Nascidos para serem rivais. Caminhos distintos e trajetórias vitoriosas, que a amealharam a ambos uma legião de apaixonados torcedores e que tornavam os encontros entre os dois um evento, por si só. Remo e Paysandu são as duas das paixões mais arrebatadoras do estado do Pará, e de tal forma antagônicos que não se concebe união. Bicolores e remistas encarnam nas arquibancadas de nossos estádios as divergências de antagonismo das famílias Montéquio e Capuleto, de Romeu e Julieta.
Eternas rivais, não se misturam. Quando algo desafia essa regra – como um jogador que resolve “atravessar almirante” ou um torcedor que resolve “virar a casaca” - pode-se preparar para uma tempestade. O duelo entre Leão e Papão é um fenômeno tão grandioso que para ele se criou um nome próprio – Re-Pa. Essa rivalidade e esse confronto completam neste sábado 100 anos de gritos de inconformado, xingamentos ao árbitro, gritos de gol, alegrias, tristezas e muita, muita história.
O Re-Pa é um clássico que já nasceu com a pretensão de ser grandioso. Quando em 2 de Fevereiro de 1914 era fundado o Paysandu Sport Club, reunindo diversos desportistas de outras agremiações, seu principal objetivo era derrotar o Clube do Remo. O North Club, de onde veio a maioria dos fundadores do Paysandu, reclamava que o “Grupo do Remo” havia sido favorecido no campeonato de 1913 e diante da recusa da federação em acatar com suas queixas, partiram para a fundação de um clube que reunisse o melhor dos demais times que disputavam o campeonato paraense. O primeiro Re-Pa, disputado pelo campeonato paraense de 1914, foi então o grande evento daquela competição.
No primeiro jogo, disputado às 16:20 do dia 14 de Junho de 1914, reuniram-se nas arquibancadas do Estádio da Firma Ferreira e Comandita – que futuramente seria comprado pelo Paysandu e se tornaria a Curuzu – mais de 2 mil torcedores. “Em sua maioria, apoiadores do Remo. Mas já se fazem notar muitos aficionados pelo novo clube” comentou o jornal Folha do Norte, à época. Em campo, algumas lendas do futebol paraense. O azulino Rubilar, primeiro ídolo azulino que comandaria o time no heptacampeonato entre 1913 e 1919 – enfrentava o bicolor Hugo Leão, cuja ousadia era tão grande que chegava a cobrar penalidades de costas para o gol e chutando de calcanhar.
O resultado daquele primeiro encontro apontou o time mais antigo como vencedor – 2x1 para o Remo, com gols de Rubilar e Bayma (contra) e Matheus descontando para o Paysandu. Mas não pensem que foi uma derrota categórica. Atletas e dirigentes bicolores reclamaram muito de um gol anulado de Garcia, quando a partida ainda estava empatada em 0x0. Primeiro Re-Pa de todos os tempos, primeira polêmica de incontáveis outras. Mas se não fosse assim, não seria o Clássico Rei da Amazônia.
(Diário do Pará)
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