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ESPORTE PARÁ

Futebol virou diversão perigosa

As brigas afungentam o torcedor comum. O hábito de ir ao estádio de futebol torcer e se divertir é ameaçado por conta da violência“Ir para estádio de futebol? Nem pensar. Quando eu era mais novo ainda ia com meu pai e irmão, mas hoje os tempos são outros

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As brigas afungentam o torcedor comum. O hábito de ir ao estádio de futebol torcer e se divertir é ameaçado por conta da violência
“Ir para estádio de futebol? Nem pensar. Quando eu era mais novo ainda ia com meu pai e irmão, mas hoje os tempos são outros e as brigas se tornaram mais intensas, infelizmente”, lamenta o administrador de empresas Leonardo Ribeiro, 40, que desistiu de tentar repassar a mesma cultura que recebeu do pai em levar os filhos para assistirem aos jogos de futebol em estádios. “Tenho um filho de 12, o Luiz, e a Vanessa, de 14. Até penso em algumas vezes levar eles para assistirem um amistoso mesmo, mas com a violência prefiro ver pela televisão”.

Situações como essa de Leonardo têm se repetido com a violência dentro dos estádios. Um dos últimos episódios foi o jogo do Atlético contra o Vasco. As torcidas organizadas fizeram famílias inteiras desistirem do calor da arquibancada. Mas não é preciso ir muito longe. No último domingo, a torcida do Clube do Remo, no jogo de apresentação do Camisa 33, não teve muito o que comemorar. O semblante dos torcedores era mais de indignação do que de felicidade pelo marco histórico de 15 de dezembro. “Nunca vi na minha vida torcedores do mesmo time sendo rivais. Chega a ser inacreditável. Levei minha irmã mais nova para o jogo. Queria que ela presenciasse aquele momento, mas confesso que me arrependi. Expus ela a um cenário de violência, para nunca mais”, relata o estudante Josiel Garcia, 24 anos.

Com a maioria dos jogos do Campeonato Paraense sendo transmitidos pela televisão, o torcedor esmorece de vez com os riscos de se caminhar até um estádio. “Nada substitui o calor da torcida. Nada substitui a emoção do campo, mas a falta de segurança, que antes era somente fora do estádio, no pós-jogo, me faz refletir se realmente vale a pena sair de casa sem saber se vai voltar ileso”, lastima a vendedora e torcedora bicolor, Ana Conceição, 43.

Extinção tem que ir além da teoria

Apartir da década de 90, começaram a ganhar espaço nas arquibancadas nos jogos de Paysandu e Remo duas torcidas grandes, barulhentas e que acabaram construindo entre si uma rivalidade muitas vezes mais pesada do que a própria rivalidade entre Remo e Paysandu. Remoçada e Terror Bicolor protagonizaram muitos momentos de tensão e violência, especialmente nos anos antes da reforça do Mangueirão, quando não havia sequer grades de segurança separando as torcidas – que subiam para as arquibancadas pela mesma rampa de acesso.

Após 2002, com a finalização das obras no Estádio Olímpico, pareceu que a separação reduziria os incidentes de violência, mas eles voltaram a acontecer – trocas de rojões entre as torcidas, brigas nos arredores do estádio e a morte de um menino de 11 anos após o arremesso de uma bomba de fabricação caseira no meio da torcida bicolor levaram o Ministério Público a tomar uma atitude.

No dia 13 de novembro de 2007 o juiz Marco Antônio Lobo Castelo Branco, da Vara da Fazenda do Tribunal de Justiça de Belém determinou, legalmente, a extinção das duas torcidas. Pouco tempo depois, os antigos membros reapareceram nos estádios empunhando novas bandeiras “Torcida Organizada Remista” e “Tradição Uniformizada Torcida Bicolor”, mantendo inclusive as siglas (TOR e TUTB) e, em alguns casos, os próprios cânticos. Há realmente uma forma de impedir essas torcidas de voltarem aos estádios?

“A constituição brasileira determina o livre direito de associação dos seus cidadãos. Então não há como impedir que alguém queira fundar uma nova torcida organizada com os mesmos membros da antiga”, afirma o promotor público Nilton Gurjão. Nesse caso em particular, Gurjão aponta que os grupos usaram de estratégias para burlar o veto. “A extinção foi determinada pela comarca de Belém. Alguns torcedores se reuniram e registraram a nova entidade nas comarcas de Marituba e Ananindeua, por exemplo. Para nova extinção, seria necessário fazer todo o processo dentro daquela comarca, e mesmo assim não haveria como impedir de o ciclo recomeçar em outra cidade”, lamenta Gurjão.

O promotor aponta que a única saída realmente eficaz parte de identificar os membros que atuam de forma violenta e puni-los. “Por muito tempo enfrentamos um problema com o distanciamento da polícia militar, que detinha torcedores violentos, e da polícia civil, que por excesso de contingente ou falta de provas liberava os detidos logo em seguida. A implantação do Juizado Especial do Torcedor é um caminho para reduzir essa distância e começar a separar os bons e maus torcedores”, disse Gurjão.

O promotor de justiça do Ministério Público Domingos Sávio aponta que a lei de extinção previa a punição as torcidas sucessoras de Remoçada e Terror Bicolor, e que medidas podem ser tomadas contra as torcidas. “Estamos averiguando a possibilidade para em 2014, estabelecer a execução completa da pena de extinção, com igual proibição às torcidas sucessoras” afirma o promotor.

(Diário do Pará)

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