Certos acontecimentos tem o poder de transformar completamente o comportamento de uma nação. Até 1994, o torcedor brasileiro tinha um olhar que beirava o pessimismo com a seleção nacional. Entre o tri em 1970 e o tetra, a única conquista da Seleção Brasileira foi a Copa América de 1989, comemorada como uma Copa do Mundo.
Após o tetracampeonato em 94 e o penta em 2002, o torcedor brasileiro conquistou 4 Copas América e 4 Copas das Confederações, mas as lembrança mais fortes foram as eliminações na Copa do Mundo nesse período. Os demais torneios se tornaram “pequenos demais” pra torcida brasileira que passou a conviver com um comportamento apelidado de “Síndrome de Cachorro Grande”.
Em certa medida, a conquista da Copa dos Campeões fez algo parecido com a torcida do Paysandu e alguns torcedores dizem que até preferem que o time não seja campeão da Série C. Mas por quê?
Para a torcedora fanática Flora Mendonça, 60 anos, a Série C é um “título pra Remo e Tuna comemorarem. Para o Paysandu, a maior humilhação do mundo é ter de disputar. Ser campeão, pra lembrar ainda mais, eu não quero não” ela diz.
Flora não dá o braço a torcer. Mesmo em 2006, quando seu time foi rebaixado à Série C e viu o rival se manter na B ela afirma que não aceitava discutir com azulinos. “Nós disputamos uma Libertadores, fomos campeões contra o Cruzeiro, fora de casa. O que é que eles conquistaram? Não interessa pra onde o Paysandu caia, eles é que têm que tentar nos alcançar”, afirma categoricamente. Apesar de não torcer pelo título, Flora diz que não vai torcer para o time ser derrotado e que se for campeão vai comemorar “como se fosse um Parazão qualquer”, define a torcedora.
Mas para um torcedor mais jovem, como Tarcisio Nunes, de 17 anos, esse título seria sua maior experiência como torcedor até aqui. “Vi uns vídeos, talvez eu tenha visto na época, mas eu era muito novo, não acompanhava, não vivi aqueles grandes momentos. O nosso último título nacional tem 12 anos.
Se é uma Série C ou outra coisa não importa, eu quero poder dizer que vi o Paysandu ser campeão brasileiro”, afirma Tarcisio, que cita o exemplo de um clube da elite que já passou por esse calvário. “O Fluminense jogou a Série C e foi campeão. Eles são tetracampeões da Série A, a gente pode esbanjar mais que eles?”, comenta.
A polêmica é intensa e divide torcedores, mas há quem tenha um olhar ponderado e bem humorado sobre a coisa. “Eu vou comemorar muito e torço pelo título da Série C, especialmente por ser um título nacional e no ano do centenário. Vai ser até legal pra provocar no dia seguinte, dizendo pros remistas que o título mais importante da história do clube deles é o menos importante entre os nossos nacionais”, afirma o publicitário Pedro Bragança, 31 anos.
(Diário do Pará)
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