na próxima temporada é fundamental.
Você concorda com aqueles que dizem que as cobranças dos torcedores serão maiores em cima dos jogadores que ficarem para a temporada de 2014?
O atleta tem de estar preparado. Tem gente no grupo que restou, depois das liberações, que possuem qualidade e condições de assimilar bem as cobranças. O Jailton, o Zé Antônio, Fábio Sanches tem esse perfil.
Dessa garotada da base que você conhece tão bem, qual aquele que você apostaria como sucesso já em 2014?
Temos uns três, quatro jogadores que podem estourar. Mas o Caio, sem dúvida, é aquele que reúne, na minha ótima, as maiores possibilidades. O estilo de jogo deles me faz pensar assim. O Caio tem um estilo de jogo clássico. Dificilmente ele erra um passe, chega a linha de fundo e cruza com perfeição. É um jogador, com toda a certeza, para atuar em equipes de primeira linha do futebol brasileiro. Agora, não podemos “queimar” o jogador, passando pra ele toda a responsabilidade. Isso poderia comprometer o emocional do atleta. É aquilo que disse, tem de ir colocando aos poucos no time, mas nunca deixar de colocá-lo nem que seja uns 20, 10 minutos dos jogos.
(Diário do Pará)
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