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ESPORTE PARÁ

Clubes financiam 'organizadas'

Desde o jogo contra o Oeste-SP, dia 5 de novembro, pela Série B do Brasileiro, que a facção Torcida Bicolor (ex-Terror Bicolor) não estaria mais tendo direito a 50% de desconto na compra de ingressos para os jogos do Paysandu. Junto com a principal organi

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Desde o jogo contra o Oeste-SP, dia 5 de novembro, pela Série B do Brasileiro, que a facção Torcida Bicolor (ex-Terror Bicolor) não estaria mais tendo direito a 50% de desconto na compra de ingressos para os jogos do Paysandu. Junto com a principal organizada do clube, também teriam perdido o privilégio outros cinco grupos de torcedores: Facção Bicolor, Fúria Bicolor, Papão Guamá, Ira Jovem e Raça Bicolor. A suspensão foi determinada pela direção do Papão após integrantes da Torcida Bicolor transformarem à Curuzu num campo de batalha, impedindo que a partida do dia 18 de outubro, contra o Avaí-SC, chegasse ao final dos 90 minutos.

Até a suspensão da regalia, no entanto, as facções já haviam causado um prejuízo de quase R$ 1 milhão aos cofres do Papão. Desde que a atual diretoria assumiu o comando do clube, em janeiro, que as organizadas vinham recebendo a cada partida do time, 2.800 ingressos com preço inferior em 50% aos vendidos nas bilheterias. Cada uma delas recebia os bilhetes proporcionalmente ao número de seus integrantes. A Torcida Bicolor, por ser a mais influente, com cerca de dez mil associados na Região Metropolitana de Belém (RMB), era quem levava a maior fatia do bolo.

Como o Paysandu disputou, até a suspensão do privilégio, um total de 39 jogos oficiais na condição de mandante, sendo 16 pelo Brasileiro, 11 pelo Estadual e 2 pela Copa do Brasil, um total de 80.200 bilhetes foram entregues às organizadas. Só na Segundona, a regalia custou aos cofres do Papão uma sangria de R$ 448 mil, com os filiados das facções pagando R$ 10 a menos que os R$ 20 cobrados dos demais torcedores do clube pelo acesso ao estádio.

No Estadual o prejuízo foi um pouco menor, mas nada insignificante: R$ 154 mil relativos aos 308 bilhetes cedidos pelo clube com valor de R$ 5, cada um. Nos dois jogos que fez pela Copa do Brasil, o primeiro contra o Naviraiense-MT e o segundo com o Atlético-PR o ingresso para os torcedores ligados as organizadas tiveram valores de R$ 10 e R$ 15, respectivamente, totalizando um rombo de R$ 70 mil para o clube.
Somados os bilhetes das três competições, o Papão deixou de arrecadar um total de R$ 826 mil. Um valor nada desprezível para um clube que foi obrigado a recorrer a empréstimos bancários este ano a fim de evitar o pagamento da folha salarial de seu elenco e funcionários sofresse atraso.

Sem controle ou prestação de contas

Segundo um dirigente do clube, que pediu anonimato, a situação até antes do início do mandato da atual diretoria era ainda mais assustadora. De acordo com o informante, na gestão do ex-presidente Luiz Omar Pinheiro, as torcidas organizadas não pagavam um só centavo para ter acesso aos jogos do time. Um total de quatro mil entradas, segundo a fonte, era doado aos chefes das organizadas, que se encarregavam de distribuir os bilhetes entre os integrantes das facções.

“O pior de tudo é que não havia nenhuma prestação de conta da saída desses ingressos”, denuncia o informante. “Os bilhetes eram simplesmente entregues aos que comandam as facções e pronto”, ratifica. Segundo ele, as entradas vendidas com 50% de desconto às organizadas até a suspensão da regalia eram registradas nas contas do clube, embora ele afirme não ter certeza de que os bilhetes tenham chegado realmente às mãos dos integrantes das facções.

“É muito difícil saber se os bilhetes eram mesmo distribuídos entre os filiados de cada organizada”, diz. “A partir do momento que as facções compravam os ingressos, a gente deixava de ter qualquer tipo de acompanhamento da situação”, admite. O informante não descarta a possibilidade de a carga de ingressos ter tomado outro destino, como as mãos dos cambistas, que agem livremente em dias de jogos.

Facção deve ser acionada na justiça

Tão logo o Paysandu foi sentenciado com a perda do mando de seis jogos e multa de R$ 80 mil pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), em função dos incidentes ocorridos por ocasião do jogo com o Avaí-SC, na Curuzu, o advogado bicolor, Alberto Maia, em entrevista à Rádio Clube do Pará, prometeu entrar com ação na justiça pedindo indenização ao clube por parte da Torcida Bicolor, apontada com a responsável pelo tumulto registrado na Curuzu.

Em conversa com o Bola, o advogado do Papão afirmou que a ideia de cobrar indenização da Torcida Bicolor não foi esquecida. O clube só ainda não ingressou nos tribunais contra a facção porque aguarda pelo julgamento do recurso em que pede ao Pleno do STJD a redução da pena aplicada. De acordo com o advogado, a esperança é que o clube consiga diminuir pela metade o número de jogos de suspensão e também o valor da multa pecuniária.

“Só depois que a gente tiver o resultado desse julgamento é que vamos analisar como agir para cobrar dos responsáveis”, afirmou Maia. “Sem esse resultado fica difícil tomar algum tipo de decisão”, ratificou. Maia aguarda comunicado do STJD sobre a data do julgamento do recurso bicolor, que chegou a entrar na pauta de uma das reuniões do Pleno, sendo, no entanto, retirado minutos antes do início da sessão julgadora.

Cortar mordomias? É preciso coragem!

A facilidade na compra de ingresso mais barato não era o único privilégio concedido pela diretoria do Paysandu às facções do clube. Algumas delas, casos da Torcida Bicolor (ex-Terror Bicolor) e Raça Bicolor, também possuem suas sedes anexas ao estádio da Curuzu, sem que para isso precisem desembolsar um centavo. O aluguel de uma das muitas lojas espalhadas no entorno do estádio bicolor, segundo um dirigente ligado ao setor de patrimônio do clube é de R$ 600 mensais. Mas, desde que se instalaram no local, as organizadas nunca firmaram contrato de locação do imóvel, causando mais prejuízos ao clube.

“É realmente uma coisa que causa aborrecimento, pois são grupos de pessoas que se dizem Paysandu, mas que só querem mesmo é tirar proveito do clube”, acusa o cartola. Segundo ele, o fato de as chamadas facções terem certo peso político dentro do clube faz com que os presidentes dos grandes clubes brasileiros, entre eles o Paysandu, evitem mexer no vespeiro, o que representaria cortar as mordomias que as organizações possuem, como no caso da ocupação dos imóveis da Curuzu, por exemplo.

O problema do não pagamento do aluguel das lojas já vem de algum tempo, sem que nenhum cartola de peso dentro do clube tenha tido a coragem de pedir a entrega do imóvel ou, no mínimo, cobrar o pagamento do aluguel, como faz com as empresas instaladas no local. Há a informação oficial de que o Paysandu constituiu o escritório de advocacia, que se encarregará da cobrança da locação de todos os imóveis pertencentes ao clube, inclusive daqueles que hoje abrigam as facções de torcedores. Essa é a promessa, mas são poucos aqueles que confiam que ela seja realmente realizada.

(Diário do Pará)

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